         DONZELA CRIST
        PADRE MATIAS DE BREMSCHEID

        EDITORA PAULINAS, ANO DE 1935


                  NDICE




           1- Santificao da mocidade
                   2- Amor de Deus
              3- Uma fonte de energia
                 4 - O dia do Senhor
                    5 - A penitncia
             6 - A Sagrada Comunho
        7 - O augusto Sacrifcio da Missa
                  8 - Ama a tua me
               9 - O respeito humano
             10 - A fidelidade aos pais
             11 - O tesouro escondido
               12 - Dons do corao
                    13 - O trabalho
      14 - Amor a ordem e a pontualidade
                     15 - Economia
             16 - Alegria e bom humor
               17 - O amor a verdade
                    18 - A gratido
            19 - Carter firme e nobre
                    20 - Obedincia
              21 - Bom uso da lngua
     22 - Benevolncia para com o prximo
               23 - Os dois rochedos
          24 - Preparao ao casamento
               25- O estado religioso
26 - Moas que permanecem solteiras no mundo
                                 ADVERTNCIA

Quando comecei a leitura do primeiro captulo deste livrinho, convenci-me desde logo,
do seu valor, como guia e conselheiro da juventude feminina. Verifiquei que no existia
nenhuma traduo noutras lnguas, nem mesmo em francs. Animado, ento, pelo
desejo de fazer conhecidos os ensinamentos to sbios e proveitosos nele contidos,
empreendi a sua verso para o portugus.

Destina-se este trabalho s donzelas crists, principalmente s Filhas de Maria, e seu
escopo principal  fornecer-lhes uma direo espiritual e moral, de acordo com a
doutrina da Igreja e os conselhos evanglicos. Nas horas vagas, leia a jovem crist, com
ateno e fervor, um s captulo, e siga conscienciosamente a orientao indicada. Ter,
ento, um amigo fiel que lhe proporcionar, com certeza, grande benefcio temporal e
eterno.

 este o meu sincero desejo.

O Tradutor.

* Homenagem s piedosas filhas de Maria da parquia do Cambuci em So Paulo.


                       1 - SANTIFICAR A MOCIDADE




1- Orna, donzela crist, de virtudes a tua mocidade.

Para isto, deve o teu pensamento, antes de tudo, incitar-te para Deus. Quando desejas
mimosear tua amiga com uma rosa, certamente, no lhe envias uma flor sem vio, cujas
ptalas caram em parte, antes escolhe a rosa mais fresca, mais viosa e mais olorosa do
teu jardim; pois, somente esta ser recebida com gratido, enquanto a primeira ser
desdenhosamente rejeitada. Do mesmo modo dever proceder, donzela crist, para com
teu Deus. A mocidade  o tempo mais belo, mais florescente mais alegre de tua vida.
Assemelha-se  primavera, na qual, por toda parte, na natureza, se agita uma juventude
forte e fresca; inmeras flores abrem a doce corola, o cu azul sorri por cima de nossas
cabeas e uma exalao aromtica nos envolve. Assim sucede agora contigo.
Como corre fresco e forte o sangue em tuas veias, como teus olhos cheios de esperana
fitam o futuro, e como so elsticas as foras do teu esprito! Teu corao ainda no est
dominado pelas paixes e se entusiasma por tudo quanto  elevado e bom. Na tua fora
juvenil e na tua inocncia, tu s mil vezes mais bela que a mais formosa flor, de cujas
ptalas pende uma gota de orvalho, onde brilha maravilhosa a imagem do sol.

Este tempo mais belo de tua vida no o deves negar a Deus, a quem tudo tens que
agradecer, at a ltima gota de sangue de tuas veias e a menor fibra de teu corao; a
Deus, para cujo servio fosse criada e perante cujo tribunal hs de comparecer um dia, a
fim de lhe prestar contas de toda tua vida, como tambm de tua mocidade; a Deus que te
ama infinitamente e que encontra o Seu maior prazer nos servios que lhe prestas na tua
mocidade, e por isto Se inclina para ti cheio de graas e pede o teu amor sincero:
"Minha filha, d-me o teu corao". (Prov. 23,26). Este teu nobre corao no o deves
negar a Deus, para d-lo ao mundo, que aproveita de ti e por fim te ilude; nem a uma
paixo que te escraviza, cega e conduz ao caminho de perdio. No, no! Tal coisa no
pode, nem deves querer. Tem sempre em vista a admoestao do Esprito Santo:
"Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade" (Ecl. 12,1). Alegremente e com
entusiasmo deves consagrar-lhe o mais belo tempo de tua vida. De fato: somente aquilo
que  mais belo, melhor e mais excelente  digno de Deus.

2- Orna donzela crist, de virtudes, a tua mocidade.

Para isto, deve, em segundo lugar, o teu pensamento incitar-te para teus pais. Eles te
amam ainda mais do que podes pressentir. Seu corao pulsa por ti, seu entendimento
pensa e cuida de ti, suas mos trabalham por ti. As camarinhas de suor que lhes
deslizam pela face, equivalem ao teu bem-estar: os muitos, pequenos e grandes
sacrifcios que tua me se impe, todos os seus pensamentos e trabalhos, preces e
sofrimentos so consagrados  tua felicidade. A tudo quanto teus pais fazem e sofrem
por ti suas esperanas para o futuro; confiam que no te esqueas os seus benefcios,
antes os compenses por teu excelente proceder; esperam que lhes enchas o corao de
alegria e satisfao; que, um dia, quando chegarem  velhice, com as mos a tremer e os
ps a vacilar, sejas sem dvida, o seu cajado, sobre o qual podero apoiar-se com
firmeza na sua caducidade. No queres, porventura, satisfazer esta esperana de teus
pais? No queres ser grata ao seu grande amor e desvelo por ti? Perto que sim,
porquanto possuis um corao nobre e leal. Conheces, porm, o melhor e mais seguro
modo de manifestar essa gratido a teus pais?

Ei-lo: viver a vida crist, distinguindo-te entre as companheiras de tua idade pela virtude
e pureza de costumes, pela modstia e diligncia, sendo por todas, que te conhecem,
altamente apreciada e honrada. Quando o souberem teus pais, sentir-se-o altamente
ressarcidos de todos os cuidados e sacrifcios que houverem feito por ti. Mas do que o
jardineiro com suas flores, mais do que o arquiteto com o xito feliz de sua obra de arte,
se alegraro teus pais contigo, se transcorreres a mocidade ornada das mais belas
virtudes. Ser ento a alegria e o enlevo, a consolao e o legtimo orgulho, a felicidade
e a coroa da glria de teus progenitores. Verificar-se- em teus pais a palavra da
Sagrada Escritura: "Oxal, se alegrem teu pai e tua me, e se rejubile aquela que te deu
a luz". Prov.23,25). Esfora-te, pois, para que um dia possas dizer com sinceridade:
tenho sido alegria e o orgulho de meus pais.
3- Enfeita tua mocidade com as virtudes.

Para isto deve finalmente o teu pensamento, em terceiro lugar, incitar-se para ti mesma.
Quando algum deseja construir uma casa que possa por longo tempo desafiar as mais
violentas tempestades e dar segura proteo aos habitantes, deve, antes de mais nada,
lanar um fundamento slido, uma base firme, um bom alicerce. Se a base for
construda sem o devido cuidado,  para se recear que um dia a casa venha abaixo,
sepultando nos escombros os moradores.

Nota da transcrio: Aqui faltou a concluso, pois meu livro veio faltando uma pgina.


                               2- AMOR DE DEUS




Muitas jovens crists se tm distinguido por uma grande piedade, que consiste no amor
de Deus e na fidelidade ao Divino Salvador. Estavam resolvidas a sofrer tudo de boa
vontade, a sacrificar at a prpria vida, para no ofenderem a Deus e se no tornarem
infiis ao Seu Salvador. A mrtir Santa Susana brilhava em Roma pela alta nobreza do
seu nascimento e pelos dotes excepcionais de esprito e de corpo. O Imperador
Diocleciano desejava, ento d-la por esposa a seu cor-regente Galrio Maximiano, e
para este fim pediu-a ao pai. Dirigiu-se este imediatamente,  casa da filha e assim lhe
falou:

- "Minha filha, compreendeste bem o valor e a superioridade de ser esposa de Cristo?"
- "Eu o conheo to bem - replicou Susana - que em minha opinio, todas as coroas
deste mundo nada so comparadas com Ele".

Instou Gabino? "Julgas retamente. Mas, se o Imperador te destinasse para esposa de
Galrio, a dignidade de imperatriz no venceria o teu amor ao Salvador Crucificado?
Sers, acaso, bastante forte, para preferir, por amor de Cristo, morte cruel a cingir a
coroa de Imperatriz?" Radiante de jbilo, respondeu Susana: - "Ah! meu querido pai,
quanto no me sentiria feliz, se me fosse concedido sacrificar a vida por amor ao divino
esposo, que derramou Seu sangue pela minha salvao! Nenhuma prpura seduz-me,
nenhum martrio me atemoriza!"

- " o que provars dentro em breve", respondeu comovido o pai cristo, animando a
filha, para o combate iminente. A todos os engodos e adulaes, como tambm as
ameaas e injrias, Susana ops inabalvel firmeza. Os mais cruis martrios, nem
sequer um instante a fizeram vacilar no seu amor ao Divino Salvador. No precisas,
leitora crist, sofrer pelo teu Divino Salvador, a morte violenta pelo martrio doloroso:
deves, todavia oferecer-Lhe o primeiro lugar no teu corao juvenil; quer te chame Deus
para o matrimnio, quer para o estado religioso ou para uma constante vida de solteira
no mundo.

1- Ama a teu Deus e Salvador acima de tudo!

Ningum, como Ele,  to infinitamente amvel. A beleza e elegncia, a bondade e
virtude, a perfeio e amabilidade de todos os homens nobres, de todos os bem-
aventurados e santos do cu, e at da prpria Santssima Virgem Maria, nada so,
confrontadas com a bondade e perfeio de Deus.  como uma gota de gua comparada
com o imenso oceano, o qual no se pode atravessar com a vista, e que to facilmente
sustenta os maiores navios, como se fossem franzinas e leves palhas. Deus 
infinitamente belo e nobre, infinitamente bom e perfeito, infinitamente digno de louvor
e amor. Enche com Sua magnificncia o cu em toda imensidade, arrebata com Sua
beleza os espritos mais sublimes do empreo, inebriando-os de alegria e delcias
inexprimveis. Para Ele, certamente, o teu pequeno e imperfeito corao no 
demasiado grande. Ama-O, portanto, de todo o corao, e com toda a fora que puderes.

2 - Teu Deus e Salvador ama-te, acima de tudo!

De fato: no existe ningum, nem no cu, nem na terra que te ame infinitamente e com
tanto extremo como o teu Deus.  certo que teus pais te amam, deveras, e de todo o
corao, desejam a tua maior felicidade e se sacrificam inteiramente por ti. Talvez,
tenhas uma irm dedicada, um bom irmo ou um amigo nobre, que te querem muito e
em cujo amor sincero pode confiar. No entanto, infinitamente mais do que estes te ama
teu Deus e Salvador. Enquanto estou a escrever estas linhas, aproxima-se o Natal; mais
alguns dias apenas, e celebraremos a augusta e santa festa.

Milhares de cristos cantaro com entusiasmo as magnficas canes do Natal. A alegria
brilhar em todos os olhos, semelhante a uma torrente de delcias inebriantes, que
percorre toda a cristandade e penetra todos os coraes em que ainda brilha o lume da
f. Que  que torna este dia to querido ao nosso corao, e to desejado por ns, seno
porque o Natal corresponde perfeitamente s esperanas de nossa alma e a arrebata num
transporte de entusiasmo?  o pensamento do amor do Divino Salvador para com os
homens pecadores. Ajoelhamos, em esprito, perante o pequeno e frio prespio de Jesus,
contemplamos a Sua profunda humilhao, vemo-lO to pequeno, frgil e pobre,
modestamente reclinado sobre algumas palhas. A exemplo do sbio So Jernimo,
tomaremos as tenras mozinhas do Menino e as apertarmos contra os nossos lbios,
agradecendo-Lhe de corao o infinito amor, que O obriga a tornar-Se to pequeno por
nossa causa, a humilhar-se to profundamente e de modo to inefvel por nosso amor.
Como o prespio, a Cruz erguida no Calvrio tambm nos fala do amor de Jesus. L
est suspenso o Divino Salvador, torturado pelas dores mais cruis sobre o duro
madeiro da Cruz; mos e ps transpassados por agudos cravos; cabea cingida por uma
coroa de espinhos; o sagrado corpo como que semeado de chagas; a alma, por assim
dizer, imersa num mar de ntimos sofrimentos. Tudo isto suporta Ele por teu amor, para
tua salvao. Suas chagas segredam-te: v a que extremos te amou o teu Jesus. No
queres, tu tambm, am-lO? No queres, at o ltimo alento de tua vida, manifestar-Lhe
a tua gratido por este amor? Desvia, depois, o teu olhar da Cruz ensangentada para o
solitrio Tabernculo da tua igreja paroquial. Dia e noite, arde diante dele uma chama
tnue. Lembra-te que, debaixo das acanhadas formas do po, est presente o teu Deus e
Salvador, "luz que ilumina a todo homem que vem a este mundo". Aqui se humilha por
amor de ns, ainda mais do que no prespio e no Calvrio: porque l manifesta-se em
Sua figura humana e ostenta ainda alguns fugitivos raios da Sua divindade. Por ocasio
do Seu nascimento uma luz celestial se estende pelas campinas de Belm com uma
claridade admirvel, e ouvimos o canto dos anjos.

No momento de Sua morte na Cruz as trevas envolvem o sol, partem-se os rochedos,
abrem-se os sepulcros, e um pressentimento misterioso penetra os coraes dos
assistentes, a tal ponto que, tomado de profunda comoo o centurio exclama:
"Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus!" Mas aqui, sobre o altar, at a Sua
prpria natureza humana o Senhor oculta aos nossos olhos e Se esconde por inteiro sob
as pequenas e diminutas formas do po. Nem sequer um raio da Sua divina
magnificncia e do Seu poder Ele permite que transparea; s a humilhao, a mais
profunda humilhao que se pode conceber,  o que Ele aqui apresenta. E tudo isto por
amor de ns, homens pecadores! A fim de permanecer entre ns, homens pecadores! A
fim de permanecer entre ns, como nosso amigo e irmo, para se sacrificar
quotidianamente por ns, de modo incruento, para poder, at mesmo na Sagrada
Comunho, converter-se em alimento das nossas almas.

Ele escolheu esta atitude da mais extraordinria humilhao. Este amor to grande e to
ntimo, que excede a nossa imaginao, no merece, porventura, a correspondncia do
teu amor completo e constante, donzela crist? Deves, freqentemente, dizer a ti
mesma: nunca poderia corresponder integralmente ao infinito amor de meu Jesus, nunca
chegarei a am-lO suficientemente, e a agradec-Lhe como Ele merece! Eis, porque,
pretendo ao menos, esforar-me o mais possvel para remuner-lO por tudo quanto, Ele
fez e sofreu por mim; at o ltimo alento da minha vida, quero permanecer fiel ao amor
que Lhe consagrei!

3- Ama, acima de tudo, ao teu Deus e Salvador.

Nada h que tanto enobrea teu corao, como o amor de Deus! Este amor te defender
contra o pecado, que desfigura e afeia o corao do homem. Com razo diz So
Jernimo: "Ama a Deus e faze depois o que quiseres". Tinha este santo  firme
persuaso de que, ningum pode amar a Deus e ofend-lO deliberadamente: 
impossvel. Assegura-o o mesmo Divino Salvador: "Se algum me ama guardar a
minha palavra". (Jo.14,23). O amor de Deus far teu corao propenso ao sacrifcio. De
fato: quem ama a Deus, deveras, se esfora para que os outros O conheam sempre
melhor e O amem mais intimamente. Todo sacrifcio feito para este fim, parecer-lhe-
doce e santo dever. O amor de Deus infundir em teu corao a coragem forte para as
penosas dificuldades da vida. Este amor dar a tais penas uma quase consagrao e na
abnegada renncia, elas encontraro o seu aperfeioamento e coroa. No  isto que nos
atestam os grandes heris do amor divino? Enfrentando todos os sofrimentos e
dificuldades, no exclamam triunfantes So Paulo, o Apstolo dos gentios: "Quem nos
poder separar do amor de Cristo?" (Rom. 8,35).

O amor de Deus, finalmente, far teu corao bondoso e servial para com teu prximo.
Se amares a Deus como te cumpre, ver ento em cada homem a imagem de Jesus, o
Filho querido de Deus, e amars por causa de Deus, cumprindo a palavra do teu Divino
Salvador: "Amars a teu prximo como a ti mesmo" (Mt. 22,39). Visto que o amor de
Deus exerce sobre ti salutar influxo, deves procurar aperfeioar-te de maneira particular
nesta importante virtude. Acostuma-te a exercitar em ti freqentes atos de amor de
Deus; pela manh, quando despertares;  noite, quando te entregares ao descanso;
durante o dia, enquanto te dedicas a algum trabalho; e at mesmo nos momentos de
folga, em que refazes as foras consumidas pela fadiga. Nas ocasies em que est
sozinha, deixa partir de teus lbios, ou ao menos pronuncia no teu ntimo estas palavras:
, meu Deus, eu Vos amo sobre todas as coisas, porque sois infinitamente bom,
infinitamente perfeito e digno de amor.  meu Salvador, eu Vos amo sobre todas as
coisas porque Vs me amastes infinitamente e me cumulastes de muitas graas.

Acostuma-te a executar com prazer, por amor de Deus, os teus trabalhos dirios e
a aceitar de boa mente os dissabores. Renova, para tanto, muitas vezes as tuas boas
intenes e propsito. Refora e melhora freqentemente o teu amor a Deus por meio de
uma grande piedade para com o SS. Sacramento do Altar, no qual o Divino Salvador te
d  maior prova de amor. Visita, com prazer, o Senhor no Tabernculo; assiste, se
puderes, tambm nos dias teis, ao santo sacrifcio da Missa, recebe amide a sagrada
Comunho. Assim agindo, o teu amor a Deus, receber sempre nova fora e novo calor.


                        3 - UMA FONTE DE ENERGIA
                                 ORAO
A orao  um colquio de amor com Deus. A criana, que ama verdadeiramente os
pais, gosta de falar com eles, manifesta-lhes tudo que agita o seu corao. Cada alegria
que sente, vai logo comunic-la  me, ou ao pai; expe-lhes todas as suas dores; narra-
lhes os seus receios; conta-lhes os seus interesses.

Se a criana passasse com seus pais um dia inteiro, sem lhes dirigir uma s palavra,
teriam muita razo em se queixar: nosso filho no nos ama, pois se nos amasse seria
mais comunicativo conosco.  o que dar contigo, jovem crist, se amares a Deus e
Vosso Salvador, verdadeiramente, e de corao, sentir-se-s necessariamente compelida
a falar com Ele, a entreter-se com Ele, isto , a rezar. A orao  para ti um dever
sagrado, que no hs de omitir um s dia sequer.

1 - A orao te enobrece.

Conta-se que a opala  luz solar por muito tempo,  penetrada to profundamente pelos
raios, que (esta pedra) se torna inteiramente luminosa, e na escurido da noite, irradia
uma luz brilhante.

A opala  a imagem da alma, que na orao, se pe em contato com o Altssimo.

A alma, quando reza, entra em relao ntima com Deus, infinitamente grande,
infinitamente perfeito e santo. A luz de Deus, os raios da Sua santidade e magnificncia
atuam sobre ela. Deus a alumia e a penetra cada vez mais com Sua graa, a atrai cada
vez mais para si, eleva-a e a enobrece. A alma, pela orao, torna-se semelhante a Deus.
Aqui, tambm, viria muito a propsito o brocardo: "Dize-me com quem andas e dir-te-
eis quem s".

Afirmou algum: o homem  to grande, quanto o so seus pensamentos. Se isto 
verdade, no deve ento a donzela, quando ora, com seu esprito embebido de infinita
sublimidade e grandeza de Deus, transportar-se a uma altura que deixe muito abaixo de
si todas as grandezas da terra? No deve a sua alma, o seu entendimento e a sua vontade
adquirir sempre mais luz, mais perfeio, mais nobreza de corao? "Aproxima-te do
Senhor, e sers iluminada". (Sl. 33,6).

So Gregrio Nazianzeno comenta: "Assim como o corpo se torna iluminado pela luz
do sol, assim tambm a alma recebe a luz atravs dos raios da graa, na orao".

Quem reza, sobranceia sempre todas as criaturas visveis, que no podem orar. Entre os
prprios homens, o pobre operrio, que todos os dias junta as mos calosas para rezar,
piedosamente,  mil vezes mais digno de louvor e respeito, do que o prncipe orgulhoso,
que despreza a Deus e nunca ora. A humilde criada, que no recebeu nenhuma formao
especial e que deve, constantemente ocupar-se de seu trabalho obscuro, mas ama a Deus
e todos os dias, regularmente, faz a sua orao piedosa, acha-se num plano muito mais
alto do que a dama vaidosa que arrasta a seda e veludo e ostenta custosos diamantes,
mas que h muitos anos no se preocupa com Deus e no quer saber da orao.

Se no rezas, jovem crist intimamente renuncia a Deus, fonte nica de tudo que  bom
e nobre, e retornas  pobreza do teu prprio eu, que te arrasta para a misria e para o
pecado. Se no rezas, abdicas da tua verdadeira dignidade.
2 - A orao fortalece-te.

L est uma rvore, com sua beleza e suntuosidade prprias da primavera; ornada de
verdes folhas e toda ataviada de lindas flores. Aproxima-se dela um insensato e pensa
consigo: "Faz-me pena esta rvore! Tudo nela  belo: os ramos, que se agitam no ar; as
flores, cujas formosuras encantam. Todavia, a casca spera e feia que lhe reveste o
tronco deforma-a completamente. Deve, portanto desaparecer". Comea ele a retirar
aquela casca to pouco vistosa, arrojando-a para longe.

Mas, qual a conseqncia? Durante algum tempo a rvore, com certa dificuldade,
permanecer ainda verde e se cobrir de flores; depois entrar a murchar, e, no outono,
em vo nela se procurar um fruto, sequer. Aquela casca desprezada contm os canais,
como que veias, atravs das quais circulam a eiva e a fora, a vida e o vigor. A privao
da casca explica a morte da rvore. O mesmo acontece com a orao, que muitas jovens
e donzelas desprezam com arrogncia e leviandade. Os atos de piedade so como canais
e veias por onde descem at ns a fora e a graa sobrenaturais.

Se rezarem bem, donzela crist, ests a te apoiar humildemente em Deus e d'Ele, que  a
fora e poder infinitos, jorraro a santidade e o vigor sobre a tua fraqueza. Sentir-te-
reanimada e fortalecida, de tal modo que poders dominar as tuas ms inclinaes e
exclamars, ento, como o Apstolo dos gentios: "Tudo posso Naquele que me
conforta" (Fil. 4,13). Como a orao nos comunica fora sobrenatural contra os
inimigos da nossa salvao, admoesta-nos o Divino Salvador: "Vigiai e orai para no
cairdes em tentao" (Mt., 26,38).

Eis por que se deve, sobremodo, lamentar que muitos jovens, e at muitas donzelas,
precisamente naqueles anos em que os ameaam tantos perigos e tentaes, rezem com
demasiada negligncia, e por vezes, durante largo tempo, abandonem de todo a orao.
Quantas moas, moralmente fracas, passariam a ser virtuosas se todos os dias fizessem
orao, de modo regular! A sua infelicidade tem por causa o abandono da orao.
Esqueceram a Deus e no se importam mais com Ele; e Deus as abandona a sua prpria
fraqueza e impotncia. Disse um grande bispo dos ltimos tempos, Martinho de
Paderbon: " grande desgraa pecar, mas h uma desdita ainda maior - pecar e deixar
de rezar".

3 - A orao  fonte de consolaes e de entusiasmo.

Quando, no ardente vero, os raios abrasadores do sol queimam por muito tempo, as
flores deixam cair s corolas tristes e murchas. Mas, quando a noite desce e o branco
orvalho penetra na terra, tudo na natureza respira, novamente, at as flores se erguem
reanimadas e alegres. Para o corao humano existem, tambm, s vezes, certas horas
em que lhe falta nimo, como  pobre flor, nos dias abrasados do vero. Horas, em que
sente a perfdia, ou se v em conflito com a maldade humana; horas, em que graves
tentaes o assaltam e perturbam, ou duros e amargos sofrimentos espirituais procuram
roubar-lhes a coragem e a confiana.

Sabe, porventura, o que pode levantar-te o esprito naquelas horas, dar-te nova vida,
novo alento?  o orvalho da graa celeste, que a orao filtra em tua alma. Encaminha-
te, pois a casa de Deus ou ao teu quarto, recolhe-te, ajoelha-te e expe a Deus teus
sofrimentos, implora o Seu auxlio, e persuade-te de que recebers nova energia e uma
disposio ntima para continuar a viver. "Chama por mim no dia da tribulao, eu te
salvarei e tu me louvars" (Sl. 49,15). E, se acaso Deus, no afastar de ti completamente
a adversidade, ela se converter para ti em fonte de bnos, no tempo e na eternidade.

Como a orao  poderosa em sumo grau, toma resolues particularmente apropriadas
a tua vida de piedade. Se h tempo, em que a necessidade da orao se faz sentir de
maneira especial,  sem dvida o tempo da azfama e ansiedade, da disposio e
aodamento.  justamente nesta fase que nos devemos apegar a Deus, e da noo da
eternidade tirar uma fora sobrenatural, sempre nova, que nos senhoreia e fortalece; do
contrrio, desvanecer-se-iam as nossas energias espirituais, e dentro em pouco nos
tornaramos servos submissos de "Mamon", ou escravos das paixes idlatras de ns
mesmos.  precisamente, ao nosso tempo, que se aplica a velha e sbia divisa: "Ora et
labora" - Reza e trabalha! Portanto, donzela crist, antes de tudo, no deixe de fazer
regularmente a tua piedosa orao, pela manh. Tambm aqui se verifica a sentena: "A
hora matinal tem ouro nos lbios" - Morgenstund hat Gold in Mund.

- No decorrer desta orao matinal, to pouco omitas uma ou outra resoluo apropriada
ao dia que se inicia.

Prope-te, sobretudo, estar atenta a cada ocasio favorvel que se oferecer para corrigir
tua inclinao e evitar as faltas habituais, vencendo-te a ti mesma. Suplica humilde ao
teu Divino Salvador o auxlio de Sua graa, para que possas cumprir fielmente tuas boas
resolues. Antecipa-lhe tambm a oferta de tudo quanto no decorrer do dia fizeres.
Esta boa disposio ser de grande proveito para a vida crist. Renova-a, portanto,
muitas vezes durante o dia, sobretudo quando a impacincia tentar estabelecer-se no teu
ntimo, ou alguma inteno vaidosa buscar infiltrar-se em tuas aes.  noite agradece a
Deus, em poucas palavras, todas as graas e benefcios que te concedeu durante o dia.
Examina a conscincia sobre os pecados e faltas que cometeste, excita em ti um
vigoroso ato de arrependimento, acrescentando-lhe a firme resoluo de te vigiares
melhor no dia seguinte e cumpre fielmente as tuas obrigaes. Encomenda-te  bondade
infinita de Deus,  Bem-aventurada Virgem Maria e ao teu Anjo da Guarda, para que te
protejam durante a noite contra todos os perigos da alma e do corpo.

Em dez minutos poders fazer bem a orao da manh e da noite. No entanto, muito
grande te ser a sua utilidade, se permaneceres constantemente fiel a este salutar
exerccio. Para fazeres bem, com ateno e piedade, a tua orao, cumpre-me
aconselhar-te, sobretudo, a te colocares na verdadeira disposio logo no incio dela,
pondo-te vivamente na presena de Deus, com o que lhe dars bom comeo. Se, ao
depois, sobrevierem distraes, concentra-te de novo e continua a rezar tranqilamente.
Desejaria ainda inculcar-te, que faas tua orao da manh e da noite de joelhos, se isto
no te for muito incmodo. Assim a orao ter mais fora, se lhe associarmos o
desprendimento e a humildade. Esta  a atitude mais conveniente a ns, criaturas
pecadoras, e mais conforme a grandeza infinita e  santidade de Deus. Pensamentos
grandes e elevados surgiro no esprito da donzela, toda a vez que se entretiver com o
Senhor em orao humilde e piedosa. Faze, portanto, a tua orao cada dia
regularmente.
                            4 - O DIA DO SENHOR




Um dos Santos Padres da Igreja denominou o domingo:"Rei e Prncipe de todos os
dias". Outro opina que a vida sem domingo seria um grande deserto sem osis.
Certamente seria uma vida triste. Pode-se dizer que o domingo  como que a raiz da
semana. De uma raiz boa e s, brotam tambm galhos, folhas, flores e frutos sos e
bons. De modo anlogo, a um domingo cristmente festejado, sucede uma semana
inteira de cunho cristo. Consiste a vida do homem em certo nmero de semanas, as
quais trazem impresso o selo do valor que lhes comunica o domingo, por onde
comeam. Com muita razo se poderia dizer: assim como for o teu domingo, assim ser
tambm toda a tua vida. De que modo dever, ento passar o domingo, para que se torne
uma fonte de bnos para a tua vida e para a eternidade futura? Eis uma pergunta de
grande importncia para ti.

1 - O domingo deve ser, antes de mais nada, dia de descanso.

O descanso dominical  uma necessidade para o corpo e para a alma. Poder algum
trabalhar ininterruptamente, todos os dias, nos domingos e dias teis, por um lapso do
tempo; poder faz-lo mesmo durante alguns anos; mas, chegar com certeza o tempo
em que as foras constantemente ativas entraro a adormecer, ou se quebraro de sbito.

O descanso que,  tarde se desfruta, aps o trabalho dirio, e um bom sono pela noite
adentro, so de grande proveito para o corpo; mas, quanto  durao no bastam para
estabelecer o necessrio equilbrio das foras. Os mdicos sustentam mui
judiciosamente que, para se manter em pleno vigor, alm do pequeno descanso dirio,
de tempo a tempo, necessita o corpo humano de uma pausa e folga mais longa, um
maior relaxamento das foras. Isto se aplica, sobretudo, aos tempos atuais, que, pela
crescente concorrncia em todos os domnios, despertam em quase todos os homens, at
mesmo nos rapazes e nas moas, maior dedicao ao trabalho. Com seu descanso maior
e mais longo repouso, , portanto, o domingo uma verdadeira bno para a nossa vida
corporal. Lord Palmerston, conhecido estadista ingls, conservava ainda, na velhice,
grande atividade e vigor, que ele principalmente atribua ao fato de se haver
sistematicamente abstido do trabalho dominical, em todo o percurso de sua longa vida.

O descanso do domingo  em segundo lugar, uma necessidade para o sossego da nossa
alma. Precisa tambm esta de repouso, e talvez ainda mais do que o corpo, para no
perecer, nem se entibiar. Isto se ajusta, principalmente, ao nosso tempo. A confuso da
vida atual gasta e arruna no s as foras do corpo, mais ainda as da alma. Quantas
lutas e contrariedades, quantas agitaes e aflies no traz consigo a semana? Deve o
homem pensar em tudo, cuidar de tudo, e, muitas vezes, desde os seus mais verdes
anos!...Quanta poeira no se v constrangido a sorver, que a pouco e pouco lhe dificulta
e embaraa tambm a vida espiritual! Quanta coisa se lhe depara, que o torna fraco,
impotente, e o arrasta na onda da vulgaridade!

Ser para ele um grande benefcio, se ao domingo puder sacudir aquela poeira e desviar
a lembrana e a preocupao das pequenas coisas; se puder dirigir seus pensamentos e
desejos para outras mais altas e maiores, para coisas celestiais e divinas. Ento,
pensamentos elevados voltaro de novo  alma; pensamentos, que a conduziro a uma
atmosfera melhor e mais pura; pensamentos, que a elevaro e lhe daro foras para se
preocupar com o que  nobre e bom. No se afrouxar facilmente este lao feliz e
abenoado, se cada qual se limitar a ocupar-se diariamente com seu trabalho e na sua
imperturbvel serenidade puder somente dedicar-se aos de fora?

Sem o descanso e a elevao da alma ao domingo, estar o homem em perigo de recair
na podrido espiritual. O descanso dominical , finalmente, uma necessidade para a vida
da famlia. A vida de famlia s ser bela e cheia de bnos, quando for uma vida
contente e feliz, quando o lao da unidade e do amor estreitar fortemente todos os seus
membros.

- Em conseqncia, os membros isolados da famlia, no se tornaro, com o tempo,
cada vez mais estranhos?
- Aquelas relaes cordiais que devem reinar entre pais e filhos, no se esfriaro a
pouco a pouco?
- Deplorvel seria isto para ambas as partes. O domingo, portanto, no qual, segundo o
possvel, se descansa do trabalho, no ser grande benefcio para a famlia?

 ento que, mais do que durante a semana, podero pertencer-se mutuamente e discutir
entre si, com serenidade de esprito, todos os interesses da casa; reunidos em orao,
pediro a Deus a paz e felicidade eterna e repartiro entre si felicidade e descanso no
amor. Aquele lao de unidade e cordial reciprocidade no se tornar desse modo
fortemente apertado, e a felicidade ntima da famlia visivelmente acrescida?

2 - O domingo , em segundo lugar, dia de piedade e orao.

No tenho dvida em acreditar que tambm nos dias da semana, fazes a tua orao,
mxime pela manh e  noite, e que ainda com boa e santa inteno te entregas aos
trabalhos dirios e aceitas as contrariedades da vida, como se tudo pertencesse ao
servio divino. No entanto, isso no te basta; hs de consagrar, exclusivamente, um dia
da semana, a Deus e a salvao de tua alma. Tudo o que s e tudo o que tens, a Deus
devers agradec-Lo. Ser, porventura, demasiado, que procures dedicar a Deus um dia
da semana, santificando-o pela piedade?

Deus  infinitamente grande, infinitamente perfeito e bom; a eternidade toda no te ser
bastante para louv-lO, exaltar e amar; no ser, pois muito justo e razovel que, ao
menos uma vez por semana, O louves mais do que nos outros dias e Lhe rendas aes
de graas pelos seus infinitos benefcios? Deus  teu Pai, infinitamente amoroso e digno
de se amado; e tu, que s sua filha, no poders, uma vez por semana, entreter-te com
este Pai, mais demoradamente e de maneira familiar? No deverias de antemo alegrar-
te neste colquio com Deus, como o bom filho, ou boa filha, se alegra naqueles
momentos em que pode comodamente palestrar com seu bom pai e sua querida me?

Eis como deves compreender (ou empregar) o domingo, para que te seja um dia de
alegria e delcias. Se tiveres este elevado conceito de domingo, ento assistirs antes de
tudo, regularmente, ao santo Sacrifcio da Missa. No h nenhum ato em que Deus mais
se compraza, do que no Santo Sacrifcio que seu prprio Divino oferece pelo ministrio
do sacerdote, na Santa Missa. No existe, portanto, nenhum outro ato pelo qual possas
honrar mais a Deus e santificar o domingo.

Seja, pois, esta a tua atual e permanente resoluo: quero, cada domingo, sempre que
me for possvel, assistir com devoo e piedade a uma Santa Missa. Ouve tambm, com
boa e piedosa disposio, a palavra de Deus. A pregao  para todos ns importante,
principalmente para a mocidade, que, hoje mais do que nunca, est exposta aos maiores
perigos para a sua f e as suas virtudes. Se a mocidade negligenciar a audio da palavra
de Deus, ento, bem depressa e facilmente se tornar tbia e frouxa na sua santa f e nas
suas virtudes crists. No foi em vo o que disse o Divino Salvador: "O homem no
vive s de po, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus". (Mat., 4,4)

Recebe tambm, com boa preparao e piedade, os santos Sacramentos da Penitncia e
da Eucaristia. Quanto mais freqentemente o fizeres, tanto melhor para ti. Logrars,
ento, graas cada vez mais abundantes para o combate contra o pecado e para a prtica
das virtudes. Permite-me ainda aconselhar-te a assistires, depois do meio dia, ou  noite,
em alguma igreja, a algum ato ou funo religiosa; ou em tua prpria casa, por algum
tempo, leres um livro; ou, por amor de Deus, visitares um doente, ou dares uma esmola
a um pobre. Se santificares assim o domingo, como Deus no ficar contente e que de
bnos abundantes no derramar sobre ti!

3 - O domingo deve ser, finalmente, dia de alegria.

Por certo, aqui no me refiro quelas alegrias e prazeres ruidosos e dissolutos, que no
so verdadeiras folga, nem verdadeiro descanso e desafogo, antes fatigam o corpo e a
alma; no aludo queles pecaminosos e perigosos prazeres que destroem todas as
bnos do domingo e convertem o dia do Senhor em dia de Satans.

Quando digo que o domingo deve ser dia de alegria, refiro-me, antes de tudo, quela
alegria e quela elevao espiritual e interior... Falo tambm da alegria que
experimentas numa agradvel conversa com os teus queridos parentes, na visita a uma
boa amiguinha ou conhecida, numa serena e moderada recreao com outras
companheiras ou num passeio coletivo que te proporciona o ensejo de admirares os
encantos da natureza.
So alegrias que poders lograr depois dos trabalhos e fadigas de toda a semana;
alegrias que te fazem forte e disposta para os trabalhos de uma nova semana; alegrias,
que contm uma abundncia de beno para a vida domstica, quando se desfrutam de
maneira justa e razovel, depois de se ter devota e piedosamente, assistido ao servio de
Deus, ou praticado uma boa ao. Muito a propsito poderei citar aqui as palavras do
grande Apstolo: "Alegrai-vos incessantemente no Senhor; outra vez digo. Alegrai-
vos!" (Filip., 4,4) Eis o que o domingo deve ser para ti  dia de descanso, de devoo,
de alegria.

                               5 - A PENITNCIA




Foi uma palavra da onipotncia divina a que o Divino Salvador pronunciou: "queles a
quem perdoardes os pecados, ser-lhe-o perdoados e queles a quem retiverdes, ser-lhe-
o retidos". (J. 20,23). Contra esta palavra, pela qual Jesus Cristo instituiu o
Sacramento da Penitncia, levantou-se uma oposio multissecular; todas as paixes se
insurgiram contra ela. No entanto, para o Divino Salvador e Sua palavra nenhum
obstculo existe.  assim que, a despeito do mais encarniado ataque dos inimigos de
Cristo, em todo o mundo, a permanece o Instituto da Penitncia. Ainda hoje, milhares
de cristos confessam humildemente seus pecados no Tribunal da Penitncia e se
fortalecem por meio deste sacramento, contra a tentao e ms inclinaes. Tambm tu,
donzela crist, faze por que nada te embarace de freqentar o tribunal da penitncia.
Confessa-te muitas vezes, pois, isto te ser sumamente salutar.

1- A confisso freqente levar-te- ao conhecimento de ti mesma.

Sem o conhecimento de si prprio, no h regenerao, no h combate s ms
inclinaes. Eis porque  muito triste que tantssimas almas no se conheam a si
mesmas. Conhecem os personagens e os acontecimentos da histria dos povos; sabem
descrever as montanhas e os rios dos pases estrangeiros; todavia, o seu prprio interior
 para elas uma regio estranha, da qual no possuem nenhum conhecimento. Se algum
lhes chama a ateno para alguma falta, logo se mostram admiradas, agastadas de que se
faa delas tal conceito; enquanto outras, que muitas vezes se deixaram arrastar para essa
falta, dela no tm absolutamente nenhuma idia ou lembrana.

A confisso freqente, portanto, facilita-nos sobremodo, o to importante conhecimento
de ns mesmos. Se cada vez, por ocasio da confisso freqente, diriges a teu corao
um olhar srio, no vers acaso, as profundezas e no se tornaro os olhos de teu
esprito penetrantes, de tal modo, que muitas coisas, as quais  primeira vista
permaneciam ocultas, pouco a pouco se manifestam no seu verdadeiro aspecto?

Pelo assduo e srio exame de conscincia te habilitars a conhecer com exatido os teus
pecados e tuas ms inclinaes, suas causas e conseqncias, a penetr-las, por assim
dizer, com os olhos de teu esprito. E quanto menos for o nmero de pecados graves que
tiveres de confessar, tanto mais, ento olhars para os pequenos pecados veniais, para as
menores fraquezas e imperfeies. Assim como  luz brilhante do sol, claramente se v
o pequeno gro de poeira, do mesmo modo reconhecers distintamente cada uma das
pequenas faltas no teu interior. Eis porque a freqente recepo do Sacramento da
Penitncia, muito contribuir para te aperfeioar e aumentar o conhecimento de ti
mesma, o que ser uma grande conquista.

2- A confisso freqente ajudar-te- a combater resolutamente os pecados e s
tentaes, e as venc-las com segurana.

Cada confisso nova  tambm novo ataque e vigoroso combate contra a fora dos
pecados e das tentaes em teu corao. Cada vez que te confessas, cumpre que te
arrependas intimamente de teus pecados e erros, por motivos sobrenaturais. Deste
modo, no fomentars sempre mais em ti o dio e a averso ao pecado? Tomars, alm
disso, sria e firme resoluo de fugir do pecado com todas as tuas foras e evitar a
ocasio prxima de pecar. E em teu ntimo no se despertar, a tal propsito, uma
grande vigilncia e salutar precauo?

Alm disso, no deves esquecer que, pelo Sacramento da Penitncia, cada vez te sero
concedidas graas atuais especiais para combateres o pecado e levares uma vida boa e
crist. Os mestres espirituais vem esta graa sacramental na exposio do Evangelho,
o qual pondera que o filho prdigo, depois que tornou  casa paterna cheio de
arrependimento, recebeu "sapatos para seus ps". De modo anlogo, no Sacramento da
Penitncia, Deus nos concede, uns como sapatos para os ps, fortalecendo-nos com
graas atuais, para percorrermos o caminho dos seus mandamentos, preservarmo-nos de
novas faltas e prosseguirmos na prtica da virtude.

Salientarei, por ltimo, que muitos perigos e tentaes somente pela sincera confisso
(declarao dos pecados) que se faz no Tribunal da Penitncia, perdem grande parte de
sua agudeza e de sua fora. Existem alguns animais, pequenos e de aspecto pouco
agradvel, que temem a luz e por isto preferem conservar-se num esconderijo tenebroso,
como por ex., debaixo de uma tbua estendida no cho ou sob alguma pedra. Levanta-se
a tbua, ou a pedra, e projetem-se de sbito os raios brilhantes do sol sobre aqueles
repulsivos animais, e os vers fugirem apressadamente, procurando esconder-se o mais
depressa possvel.

O mesmo acontece, pouco mais ou menos, com relao a muitos maus pensamentos,
feias inclinaes e tentaes, que tambm gostam do segredo, do mistrio e das trevas.
Desde que sejam revelados sem temor ao guia da conscincia, no Tribunal da
Penitncia, perdero, s por isso, grande parte de sua fora e podero ser subjugados
mais facilmente.

3- A confisso freqente conduzir-te-, enfim, ao exerccio de importantes virtudes.

 uma grande virtude a humildade, que os mestres da alma dizem ser o fundamento de
toda a vida crist. Pratica-se esta virtude de maneira toda particular e mais do que
qualquer outra, no Sacramento da Penitncia, quando o cristo, acusando-se a si prprio
perante o ministro de Deus, reconhece sinceramente a sua culpabilidade e assim aplica
uma bofetada  face do prprio orgulho. O desprezo de si mesmo  sem dvida uma
importante virtude, para a qual o Divino Salvador nos estimula com estas palavras: "Se
algum quer vir aps mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me". (Mat.
16,24).

J, tens de certo experimentado muitas vezes que, para uma sincera e humilde confisso,
deves desprezar-te. Por isso que a confisso te conduz a subjugar varonilmente, ela te
levar tambm pouco a pouco  firmeza de carter. O domnio de si prprio , sem
dvida, uma particularidade especial do homem de carter inflexvel. No menos
importante  a virtude da obedincia. Sem a obedincia s leis naturais, impostas por
Deus, tudo no mundo externo entraria em desordem. Desapareceria a vida e toda a sua
magnificncia. As relaes entre os seres criados seriam selvagens.

O mesmo sucederia no mundo moral e social. Sem a obedincia, uma vida ordenada e
contente, seria de todo impossvel. Mas, no te exercitas de modo particular nesta
virtude, quando, voluntria e humildemente, te colocas sobre a direo de um confessor
e procuras seguir com sinceridade os seus conselhos e instrues? Assim, o teu esprito
de desobedincia e obstinao se tornar com o tempo cada vez mais enfraquecido.

Para no aludir a outras virtudes, quero apenas acenar  alegria que deve cada um
manifestar em relao  sua vocao, ou profisso. Para que o corpo tenha sade, todos
os seus membros (rgos) devem preencher ss funes a que os destinou o criador.  o
que se d na famlia e na sociedade, onde tudo vai bem quando, cada qual o seu posto,
cumpre conscienciosa e alegremente os seus deveres. Esta alegria na profisso no ,
por acaso, favorecida pela boa freqncia  confisso que, em ns conserva e apura uma
terna delicadeza de conscincia? No  o teu confessor que te anima, incessantemente, a
cumprir com fidelidade todos os teus deveres? Vs, portanto, que te  a confisso
freqente sobremodo salutar. Poderias, talvez, perguntar-me agora: quantas vezes devo
confessar-me? Aconselho-te, insistentemente, que o faas cada ms. Ou quando muito
cada dois meses.

De boa vontade o fars como for possvel de acordo com as circunstncias habituais da
vida. Se te aproximares mais vezes do Tribunal da Penitncia, por ex. cada oito dias, ou
cada quinze dias, ser ainda mais salutar e mais til. Todavia, no o difiras por mais de
dois meses. Uma donzela, que raro se confessa, expe-se ao perigo de se tornar
negligente no que respeita  salvao de sua alma e de se deixar enredar pelo mundo e
seus deleites.

Quando te confessares, prepara-te de antemo, com esmero, mas sem nenhuma
inquietao e ansiedade, para este ato mui importante. Esquadrinha seriamente a tua
conscincia, desperta em ti antes de tudo um bom e sobrenatural arrependimento e toma
a firme resoluo e te corrigir. Em seguida dirigi-te ao confessionrio e declara com
toda a humildade, singeleza e simplicidade, mas, sobretudo com absoluta sinceridade,
os pecados que cometeste desde a ltima confisso, por pensamentos, palavras, obras e
omisses dos teus deveres.

Terminada a confisso, vai fazer, piedosamente, a tua ao e graa, cumpre com
seriedade a penitncia imposta, esfora-te em seguir fielmente as solues tomadas,
guardando-te, porm, de qualquer inquietao infundada, de qualquer angstia ou
perturbao. Se tiveres esquecido algum pecado, ainda que este seja grave, nem por isto
ser nula a confisso. Acrescent-lo- na prxima confisso, sem te inquietares agora,
nem te perturbares. O Santo Sacramento da Penitncia deve conduzir-te  paz, e no ao
tormento e ao desassossego.


                         6 - SAGRADA COMUNHO




Lembra-te ainda muito bem do belo dia da tua primeira Comunho. Que profunda
comoo se apoderou de teus queridos pais naquela ocasio! Que  que os sensibilizava
to intimamente o corao? Era o pensamento de que naquele dia uma grande felicidade
te ia ser concedida, porque o Divino Salvador, pela primeira vez, entrava em teu
corao infantil e te enriquecia com graas preciosas. Teus pais tinham toda a razo! O
dia da Comunho , sem dvida, um dia de bnos, e isto se diz no somente da
primeira Comunho, seno tambm de cada uma das que se seguem, contanto que seja
recebida digna e piedosamente.

1- A Sagrada Comunho te robustece e d foras contra os perigos que ameaam a
salvao da tua alma.

 justamente no tempo da mocidade, que podem invadir-te numerosas tentaes e
perigos. Instalam-se, no corao inexperto nesse perodo de transio todas as espcies
de agitaes e inclinaes que o querem impelir as veredas do pecado. Vm de fora
sugestes perigosas que, justamente nesta quadra, so numerosas. A donzela
freqentando a companhia de outras, ouve conversas levianas que corrompem o corao
puro, ou lanam o desprezo e a zombaria sobre a doutrina e a organizao crist!
Quo perniciosamente atua a liberdade de costumes na mocidade, que j no permite se
lhe fale de outra coisa! Como so sedutores os exemplos das paixes e abundantes as
ocasies de tornar a vida agradvel, cmoda! Como  corrosivo o veneno que inmeros
livros e revistas instilam no corao da mocidade! Sobremodo funesto e pernicioso pode
tornar-se para uma donzela, e s vezes por toda a vida, o capitular-se, na presena do
perigo e submeter-se ao seu mau influxo. Talvez j tiveste ocasio de observar como
toda a esperana, que se deposita numa rvore magnificamente florida, fica inteiramente
destruda por uma geada noturna ou por um granizo. Coisa semelhante acontece
tambm com muitas jovens nas quais os pais e parentes depositavam grande esperana.
Quo amarga foi  decepo destes! Quo triste lhes saiu e experincia com sua filha
que, nesta contnua agitao do mundo, veio a ser cada vez mais leviana!

Existe para a nossa mocidade uma proteo, to importante e quo necessria contra os
perigos de toda a sorte. Esta proteo, donzela crist,  a que te oferece a Comunho
freqente e bem feita. Se quiseres comungar freqentemente, deves tambm confessar-
te amide, e foroso se torna que lances, a cada instante, um olhar perscrutador para o
teu interior e para a vida externa. Cumpre-te vigiar sobre ti mesma, sobre tuas tentaes
e tuas amizades, o que se incitar ao combate contra as tuas ms inclinaes.

Depois, na Sagrada Comunho, o Divino Salvador vir ao teu corao juvenil. Ele,
Deus infinitamente puro e santo; Ele, nosso bom Pastor e dispensador de graas,
infiltrar em tua alma bons pensamentos; despertar em ti santas resolues e salutares
propsitos; fortificar a tua alma com a sua graa, para que a despeito da inata fraqueza,
te guardes mais facilmente do pecado e com firmeza resistas aos perigos morais.

Verificar-se-o em ti as palavras do Divino Salvador: "Assim como me enviou o Pai
que vive, e eu vivo pelo Pai, assim o que comer a mim, esse mesmo tambm viver por
mim". (Jo. 6,59). Com razo fala a este propsito Santo Agostinho: "Aquele que recebe
dignamente este po, que  o Corpo de Cristo, deve necessariamente morrer para vida
de pecados e seguir uma vida nova".

2- A Sagrada Comunho te fortalece no esforo tambm para a conquista da virtude e
da perfeio...

No  bastante que te guardes cuidadosamente do pecado e seus perigos, deves,
outrossim, esforar-te seriamente na aquisio da virtude e da perfeio. O corpo da
donzela se distingue pela graa e beleza, pela fora e elastidade.

No se d o mesmo com tua alma?
Enquanto  belo o corpo, houvera por ventura a alma de ser feia e abominvel?

No, mil vezes no! Que a alma se adorne pela elevao espiritual, pelo entusiasmo de
um ideal, pelo srio esforo para conquistar a virtude. S ento sers graciosa e bela,
quando possures a beleza de alma e de corao. H duas virtudes principais que te
comunicam grande beleza de alma e geral popularidade: a modstia e a pureza de
corao. H duas virtudes principais que te comunicam grande beleza de alma e geral
popularidade: a modstia e a pureza de corao.
Com prazer contemplamos uma bela flor, em cuja corola descansa uma gota de orvalho,
onde se espelha, docemente, a imagem do sol brilhante. Mil vezes e mais encantadora 
sem dvida a alma pura e modesta da jovem crist, que irradia maravilhosamente a
imagem do Deus infinito. To surpreendente  esta alma que o prprio Esprito Santo
exclama extasiado: "Oh! Quo formosa  a gerao casta com seu brilho! A sua
memria  imortal, e  louvada perante Deus e perante os homens". (Sab., 4,1).

Ora, estas duas virtudes, que constituem antes de tudo o encanto de teu juvenil corao,
tu as conseguirs e conservar, se receberes com freqncia e boas disposies a
sagrada Comunho. E no serias humilde e modesta, se recebesses muitas vezes, em teu
corao o Divino Salvador, que em verdade pode dizer de si mesmo: "Aprendei de mim
que sou manso e humilde de corao". (Mt., 11,29)

A jovem que se apresenta, assiduamente,  mesa do Senhor e recebe com piedade a
Sagrada Comunho, no escandalizar as colegas com seus ares vaidosos, altivos e
soberbos; muito pelo contrrio, com seu proceder recatado e modesto ser para elas
motivo de edificao. E no  na Comunho freqente que o Divino Salvador, o casto
Filho de uma Me pura, desperta em teu corao o amor  pureza, e com fora celeste
aparelha-te contra os perigos e tentaes, que nesta matria, sem tua culpa, podes
encontrar?  o que provam tambm a histria e a experincia de cada dia.

So Felipe Nri foi at a sua idade avanada confessor zeloso, sbio e mui procurado
pela mocidade romana, o que lhe valeu grande cabedal de experincia. Quando velho,
formulou esta sentena que todas as moas deveriam trazer bem gravada no esprito ou
no corao: "A Comunho freqente, unida ao amor  Bem-aventurada Virgem Maria,
no  somente o melhor, mas o nico meio de conservar numa jovem a pureza de
costumes e a vida de F, e se ela vier a cair, h de levant-la novamente e curar-lhe
ainda a fraqueza".

Quero acrescentar o testemunho de um padre francs muito considerado e virtuoso, o
conhecido Mons. De Sgur, que, igualmente durante muitos anos se dedicou  direo
espiritual da mocidade. Escreve ele em um de seus livrinhos: "Conheci almas nas mais
variadas situaes da vida e, principalmente em grandes perigos para sua inocncia, as
quais cercadas da imundcie da impureza se conservaram puras como anjos. Como era
isso possvel?  que se confessavam e recebiam a sagrada Comunho cada oito dias.
Posso afirmar que, em Paris, no meio de oficinas corruptoras, aprendizes e jovens
operrios que tinham coragem de se mostrarem cristos, e que recebiam todos os
domingos e dias santos a Sagrada Comunho, com muita admirao conservavam-se
puros e castos, semelhantes queles peixinhos prateados, que at mesmo em lagoas
turvas e imundas, nada perdem do seu brilho!

Muitos h tambm  Deus seja louvado!- entre os estudantes de Faculdade de direito e
de medicina, que preferem  salvao de sua alma aos prazeres materiais. No meio de
um mundo libertino e amoral, mantm viva a F. Junto ao Divino Redentor, no
Santssimo Sacramento do altar, encontram fora e energia para dominar as paixes,
guardar intacta a inocncia, e como dignos filhos de Deus e de sua boa Me, transcorrer
a vida com a fronte erguida e os olhos puros".

Visto, pois, ser-te a Sagrada Comunho to importante, no te aproximes, pois,
raramente da mesa do Senhor. Faze-o, de bom grado, pelo menos cada ms, se te
permitirem os teus deveres de estado. Escolhers o tempo mais oportuno, esforando-te
o mais possvel e dispondo-te, quanto melhor puderes. Se, apesar de toda a tua vontade
no o conseguires, no difiras a Sagrada Comunho para alm de dois meses. Se
quiseres, porm, comungar mais amide, por exemplo, de quinze em quinze dias, ou de
oito em oito dias, ou mais vezes na semana, ou mesmo cada dia, ser tanto mais
agradvel ao amado Salvador, quanto mais proveitoso para ti. Muitas jovens pela
comunho freqente correspondem fielmente ao desejo do Papa Pio X  que o maior
nmero possvel de catlicos recebam a Sagrada Comunho diariamente.

Que esplndidas conquistas de virtudes e esprito cristo seriam para a nossa mocidade
feminina se o hbito da Comunho freqente ou diria cada mais se generalizasse entre
a juventude. Prepara-te, pois, cada vez de modo conveniente, para a Sagrada
Comunho, com fervor e delicadeza de conscincia, mas sem perturbao nem
ansiedade. Aproxima-te da comunho com profunda humildade e reverncia, pois  o
Deus infinitamente grande e santo, o Senhor dos exrcitos, que vem a ti. Por outro lado,
achega-te com grande desejo e filial confiana ao Divino Salvador, bom Pastor das
nossas almas, o nosso misericordioso Samaritano, que, quer, com Seu amor infinito e
Sua misericrdia, hospedar-Se contigo, a fim de te fortalecer em tuas tentaes e
fraquezas. Ele merece tua confiana incondicional e inabalvel.

Depois de teres recebido o Divino Salvador, aproveita do melhor modo que puderes o
tempo que se segue, imediatamente  Comunho. Dedica-Lhe pelo menos um quarto de
hora completo de orao. Neste precioso tempo Ele est em teu corao como em seu
trono de graas, pronto para te enriquecer com os tesouros de suas bnos e de seus
favores. Apresenta-Lhe ento, com toda a confiana, as tuas splicas e as dos teus
amigos e parentes. No te entregues, a grandes dissipaes, durante o dia da Comunho,
mas de tempos a tempos volta-te, por meio de pequenas jaculatrias, para o teu Salvador
que pela manh te distinguiu com tamanho amor e tanta honra.


                7 - O AUGUSTO SACRIFICIO DA MISSA
Com muita razo diz o Pe. Martinho de Cochem: "Assim como sol sobreleva em
esplendor a todos os planetas e  mais til  terra do que todos os astros reunidos, assim
tambm a piedosa assistncia  Santa Missa sobrepuja, em merecimentos e utilidade a
todas as nossas obras".

Outro Padre afirma: "Se todas as criaturas do mundo fossem outras lnguas, que
louvassem e exaltassem ao Criador; se tudo quanto se acha entre o cu e a terra, desde o
ser mais nfimo at o mais elevado, apregoassem em altos sons o nome de Deus, tudo
isso agradaria ao Senhor infinitamente menos do que a Hstia consagrada, que na Santa
Missa se levanta em sublime holocausto de adorao e amor".

A Santa Missa  a renovao incruenta do Sacrifcio cruento da Cruz, por meio do qual
Jesus Cristo nos remiu sobre o Glgota e nos mereceu todas as graas.

Ela tem, portanto, um valor infinito e no poders jamais apreci-la devidamente. Seja-
me, pois, lcito pedir-te com empenho que quando tiveres tempo e oportunidade,
assistas diariamente a ela, o que te ser de grande proveito.

1- Se assistires freqentemente, com piedade, ao santo Sacrifcio da Missa, pecars
menos.

Na santa Missa, o Divino Salvador te manifesta, por assim dizer, as suas sagradas
chagas e te faz esta advertncia: contempla o Meu corpo lacerado, fixa o teu olhar sobre
minhas fundas e hiantes chagas nas mos, nos ps, e no lado; olha para a minha cabea
coroada de espinhos; medita sobre a minha morte dolorosa da Cruz; v, tudo isso, eu
padeci por causa dos pecados teus e de todos os homens. Pondera, ainda, quo grande
mal  o pecado aos olhos de Deus, pois, somente por meio da minha morte pode ser
expiado.

Se com tais pensamentos sobre a dolorosa Paixo do nosso Divino Salvador assistires,
freqentemente, ao Santo Sacrifcio da Missa, no se apossar necessariamente, pouco e
pouco do teu corao um grande horror, um dio vivo ao pecado? No andars depois
acautelada e vigilante, a fim de te preservares dele?  o que indica a experincia de cada
dia. Demonstra, ainda que as jovens, que at nos dias teis, freqentam a santa Missa,
quando podem, premunem-se contra os devaneios e pecados em que a mocidade
feminina cai facilmente, porque se priva daquele santo exerccio.

Na santa Missa, o Divino Salvador oferece-nos ao Eterno Pai e, mostrando-Lhe tambm
as suas chagas, assim Lhe fala suplicante: Meu Pai eterno, contempla as dores e as
chagas que eu sofri pelos pecadores; pela minha paixo e pela minha morte dolorosa,
compadece-te deles; concede-lhes um verdadeiro arrependimento dos seus pecados e
desperta neles a firme resoluo de evit-los no futuro. Esta splica do Divino Salvador
no ficar sem efeito, conservar e avirar, no teu corao, o dio ao pecado, se
assistires ao santo Sacrifcio com profunda f e piedade; dar-te- fora e graa para
opores uma decidida resistncia ao pecado e s tentaes. Assim te tornars, quanto
possvel, incapaz de pecar.
2- Se assistires, freqentemente e com piedade ao Santo Sacrifcio da Missa, fars
grande progresso na escola de virtudes de Jesus Cristo.

Ele aqui te ensina  humildade, porquanto, sobre o altar, oculta toda a grandeza da sua
humanidade. Toda a sua imensidade se acha encoberta pela diminuta e vulgar forma de
po. Cada vela que arde sobre o altar, cada flor que ali exala o seu perfume, tem mais
aparncia externa do que o Rei da glria na figura do po. Parece que do altar est a
dizer-te: aprende de mim, que sou humilde; desce da tua imaginria e presunosa altura
e s humilde e modesta, diante de Deus e dos homens.

O Divino Salvador te ensina aqui  obedincia. Ele, que  o Filho eterno do Pai vivo,
obedece ao sacerdote e  voz deste aparece na hstia, no antes, nem depois de o padre
proferir a sua palavra. Quer seja o padre jovem, ou ancio respeitvel; quer tenha a seu
cargo uma pequena e longnqua parquia, sua dignidade, constitua o ornamento da
Sagrada Hierarquia Eclesistica  Jesus Cristo no considera nada disso: to depressa
com a mesma boa vontade Ele obedece a um como a outro.

O Divino Salvador te ensina aqui  pacincia. Quantos motivos no teria para se
ausentar dos nossos altares, desgostoso e agastado por causa do tratamento, que h vinte
sculos, aqui recebe de muitos cristos, ingratos e indiferentes; pelos muitos
improprios que se lanam sobre o seu Sacramento e seu Sacrifcio; por motivo das
inumerveis irreverncias que se cometem at mesmo diante do altar!

E, no entanto, tudo isso Ele suporta calado; retorna cada dia aos nossos altares e se
sacrifica, sempre novamente, com idntico amor por ns a seu Pai Celeste! Que
magnfico exemplo de pacincia e de amor levado ao sacrifcio por ti e por ns todos!
Se para tudo isso voltares teu pensamento, no sofrers tambm por amor de teu
Salvador, facilmente e com pacincia, muitos incmodos e amarguras? No ir
penetrando tambm aos poucos na tua vida certo esprito de sacrifcio?

Mais algumas palavras, apenas, quero dizer sobre aquela virtude que deve ser o
ornamento principal da tua juventude, isto , a pureza de corao.
Jesus, que se sacrifica por ns na santa Missa,  o Filho infinitamente puro, do Pai
Eterno e o fruto imaculado da sua santa e Virgem Me. Desce das alturas celestes e se
oculta na pura e alva figura do po. No  verdade que ali est com "a flor do campo" e
como "o lrio dos vales" (Cant. 2,1) que exala o perfume da sua pureza do altar ao cu?
No infundir Ele, tambm, em teu corao pensamentos puros e celestiais? No te
aparelhar, com foras sobrenaturais, para o combate contra os perigos que ameaam a
tua inocncia? Assim tambm tu, se com reta disposio, f viva e filial piedade,
assistires freqentemente  santa Missa, lucrars muitssimo para a tua vida espiritual,
transcorrers, mais facilmente a mocidade, ornada de virtudes.

3- Se assistires freqentemente e com piedade ao Santo Sacrifcio da Missa, a paz e a
alegria entraro em tua alma.

Na santa Missa sacrifica-se o Divino Salvador que, j por ocasio do Seu nascimento,
fez anunciar a paz ao mundo: "Paz na terra aos homens de boa vontade". Jesus, antes de
tudo, infunde em nossos coraes aquelas virtudes sem as quais a paz  de todo
impossvel: humildade, pacincia, mansido e o amor ao prximo. Aqui, na santa Missa,
temos a renovao incruenta do sublime sacrifcio da Cruz, que trouxe de novo a paz ao
mundo  paz com Deus e com a prpria alma.

Por meio deste Sacrifcio e de sua renovao, quer o Senhor alcanar-nos a paz. Eis
porque a santa Igreja tambm suplica durante a santa Missa: "Cordeiro de Deus, que
tirais os pecados do mundo, concedei-nos a paz!" O Deus da paz perene, o Prncipe da
paz, que na santa Missa Se sacrifica pela nossa paz, conceder-te- tranqilidade,
confiana e alegria do Esprito Santo, se assistires freqentemente com piedade a este
Sacrifcio.

O clebre Adolfo Kolping, fundador das associaes de operrios, que conhecia sua
nao e sua gente como talvez nenhum outro, conta-nos de uma valorosa viva de
Colnia, que perdera muito cedo o marido, com quem vivia num feliz matrimnio. Via-
se obrigada a trabalhar a rijo e com grande sacrifcio desde o despontar do dia at muito
tarde, a fim de poder sustentar, honestamente a si e a seus quatro filhos. Cada dia trazia
novos cuidados e novas dificuldades.

No obstante, aquela senhora, speramente visitada pelos infortnios, mostrava-se
sempre infatigvel, sempre feliz, sempre alegre. Com prazer e boa vontade executava
por amor de Deus os seus penosos trabalhos cotidianos, educava na virtude os queridos
filhos, nos quais encontrava grande alegria e muita consolao. Onde estava, ento, a
fonte de paz e alegria dessa viva admirvel? Cada manh assistia a primeira Missa, que
na sua igreja paroquial era celebrada todos os dias, bem cedo. Oferecia ao Divino
Salvador todas as contrariedades e privaes do dia, suplicava-Lhe em ardentes preces a
graa de cumprir alegre e fielmente os deveres do seu estado. Sua orao era atendida.
Na sua vida de sacrifcio sentia-se mais contente e mais feliz do que muitas senhoras
que vivem na abundncia, mas por sua indiferena religiosa nunca assistem  Missa, em
dias teis, embora o possam fazer com muita facilidade.

Como a freqente assistncia  santa Missa te  to salutar, faz por assistir a ela
diariamente, se tiveres tempo e ocasio. Bem sei que muitas jovens, apesar de sua boa
vontade, no se acham em condies de faz-lo. Outras residem muito longe da igreja,
ou precisam partir para o seu emprego, de manh, bem cedo. Devem estas contentar-se
de cumprir tranqilamente as obrigaes do prprio estado e, no domingo, assistir com
devoo  santa Missa. Se o fizessem tambm nos dias teis, com sacrifcio das suas
obrigaes, seria injustia e pecado. Mas se puderes, sem descurar os teus deveres,
assiste  santa Missa todas as manhs, ou pelo menos algumas vezes durante a semana.
Conserva, quanto possvel, o recolhimento e a piedade no decorrer deste santo ato; na
parte principal da Missa, procura reanimar a tua piedade.

Durante o santo Sacrifcio, oferece-te a Deus com todas as tuas contrariedades e
trabalhos, com os teus desejos e cuidados. No momento da elevao da Hstia, desperta
em ti uma f viva na presena real de Jesus Cristo sobre o altar, faze-Lhe profunda
reverncia e adora-O, com humildade e grande respeito.

No momento em que o celebrante comunga, se no puderes fazer tua Comunho
sacramental, esforar-te por faz-la ao menos de maneira espiritual; desperta, em ti, um
grande desejo da Comunho, oferece a Jesus o teu amor e entrega-lhe com grande
confiana os teus parentes e amigos; ora tambm pelos teus pais e irmos e pelos
grandes interesses e necessidades da nossa Santa Igreja.
                             8 - AMA A TUA ME




O conhecido jesuta Alexandre Baumgartner viajava certa vez com dois companheiros
pela Islndia. De uma feita tiveram de pernoitar numa quinta, pertencente a uma famlia
protestante, onde foram servidos de maneira modesta e simples, mas sincera e leal. No
momento de separao, o Pe. Geyer, um dos companheiros de Baumgartner, convidou a
senhora da casa a escolher como lembrana uma das trs imagenzinhas que lhe foram
apresentadas: a de Cristo, a da Me de Deus, e a do Anjo da guarda. A senhora fixou
bem as trs imagens e escolheu a d Me de Deus. Perguntou-lhe ento o Pe. Geyer se
ela venerava tambm a Maria. Sem delongas respondeu a protestante: "Certamente, pois
Ela  a Me de Nosso Senhor!"

Se essa mulher que no tinha a felicidade de pertencer  nossa Igreja Catlica, possua
tais sentimentos para com a Bem-aventurada Virgem Maria, no se esforar uma boa
catlica, muito mais ainda, em honr-lA fielmente e com todo o zelo? Faze-o tambm e
alcanars muitas bnos.

1- Venera, fielmente, a Bem-aventurada Virgem Maria, por Sua relao ntima com o
Salvador.

Nenhum homem, por mais perfeito, nenhum anjo, ainda o mais puro e mais elevado,
esteve em relao to intima e to estreita com Deus como a Virgem Maria. O Filho
Eterno e consubstancial de Deus, quando assumiu no tempo a natureza humana para
nossa salvao, A escolheu para Sua verdadeira Me carnal. Ela trouxe, portanto, em
Seu seio virginal Aquele que o Cu dos cus no pode conter; deu  luz, no tempo,
Aquele que desde toda a eternidade foi gerado pelo Pai Celeste; recebeu diariamente em
Nazar provas de reverncia e obedincia Daquele cujo aceno obedecem os anjos do
cu.
Ela se acha numa relao toda singular e extraordinria para com o Divino Salvador;
criatura alguma pode nisto equipar-se a Ela. Se amamos a Jesus Cristo sobre todas as
coisas, se Ele  nosso tudo, como realmente deve ser, porventura no ser tambm
Maria digna de venerao toda particular? Objetos que se relacionam com o Divino
Salvador apenas de modo extrnseco e transitrio tmo-lo ns os cristos por
santificados; pensamos, com amor e venerao na Sua Gruta; na Sua Cruz e no Seu
Sepulcro. Maria, que conviveu com Ele, na mais ntima relao que podemos imaginar,
no ser mil vezes mais digna da nossa venerao?

Se o Divino Salvador nos tratou com tanto amor, poderia porventura mostrar-se frio e
indiferente para com Maria e consider-lA como outra mulher qualquer? Tal frieza no
seria diretamente desprezar o Seu prprio Filho?

2- Venera fielmente a Bem-aventurada Virgem Maria, pois, assim, corresponder 
insistente vontade do Divino Salvador.

 um fato, por si mesmo compreensvel que todo filho bom e nobre muito se compraz
em ver sua querida me estimada e honrada. Temos no Evangelho um episdio donde
devemos inferir que Jesus Cristo exige de ns venerao a Sua Me Santssima. Quando
a Virgem Maria visitou Sua prima Isabel e foi por esta alegremente saudada, proferiu as
seguintes palavras dignas de ateno: "Doravante todas as geraes me chamaro bem-
aventurada" (Lc., 1,48)

No era mesmo uma palavra arrojada?

Houve muitas princesas e rainhas ilustres, que foram honradas e festejadas por seu
povo; senhoras e donzelas houve que, dotadas de notveis dons de esprito, de corao e
de corpo, e colocadas em brilhante posio, se distinguiram entre milhes, e por isso,
vaidosas, recebiam com prazer, homenagens; todavia, nenhuma delas pode dizer com
verdade: todas as geraes futuras me honraro e exaltaro. Somente uma, apenas
Maria, pronunciou esta palavra resoluta e audaz e quando assim se exprimiu era uma
simples donzela desconhecida, de quem ningum falava na pequena e insignificante
cidade onde nascera. E, contudo, quo maravilhosamente se realizou a clebre profecia!
Ainda hoje, depois de vinte sculos. Maria  louvada e exaltada por milhes de todas as
condies e de todas as classes da sociedade.

Enquanto as mais ricas e mais notveis senhoras que viveram na terra caram no
esquecimento, a modesta e humilde donzela de Nazar ainda hoje  honrada em toda a
parte: para este fato singular existe uma nica explicao: foi o prprio Divino Salvador
 que Ela, quando pronunciou aquela palavra inaudita e audaz, trazia no Seu seio
virginal  que Lhe ps nos lbios o vaticnio e se incumbiu de realiz-lo. Somente Deus
estava em condies o fazer. Mas, estas palavras vm do prprio Divino Salvador e,
portanto, Ele quer que se cumpram; quer que ns veneremos sua Me. "Doravante todas
as geraes me chamaro bem-aventurada".

3- Venera fielmente a Bem-aventurada Virgem Maria, pois ela  tua Me espiritual de
graas.

Cristo  nossa cabea espiritual, donde recebemos toda a vida superior, todas as graas,
toda a fora sobrenatural, toda a beleza. Ns somos seus membros que vivem por Ele e
para Ele. Maria  a verdadeira Me de Cristo, a Me da nossa Cabea e por isto, nossa
me tambm; pois a me da cabea,  tambm a me dos membros. Se, porm, Maria 
nossa Me de graas, devemos ento am-lA e vener-lA como tal, porque um filho
deve a sua me venerao e amor.

Perguntaram certa vez a Santo Estanislau Kostka se tambm amava Maria. Cai-lhe dos
olhos uma lgrima, coram-se-lhe as faces e alegremente comovido pronuncia estas
palavras: "Porque no deveria eu amar a Maria, se Ela  minha Me?" No censuramos
com toda razo ao filho que no ama sua nobre me? No seramos dignos de todo
vituprio se nos mostrssemos frios e indiferentes para com a nossa Me de graas?
Poderemos acaso admitir que tal desprezo possa agradar ao Divino Salvador, nossa
Cabea espiritual? De modo algum.

4- Venera fielmente a Bem-aventurada Virgem Maria, porque te ser isto infinitamente
til e salutar.

Os Santos Padres exaltam a Maria como dispensadora das graas de Deus. No nos
devemos surpreender com semelhante distino. De fato. Se o Divino Salvador, autor de
todas as graas, no altssimo mistrio da Encarnao se deu a ns por meio de Maria,
ser para estranhar que faa as Suas graas descerem a ns pelas mos dEla, sendo esta
a Sua vontade? Podes, portanto, firmemente confiar que, se apresentares as tuas
splicas a esta poderosa intercessora, recebers muitas graas por meio dEla.

E aquele comrcio espiritual, que na tua piedade e venerao mantns com Ela, no ser
altamente salutar? Com sobeja razo sustenta o provrbio: "Dize-me com quem andas e
dir-te-ei quem s". Se o convvio com os homens bons e perfeitos atua sobre ti
enobrecendo-te, no ganhars moralmente no trato espiritual, com a mais pura e mais
nobre criatura que j existiu sobre a terra? E esta  Maria. Um olhar ntimo para Ela, a
mais humilde das virgens, no te far tambm modesta e humilde? A orao dirigida a
Ela, a mais pura das rainhas, das virgens, no levar tambm ao teu corao o amor 
pureza e  virtude.

 o que indica um delicado retbulo que se encontra numa antiga igreja da Alscia.
Uma jovem, ajoelhada aos ps de Maria, mostra-Lhe, com a mo direita o corao.
Maria, cheia de clemncia, lana um olhar sorridente sobre jovem e a mimoseia com um
alvo e delicado lrio. Sobre o quadro lem-se estas poucas, mas significantes palavras:
"Presente por presente".

Como o culto a Maria se acha to fundamente estabelecido, e te  to benfico, presta-
lhe com fidelidade, e perseverana. Cada dia dirige  Me de Deus alguma prece. Seja o
tero a tua orao predileta; recita diariamente pelo menos uma dezena dele (um
mistrio), se no tiveres tempo de rezar um tero de cinco dezenas.

Segundo a vontade da Santa Igreja, o sbado era consagrado ao culto particular de
Maria. Assinala a Sua festa por meio de uma devota recepo da Santssima Eucaristia.
Traze consigo por amor a Ela o escapulrio e, quando puderes, inscreve-te nalguma
associao ou confraria que esteja sob a especial proteo e observa-lhe depois,
conscienciosamente os estatutos.  provvel que exista em tua parquia, uma
congregao mariana, e qual pode fazer, grande benefcio se bem dirigida.
Se desta maneira, ou de outra semelhante, te esforares por ser uma boa filha da Bem-
aventurada Virgem Maria, ento, certamente Ela te mostrar grande benevolncia e
grande amor; alcanars, por seu intermdio, muitas graas; no decorrer de toda a tua
vida ser tua Me amorosa e tua protetora. Referindo-se a Ela, diz So Bernardo: "Se
Maria te sustentar no cairs; se Ela te proteger, nada temers; se Ela te guiar; no te
cansars; e se Ela te amar, chegars ao porto da paz".


                          9 - O RESPEITO HUMANO




Distinta e rica dama desejava adotar uma filha de Maria, cujo procedimento lhe
agradava sobremaneira. Mas estabeleceu como condio que se retirasse da associao
mariana e depusesse a medalha da Me de Deus. Firme e resoluta, embora gentil e
corts, respondeu a donzela que a esta exigncia no satisfaria por nenhum preo:
preferia ser filha de Maria, a se tornar rica e notvel.

A dama encontrou nesta franqueza e firmeza tanta satisfao, que tomou consigo a
jovem e - o que  mais notvel - adotou-a para sua prpria santificao. O bom exemplo
da moa reconduziu-a a piedade e  virtude. Se esta filha de Maria, no seu covarde
respeito humano, tivesse satisfeito  exigncia da rica dama, mui provavelmente, no
voltaria esta para Deus, mas cairia na indiferena religiosa.

Eu desejaria animar-te, jovem crist, a imitares a firmeza desta filha de Maria, e a
jamais te tornares infiel a Deus e aos teus deveres, por causa do respeito humano.

1 - Contentar a Deus, h de ser sempre tua principal preocupao.

"Teme a Deus e observa os seus mandamentos, porque nisto est o homem todo" (Ecl.
12,13). Lembra-te de que Deus  Teu soberano Senhor, a quem tudo deves agradecer e
de quem dependes em qualquer circunstncia; reflete que dentre poucos anos devers
comparecer perante Ele, que ser Teu reto Juiz, a fim de lhe prestar contas de toda a tua
vida, e que da Sua sentena depender a tua eternidade.

Pondera, ainda mais, que os homens so criaturas frgeis, as quais hoje possuem a vida
e amanh desaparecero no tmulo, e que da grandeza e fausto do homem mais rico,
mais honrado e mais clebre, nada mais restar, seno um punhado de terra e p. O
Padre Clemente Hoffbauer, a um senhor importante, que se ufanava da sua distinta
posio, quis um dia fazer-lhe ver o que  o homem. Curvando-se para o cho, tomou
um pouco de p na mo e mostrou-lho com as seguintes palavras: "Vede, isto  o
homem, uma mo cheia de p!"

Mas, que  um punhado de p confrontado com toda a terra, com suas plancies, colinas
e montanhas? Como  incrivelmente minsculo, comparado com os inumerveis e
incomensurveis corpos celestes que h milhares de anos percorrem a sua orbita! Como
, infinitamente pequeno e insignificante, em face de Deus infinitamente grande e
onipotente, que com simples ato da sua vontade, tudo chamou  existncia e lha
conserva de contnuo! A este Deus infinitamente grande e soberano deves temer e,
portanto, no ofender; mas o homem fraco e mesquinho, punhado de p, no temas.
Nunca sejas infiel ao teu dever, por causa de um tmido olhar humano, nem, por seu
inspido escrnio, jamais pratiques ato algum pecaminoso.

2 - Guarda-te do respeito humano!

No dia do teu Batismo e Crisma te colocaste solenemente sob o estandarte de Jesus
Cristo. Ao receber este Sacramento, prometeste firmemente, que sempre e em todas as
circunstncias, havias de te conservar fiel a Jesus Cristo e a sua Santa Igreja.

A bandeira de um rei da terra  muitas vezes defendida com grande coragem. Muitos
soldados preferem sacrificar a prpria vida entre ferimentos e dores atrozes, a entregar
ao inimigo a bandeira do seu rei. No deveria com igual, e mesmo com maior amor e
entusiasmo, defender a bandeira isto , os santos interesses de Jesus Cristo?  Rei que
no sofre comparao com prncipe nenhum, por melhor e mais amvel que este seja.
So seus interesses to dignos e elevados, to justos e bons, to santos e necessrios,
como os de nenhum outro rei; pertencem e se estendem a todos os homens, abrangem o
tempo e a eternidade.

No estarias, portanto, disposta a oferecer at a ltima gota de teu sangue pelo teu
Divino Salvador e seus santos interesses, se necessrio fosse? Intrepidez e firmeza so o
que de ti espera o Senhor. Se na vida lhe permaneceres unida, sem respeito humano, Ele
te recompensar por toda a eternidade como Sua fiel discpula; mas se te envergonhares,
covardemente, dos seus interesses e te mostrares infiel a Ele ento, como juiz te lanar
no crcere e te punir severamente, o que declara, em verdade, com solene energia:

"Aquele que me confessar diante dos homens, tambm eu o confessarei diante de meu
Pai, que est nos cus; e o que me negar diante dos homens, tambm eu o negarei diante
de meu Pai, que est nos cus" (Mat. 10,32).

Como catlica, no tens realmente, nenhum motivo de te envergonhar da tua Igreja.
Ainda no ouviste de certo, que uma jovem sadia e viosa, se envergonhasse de sua
prspera sade, pelo fato de ter encontrado outra jovem desbaratada por alguma
enfermidade contumaz. Nunca viste um homem, com os membros ntegros e perfeitos,
corar de vergonha por ver outro, que s podia mover-se com o auxlio de muletas.

Ainda no tiveste ocasio de observar, que algum considerasse como desonra pertencer
a uma famlia ilustre e distinta, em que a virtude e a probidade so hereditrias. - Em
suma: ningum, que se tenha por sensato e racional, se envergonha jamais de uma boa
ao. Se este axioma  reconhecido por todos os homens que pensam de modo sensato,
no tens, como catlica, nenhum motivo verdadeiro para te envergonhares da tua Igreja
que, mesmo na opinio imparcial dos que seguem outras religies, tem realizado tantas
coisas grandiosas e magnficas, e sem a qual, como se exprime um ator protestante, a
Europa, desde muito se houvera transformado num deserto monglico.

No tens, realmente nenhum motivo para te envergonhares da Santa Igreja que, no
decurso de tantos sculos, manifestou uma admirvel fora divina; de todas as
perseguies, at mesmo das mais violentas, saiu sempre vitoriosa; sempre
rejuvenescida; sempre novamente robustecida; enquanto tudo, em derredor caa em
runas, at mesmo os tronos e os reinos dos mais poderosos soberanos.

No tens, realmente, nenhum motivo de te envergonhares de tua Santa Igreja que, em
todos os contou entre seus filhos, grande nmero de homens os mais nobres, melhores e
mais sbios, grandes heris da virtude e benfeitores da humanidade. Existe por ventura,
em todo o mundo, um instituto to grande e admirvel como a Igreja Catlica, um
instituto do qual promane igual torrente de beno? No seria, pois, rematada loucura
envergonhar-se dela?

Nem mesmo da Igreja Medieval nos devemos envergonhar. Escritores no catlicos,
mas imparciais, garantem que a Idade Mdia, muito longe de haver sido "tenebrosa"
como, malvola e caluniosamente, ousaram outros afirmar foi, pelo contrrio... uma
poca brilhante. De fato, uma idade em que se fundaram inmeros hospitais, orfanatos e
outras instituies de beneficncia; uma idade em que se edificaram magnficas
catedrais, igrejas, ornadas de esplndidas obras de arte uma idade em que se fundaram
tantas escolas superiores, dotadas com as mais ricas instituies, poderia porventura ser
tenebrosa, como pretendem a maldade e a mentira apresent-la?

Na Idade Mdia, a Igreja era o sol espiritual, que sobre os homens, irradiava cultura e
civilizao, educao e costumes cristos. No tens, portanto, em tempo algum, motivo
de te envergonhares da tua santa Religio. Muito ao contrrio, se lanares a tua vista
para a nossa Igreja Catlica, deve sentir-se possuda de um elevado sentimento de
amvel gratido, pois a histria de todos os tempos e de todos os povos jamais viu uma
instituio to grandiosa, to magnfica e to benfazeja como esta. Faze, pois, que te
animem sempre aqueles grandes sentimentos de Santa Teresa, a qual ainda no seu leito
de morte dizia:

"Meu Deus, eu Vos agradeo por ser filha da Vossa Igreja".

No consintas jamais que te arraste o covarde respeito humano; nunca deixes de
cumprir da maneira mais fiel os teus deveres para com a Igreja e trabalhar pelos seus
interesses com zelo e sabedoria. No permitas que o mesquinho respeito humano te
impea de assistir a Santa Missa assiduamente, de comparecer freqentemente  Santa
Comunho, e de tomar parte nalguma boa empresa. A esta intrepidez, na prtica, da tua
santa Religio, procura aliar uma grande pureza de costumes, fiel cumprimento das tuas
obrigaes e maneiras amveis para com os demais, que assim conquistars, sem dvida
alguma, alta estima e venerao de todos, at mesmo dos inimigos da nossa santa f, ao
passo que o vil e covarde respeito humano te faria desprezvel. "Teme a Deus e observa
os seus mandamentos, porque nisto est o homem todo".
                        10 - A FIDELIDADE AOS PAIS




Conforme a vontade de Deus deve antes de tudo dedicar aos teus pais amor e fidelidade.
So Jernimo refere-se um belo exemplo desta fidelidade na vida da Santa Eustquia,
filha de Santa Paula, notvel dama romana. Segundo conta, ela portou-se em tudo, como
boa filha, ternamente amorosa para com a sua me. Amava a me de todo o corao e se
empenhava por imit-la em todo o bem.

Assinalavam-se, constantemente, por uma voluntria e pontual obedincia, e cumpria-
lhe prazerosa os menores desejos. Sempre ficava satisfeita, quando podia proporcionar-
lhe alguma alegria. Seu maior gosto era permanecer em sua presena e assisti-la, com
incansvel dedicao e ilimitada diligncia, tanto nos dias de sade, como nos de
doena, at o derradeiro momento de sua existncia. Tais foram s disposies e o
procedimento de uma filha verdadeiramente boa, que tu, donzela crist, devers
ternamente imitar.

Sim, cumpre com absoluta fidelidade, os teus deveres para com teus pais que, segundo a
determinao de Deus so os teus maiores benfeitores. Lembra-te, por um instante que
tudo deve agradecer a teus pais. V quanto por ti se afadigou teu pai, no decorrer de
muitos anos. Todos os dias, pela manh, erguia-se do leito e, depois de curta orao,
encaminhava-se para os duros trabalhos de sua profisso. Quantas pesadas gotas de suor
derramou para satisfazer s suas obrigaes! Quantas vezes sentia que as foras
ameaavam abandon-lo, e as mos denunciavam cansao! Sem embargo, o pensamento
em ti, o amor por ti, estimulava-o sempre a continuar o trabalho, no obstante toda a
fadiga.

Enumera, se puderes, os penosos passos que deu por ti, as muitas alegrias e prazeres de
que se privou para que nada te faltasse, os gastos incalculveis que fez para que tivesses
o necessrio e te instrusses convenientemente. Contempla os duros calos de suas mos,
os sulcos de sua fronte, a gravidade que lhe transparece na face e em todo o ser  tudo
isso te far lembrar uma infinidade de incmodos e cuidados que teu pai suportou por
tua causa. Interpela, depois tua me, sobre o que tem feito. Responder-te-: Minha filha,
no te posso narrar,  impossvel. Horas e dias consecutivos trouxe-te em meus braos,
acalentei-te ao meu corao e velei-te no bero; cumulei-te de carcias, antes que tu as
pudesses compreender. Tu me fatigaste, muitas vezes; longas horas me roubaste ao
repouso noturno pelo qual suspirava e do sono de que eu tanto necessitava. Sustentei a
tua fraca vida, alimentei-te e tanta coisa suportei, at que pudesses falar, andar e de
algum modo agir por ti mesma. E, que de cuidados eu no sentia por tua vida, quando
ela de qualquer modo corria perigo! Como eu oscilava entre a angstia e a esperana,
esquecendo o comer e o beber, quando alguma doena te retinha no pequeno leito.

Fui eu a primeira que te iniciei no conhecimento de Deus, a primeira que acendi em teu
corao a chama do seu divino amor, a primeira que juntei tuas mozinhas e te ensinei a
rezar: "Pai nosso que estais no cu". Inmeras vezes, ao divino Salvador e a sua Me
Santssima, com fervorosas oraes e lgrimas, pedi o teu verdadeiro bem no tempo e
na eternidade.

Estas e muitas outras coisas poder narrar-te a tua boa me, se a interrogares sobre
quanto fez por ti.

Os alemes tm um belo provrbio que diz com razo:

"A me fiel ser diariamente nova"
- Mutter treu vird taglich neu".

No seria, portanto, donzela crist, sobretudo ignbil, no seria uma negra injustia, se
no fosses boa e fiel para com teus pais, a quem tanto tens que agradecer, e no
cumprisses conscienciosamente os teus deveres? Se algum visita um enfermo que,
enfraquecido e desditoso jaz no seu leito de dores, e leva-lhe uma pequena ddiva, o
doente comovido agradece com lgrimas nos olhos essa prova de carinho e amizade.
Mais ainda: se algum nos faz uma pequena fineza um favor insignificante,
imediatamente proferimos o nosso "muito obrigado", ou "Deus lhe pague".

Tem-se, geralmente por falta de ateno e de nobreza de sentimento, o no reconhecer e
agradecer tais favores e gentilezas. No entanto, so de todo insignificantes esses
pequenos favores ao lado dos inumerveis benefcios com que os pais cumularam aos
filhos; mesquinha gota de gua, em confronto com o mar incomensurvel.

Cumpre, com toda a fidelidade e conscincia os teus deveres para com teus pais, porque
so eles aqui na terra os primeiros representantes de Deus junto de ti. Nas suas aes
externas, por via de regra, Deus no age imediatamente, mas com interveno das
causas segundas. Ao trabalho do diligente, lavrador e do perito jardineiro, alia a sua
atividade criadora e faz as sementes germinarem, nos campos cheios de esperana e
orna os jardins com magnficas flores. Foi assim tambm que, por meio de teus pais, te
deu a vida; por meio de teus pais te alimenta e veste; por meio de teus pais te protege e
guarda de muitos perigos; por meio de teus pais quer educar-te para a vida futura,
conduzir-te para o bem e finalmente para o cu. Os pais ocupam junto de ti o lugar de
Deus; so para ti os primeiros dons de Majestade de Deus.

Deus tomou por assim dizer, uma pedra cintilante da sua coroa divina e a engastou na
coroa da autoridade dos teus pais. Este pensamento a honr-los, em alto grau, e a
cumprir, com perfeio, os teus deveres para com eles? Quando o Fara do Egito
nomeou seu representante, na qualidade de vice-rei, o patriarca Jos ps-lhe um anel no
dedo, vestiu-o com um manto real e lanou-lhe ao pescoo um colar de ouro. F-lo
depois percorrer toda a cidade no seu segundo coche, a que precedia um arauto para
anunciar a todos que se ajoelhassem diante dele e soubessem que esse era o
superintendente de todo o pas do Egito.

Ora, os reis e prncipes da terra querem que seus representantes sejam honrados, que se
lhes tribute uma parte da venerao e do respeito devidos ao rei. Porventura, donzela
crist, o Rei dos reis, perante quem o mais poderoso monarca na terra no passa afinal
de um mesquinho gro de poeira, no exigir que os homens respeitem seus
representantes  os pais, - e lhes manifestem grande fidelidade?

Cumpre, fiel e conscienciosamente, os teus deveres para com teus pais; isto atrair sobre
ti as bnos de Deus para o teu futuro e graas abundantes para uma vida crist
virtuosa. Assegura-te o prprio Deus eternamente veraz e que sustenta o que prometeu.
Quero citar alguns dos mais belos trechos da Sagrada Escritura, que diz respeito a este
assunto. L-os com a ateno e devagar. Toma-os na devida considerao e prope, por
tua atenta observncia, merecer as bnos divinas:

"Honra teu pai e tua me, para que tudo te corra bem e tenhas uma vida longa sobre a
terra". Assim reza o quarto mandamento da Lei de Deus, que tu aprendestes quando
criana. "Como quem acumula tesouros, assim  aquele que honra sua me" (Ecli., 3,5).

"Filho, ampara a velhice de teu pai e no o entristeas durante a sua vida. Se a
inteligncia lhe for faltando, suporta-o e no o desprezes por teres mais vigor do que
ele; porquanto a caridade exercida com teu pai no ficar no esquecimento. Sers
recompensado por teres suportado os defeitos de tua me... No dia da tribulao Deus se
lembrar de ti, e os teus pecados se desfaro com o gelo num dia sereno". (Ibid., 14,17).

Assim, como Deus prometeu as suas bnos aos bons filhos que fielmente cumprem os
seus deveres para com os pais, assim tambm, ameaa com sua maldio queles que
transgridem muitas vezes e de modo grave esses deveres. Severas, com efeito, so as
suas palavras. L, tambm, estas e sirvam-te de aviso salutar, a fim de
conscienciosamente, pores em prtica, a resoluo de ser, em todo o tempo, boa filha.

"Maldito o que no honra seu pai e sua me; e todo o povo dir: Assim seja" (Deut.,
27,16). "O olho do que escarnece de seu pai e do que despreza a me que o deu  luz,
arranquem-no os corvos... e comam-no os filhos da gua" (Prov., 30,17). "Como 
infame aquele que desampara seu pai! E como  amaldioado de Deus o que exaspera
sua me!" (Ecli., 3,18).

Quantas vezes no se encontram na histria o cumprimento destas ameaadoras
palavras de Deus! Lembra-te de Absalo, que se sublevou contra o pai; ficou suspenso
pelos longos cabelos ao galho de uma rvore e ali foi atravessado por trs lanas.

Lembra-te de Cam que, com maliciosa satisfao, viu o pai em estado de embriaguez e
foi referir o caso aos irmos com certo desprezo. Em castigo, tornou-se escravo dos seus
irmos com certo desprezo. Em castigo, tornou-se escravo dos seus irmos, e toda a sua
descendncia dever sofrer a pena daquele delito. Ainda hoje, cada cidade, cada aldeia,
nos oferece exemplos de filhos que, muitas vezes menosprezaram gravemente os seus
deveres para com os pais, e foram depois, a cada passo perseguidos pela maldio de
Deus, de modo que, nas empresas comuns no logram nenhum xito, nenhuma beno,
e so de ordinrio molestados e maltratados de igual maneira pelos prprios filhos,
exatamente como antes haviam feito a seus pais.

Em lugar de maldio, donzela crist, procura merecer as bnos abundantes de teus
pais. Portanto, presta sempre a teus pais, que ocupam junto de ti o lugar de Deus, temor
reverencial; no te esqueas s belas palavras que So Cirilo Alexandrino dirige a cada
filho: "Honra e venera muito teu pai e tua me, porquanto os pais trazem em si de certo
modo a imagem de Deus".

Toms Moro, homem de brilhantes dons de esprito e corao, foi nomeado
arquichanceler da Inglaterra, portanto um dos primeiros e mais notveis dignitrios de
todo o Reino. Todavia, com ser homem de estado, nunca deixou sua residncia por
muito tempo, sem se despedir do velho pai e sem lhe pedir, de joelhos, a beno. Se
participava duma reunio dos Grandes da Inglaterra, onde o pai estivesse presente, ele
se dirigia logo ao pai, beijava-o com todo o respeito, oferecia-lhe o primeiro lugar, e s
depois de recusado este, ocupava Toms o lugar de honra que requeria a sua posio de
arquichanceler.

Honra tambm teus pais em qualquer ocorrncia. Seja onde e quando for, refere-te a
eles com toda a ateno e respeito; guarda-te de te alegrar com suas faltas eventuais e
suas imperfeies e de ocult-las a outrem. Jamais te envergonhes deles, ainda que
sejam pobres ou defeituosos ou pouco educados. Como  triste e intolervel aos olhos
de Deus, o filho desprezar a seus pais, dirigir-lhes palavras speras e encar-los de rosto
sombrio! Diz com grande severidade So Jernimo: "Merece ficar cego, aquele que
encara com mau humor o semblante de seus pais e ofende com olhos arrogantes, o amor
filial!".

E verdadeiras so as belas palavras de So Pedro Crislogo: "Tirai os raios ao sol e no
mais alumiar; separai o regato da fonte, e no mais correr; despojai a rvore de seus
ramos, e secar; arrancai os membros, ao corpo, e morrer; tirai ao filho a reverncia
aos pais e j no ser nem filho, nem filha". Se, pelo contrrio, estimares e honrares teus
pais, a ti mesma te honrar; o respeito que demonstra a teus pais,  a maior honra para
tua pessoa e granjeia-te as suas bnos.

"Honra teu pai por aes, por palavras e com toda a pacincia, para que venha sobre ti a
sua bno e esta permanea contigo at o fim". (Ecli.,3,9-10).

S, alm disso, pontual e obedece com alegria a teus pais. Receberam de Deus o srio
encargo de te educar como boa cidad e diligente crist, pra que logres o destino eterno.
A esta grave incumbncia no podero satisfazer sem a espontnea obedincia de tua
parte. Com efeito: assim como sem a luz do sol no h dia claro, muito menos ainda
pode existir verdadeira educao sem a obedincia. Eis porque tens o dever rigoroso,
perante Deus. De prestar de bom grado obedincia a teus pais.

No os deixes nunca chamar-te ou interrogar-te sem lhes responder alegremente;
encaminha-te depressa e com prazer para o trabalho que eles te destinarem. No te
atrevas jamais a tomar atitudes arrogantes quando, com razo, eles te negarem visitar
um clube. Nunca exijas deles coisa algumas contra a sua vontade, por ex., dar um
passeio, ou isto ou aquilo; no procures depois extorquir ou captar a sua licena e
permisso.

No consinta que te chegue aos lbios uma palavra de descontentamento pela tua
desobedincia, nem jamais se veja, em ti, um sinal de enfado ou mau humor. Executa
com prazer sempre que puderes, os desejos que te no manifestam, mas que podes
adivinhar. Assim, proporcionaras a teus pais grande alegria e edifica a teus irmos,
profundamente.

Por ltimo, jovem crist, ama teus pais, de todo corao. O grande, o herico amor que
te votam reclama o teu amor recproco em alto grau: os inumerveis benefcios de que
te cumularam, desde os mais verdes anos de tua vida, impe-te a doce obrigao de lhos
retribuir com grato amor, o qual h de ser verdadeiro e puro, e no aparente ou
hipcrita, e deve consistir numa afeio cordial, que te induza a tomar parte, de modo
mais ntimo, em tudo quanto se relaciona com eles: alegrias e tristezas, sade e doenas,
felicidade e infelicidade.

O teu amor a teus pais deve ser constante e permanente: no s na tua mocidade, mas
ainda em toda a tua vida subseqente; no s enquanto eles tm sade e aptido para o
trabalho, seno tambm, quando estiverem doentes e quebrantados e exigirem muitos
cuidados, cumpre lhes sejas dedicada com amor ntimo e fiel. Poupa-os sempre da
menor aflio; proporciona-lhes com o teu procedimento, constante alegria. No deixes
tampouco de rezar por eles todos os dias, principalmente, quando assistirem ao santo
Sacrifcio da Missa ou quando receberes a sagrada Comunho, o que fazes com bastante
freqncia, como  de se esperar.

Teu amor para com teus pais deve, enfim, ser ativo e pronto. "O amor  paciente", diz o
Apstolo So Paulo aos gentios. Suporta com grande pacincia as imperfeies e
pobreza de teus pais. Se possuem defeitos realmente notveis, que te fazem recear pela
sua salvao, ento reza por eles com maior solicitude e procura, de maneira prudente e
afvel, influir cristmente sobre eles; entretanto, guarda de te queixares deles na
presena de outrem e de aludir sem necessidade, a seus defeitos; antes sofre tranqila e
resignada, o que apesar de tua boa vontade, no podes modificar.

Se teus pais forem velhos e doentes, assiste-os com terno respeito, ateno e amor.
Ters por grande favor e graa do cu o proporcionar-te Deus a ocasio de cuidares de
teus pais velhos alquebrados. Em caso de necessidade deves preferir impor-te uma
restrio ou privao, e at mesmo abster-te do prprio sustento, a permitir que eles de
qualquer modo vivam na indigncia.

H muitos filhos e muitas filhas que no tm verdadeiro amor aos pais. Pode chamar-se
amor, o tratar os pais com dureza e desprezo, no lhes dirigir uma palavra de afeto, falar
com eles de maneira spera e mortificante?

Pode chamar-se amor, o de filhos que por seu comportamento leviano, sua indiferena
religiosa, sua vida dissoluta, afligem profundamente os pais e lhes preparam oprbrio e
vergonha? Pode, finalmente, chamar-se amor, a atitude de filhos que, por ocasio de
uma doena mais prolongada dos pais, ou nos achaques prprios da velhice, se mostram
insensveis ou pouco cuidadosos; e cada trabalho, cada sacrifcio, cada despesa, lhes
parece demasiado, manifestando assim falta de amizade e de pacincia?

Chegar tempo, talvez mais depressa do que supes, em que a morte te roube os pais.
Ento, o corao paterno que agora pulsa com tanto calor por ti, se quebrar no doloroso
combate da morte; os olhos que tantas vezes agora se fixam com sincero amor e alegria
se ho de cerrar para nunca mais baixar sobre ti; as mos que to freqentemente
acariciam, tu as vers tolhidas, frias e hirtas.

Que de exprobraes fars, ento, a ti mesma, ao p do leito funreo de tua terna me,
ou do teu bom pai, quando sentires os clamores da conscincia assim bradando: eu
causei  minha me, a meu pai, tantas aflies e dissabores, ultrajei-os tantas vezes e
gravemente; agora esto no tribunal de Deus, para serem os meus acusadores! Por outro
lado, que doce consolao te ser naquele to grave momento poderes dizer com toda a
verdade: sempre me esforcei em proporcionar a meus pais alegrias e prazeres; fui a todo
o tempo filha sincera e fiel, cumpri as suas ordens e executei os seus desejos com a
maior prontido e boa vontade! Reflete, donzela crist, sobre esta consolao que te
poder propiciar.



                        11 - O TESOURO ESCONDIDO




A violeta, flor to apreciada e procurada, no apresenta, nas cores de suas ptalas,
beleza singular que nos impressione a vista. Possui apenas uma vestimenta simples e
completamente lisa. No procura, por meio de beleza cintilante atrair sobre si os olhos
dos homens, mas parece comprazer-se na sua forma pequena e pouco vistosa. No
cresce, por via de regra, nas praas pblicas, onde poderia ser divisada por todos, mas
de preferncia em lugares escondidos, nas orlas silenciosas das matas e ao longo de
cercas espinhosas; e ainda nesses lugares procura com suas folhas formar uma espcie
de esconderijo, para se furtar as vistas dos transeuntes, e ocultar as suas prprias flores.

Tudo, no entanto,  em vo, pois o aroma suave a denuncia. Se algum a descobre, no
a admira, mas aprecia-a e deleita-se com sua balsmica fragrncia. Esta florzinha, pouco
vistosa, mas geralmente querida,  smbolo daquela amvel virtude, que to
insistentemente o Esprito Santo recomenda aos cristos, com estas palavras: "Seja
vossa modstia conhecida de todos os homens".(Fil., 4,5)

A humildade e a modstia honram e ornam todos os homens, mesmo o sbio que, por
sua sabedoria e seu gnio pasma o mundo; at o prncipe, que governa um grande reino.
Sejam tais homens humildes e afveis, tanto quanto lho permite a posio, e
conquistaro de assalto, os coraes dos seus compratiotas, granjeando por toda a parte
honras e afeies entusisticas. Mas, se a humildade convm a todo cristo, a todo
homem, ela, no entanto, se ajunta principalmente aos jovens e de modo particular 
donzela crist, que deve exercitar-se na virtude, e tantas vezes h de reconhecer e dizer
que  uma criatura fraca e inclinada para o mal.

S onde se encontra a humildade, existe a verdadeira virtude; sem aquela, esta nada
mais  que uma aparncia v. O rochedo que levanta orgulhoso o cabeo a uma enorme
altura, l permanece solitrio e despido; em vez de reflexos dourados, no apresenta
seno gelo e neve. Os campos ondulantes e auspiciosos situam-se, pelo contrrio, nas
plancies e partes baixas da terra.

Sem a humildade, expe-se a pureza do corao a grande perigo; assemelha-se a uma
rvore alta cujas razes no se embebem profundamente no solo; ou a uma grande e
magnfica morada, que no possui alicerces fundos e slidos. Venham os temporais,
enfuream as tempestades, e a rvore ser arrancada, e a casa vir abaixo, sepultando os
habitantes nos destroos. De modo semelhante  o que acontece com uma donzela altiva
e orgulhosa: facilmente recai nos perigos do mundo, nos pecados. Sabe-o,
perfeitamente, o tentador do gnero humano e procura, de ordinrio encaminhar a jovem
principalmente para o orgulho, a vaidade e a ostentao. Conseguindo isto, ser-lhe-
mais fcil lev-la, oportunamente aos pecados contra a santa pureza.




Quanto  exato o que diz um velho provrbio alemo: O orgulho vem antes da queda!
"Hochmut kommt vor dem Falle".

A humildade atrair sobre ti a benevolncia e a proteo de Deus. "Deus resiste aos
soberbos, e d a graa aos humildes" (I Pedro, 5,5). Tambm a ti dar muitas e grandes
graas, se permaneceres humilde e modesta; proteger-te-, sobretudo, contra todas as
tentaes e perigos a que, sem tua culpa, estiveres exposta. Se quiseres, pelo contrrio,
elevar-te no orgulho e arrogncia, ento  de se temer, que te abandone  tua fraqueza
moral, a qual se parece com o frgil canio, que se parte, quando algum quer apoiar-se
nele. Guarda-te, portanto, do orgulho, conserva-te humilde principalmente em relao a
ti mesma. No te mostre altiva, se fores rica e possures grande cabedal. As maiores
riquezas materiais nada acrescem ao valor de tua alma.
Poder um animal conduzir sobre o dorso ouro brilhante, pedras preciosas, e diamantes;
no obstante permanecer sempre a mesma criatura irracional; assim tambm o homem,
ainda que habite um palcio magnfico e atinja a milhes seus haveres, ser sempre um
ser fraco e inconstante. Perante Deus, tem mais valor, muito mais, o pobre virtuoso, que
vive numa cabana, do que o milionrio que vive em pecados.

No te mostre arrogante, se teus pais ocupam uma posio brilhante, ou descendem de
alta linhagem. Quer seja filha de prncipe, ou tenhas por pai um simples e modesto
operrio, nem por isso merecers da morte mais respeito e contemplao. Decorridos
alguns anos, vir  morte arrebatar a filha do prncipe toda a grandeza e a far pobre,
pequena e mesquinha como a filha do mendigo. No te mostre arrogante e orgulhosa
com a beleza de teu corpo. Este no  mais que uma figura de p e cinza, e se
converter, um dia, na sepultura, um alimento de vermes.

No h, certamente, nenhum mal, no apreciares as belezas fsicas da tua juventude.
Assim como Deus revestiu de beleza s rvores do campo e os pssaros do cu, assim
tambm comunicou ao teu corpo a frescura e a graa da mocidade. Regozija com esses
dons; faze-o, porm, em agradecimento a Deu. Guarda-te, de abusar desta prerrogativa,
manchando-te com o pecado, a fim de que ela no torne causa de corrupo para ti e
para os outros. No te esqueas, tampouco, de que esses bens so demasiado frgeis e
transitrios. Hoje floresce a rvore, amanh se encontrar desfolhada.  o que suceder
contigo.

No exageres na moda; est bem que sejas primorosa no trajar, que te adornes; mas tudo
isto, dentro das normas do bom senso e do bom gosto. Lembra-te que os excessos de
vaidade, alm de fteis, so tambm prejudiciais. Quase sempre produzem, na vida
domstica, profundas feridas, porque consomem o capital, perturbam a paz e
introduzem a desordem e a confuso.

No est a moda exagerada freqentemente a servio da sensualidade, fornecendo
ocasio ao pecado? A vaidade no abafa muitas vezes, no corao da mulher, aquelas
nobres qualidade com que o Criador a adornou, de modo todo particular, habituando-o a
fazer tanto bem? A jovem que se deixa dominar pelo excessivo amor ao luxo e 
ostentao, aos poucos torna-se superficial, egosta, vazia de sentimentos nobres, avessa
 prtica da virtude, negligente nos deveres do prprio estado.

Guarda-te, jovem crist, desses defeitos, da vaidade e elegncia afetadas. Traja-te, de
acordo com tua posio social. Nos teus vestidos transparea o bom gosto, evita, porm
o exibicionismo nas atitudes e certas galanterias desusadas, com visveis preocupaes
de te mostrardes elegante; inclina-te de preferncia para a simplicidade: s assim
agradars a Deus e granjears considerao dos homens sensatos. Em segundo lugar, s
humilde para com teu prximo. Com teus pais e superiores s respeitosa e obediente. Se
te repreenderem, no te agaste nem se encolerizes, mas aceita de bom grado e
pacificamente a correo. Aos teus semelhantes dedica amor e considerao; no
procures domin-los.

Trata os que esto sob as tuas ordens, com a mesma doura e mansido com que
costumas tratar teus familiares. Tm sempre em vista as palavras do Apstolo dos
gentios: "Vs senhores (patres), tratai os vossos servos com justia e equidade,
sabendo que tambm vis tendes um Senhor no cu" (Col. 4,1). Mostra-te benigna e
obsequiosa com teus inferiores; auxilia-os com prazer e prontamente, se estiveres em
condio de o fazer. Com tais maneiras afveis, tornar-te-s agradvel a Deus e til a
teus semelhantes.

Em terceiro lugar, seja humilde principalmente para com Deus. Lembra-te que, perante
Deus, Perfeio e Excelncia infinita, Onipotente e Onisciente, ns todos somos
infinitamente pequenos, infinitamente fracos e ignorantes, at mesmo os maiores, os
mais poderosos e os mais sbios deste mundo. Lembra-te que em qualquer circunstncia
da vida depende de Deus, que foste bem instruda acerca da sua bondade e poder, que
poders a cada momento ser arrebatada pela mo fria da morte e comparecer perante o
tribunal divino. Reflete, pois, sobre as graas e benefcios inumerveis com que Deus te
cumulou, e dos quais, de tantos modos, tens usado para ofend-Lo. Sim, pensa nos
muitos pecados que j tens cometido, nos teus pecados por pensamentos, palavras, obras
e omisses do bem prescrito pelo dever. Se pondereis bem tudo e tomares a srio, no
ters nenhum motivo de seres altiva e vaidosa, antes, motivo suficiente para te humilhar
perante Deus e dizer com todo o ardor:

"Senhor, tem compaixo de mim!"


                          12 - DONS DO CORAO




A castidade das jovens  de capital importncia para a conservao dos bons costumes
na sociedade. Se as moas guardarem, rigorosamente no trajar e em todo o proceder,
decoro e modstia, ser este o melhor impulso para a moralidade. Sendo, portanto a
pureza de corao do sexo feminino de tamanha importncia para a moralizao da
sociedade, devers gravar bem, no esprito e no corao, e seguir fielmente as normas
expostas neste captulo.

Tem sempre, em alta estima e grande amor, a castidade; pois ela comunicar  tua alma,
antes de tudo, particular beleza e graa. ", sem dvida a castidade  como diz So
Cipriano  a mais formosa flor no jardim da Igreja, o ornamento da beleza, o encanto da
graa e a caracterstica da virgem crist.  por ela que se produzem, na Igreja, os mais
deliciosos frutos, e quanto maior for o nmero das donzelas puras, tanto mais crescer a
alegria desta me espiritual".
So Francisco de Sales escreve: "A castidade  o lrio entre as virtudes; torna os homens
semelhantes aos anjos. Nada h belo que no seja puro, e a beleza do homem  a
castidade".

Muitas vezes nas agradveis manhs primaveris s arrebatada pelos encantos da
natureza. Para onde quer que teus olhos se dirijam, alegram-se com a vida mais
luxuriante; montes e vales atapetados de relva fresca banhadas pelos raios dourados do
sol. A pomposa florescncia das rvores de cujos galhos, cantores alados lanam no
espao, suas canes argentinas. Milhares e milhares de flores abrem as mimosas
corolas, exalando suave perfume. Sim, magnfica e admirvel  a terra, com seu ornato
da primavera.

No entanto muito mais, bela e mais formosa  a alma juvenil que se apresenta pura aos
olhos perscrutadores de Deus, no profanada pelo sopro do pecado, espargindo os
flgidos raios da graa santificante.  to bela, que os anjos do cu, com grande prazer,
a contemplam, e o prprio Deus que com sua bondade onipotente, criou tudo o que h
de belo, no cu e na terra, como que encantado com sua magnificncia, exclama: "Oh!
Quo formosa  a gerao casta com seu brilho! Oh! Quo formosa  a gerao casta
com seu brilho! Imortal  a sua memria e  louvada diante de Deus e diante dos
homens" (Sab, 4.1).

O pecado, pelo contrrio, que se opes a esta virtude celestial, rouba  alma juvenil, a
beleza sobrenatural e torna-a feia aos olhos de Deus. Com razo pois, diz So
Boaventura: "Assim como a podrido faz a maa perder a beleza, a cor, o aroma e o
sabor, assim tambm este pecado priva a alma da beleza do merecimento da graa e de
toda a sua excelncia". Sim, jovem crist, ama a pureza do teu corao e guarda-a como
a pupila dos teus olhos. Ela te infundir grande paz interior.

Na noite do Natal cantavam os anjos nos campos de Belm: "Paz na terra aos homens
de boa vontade". Refere-se a ti esta promessa, pois, se fores casta e pura, possuirs
seguramente a boa, a melhor vontade. De fato: tua vontade est  vontade infinitamente
santa e bem aventurada de Deus.  voz da tua conscincia ds livre e espontnea
ateno e pela graa de Deus cooperas fielmente com ela. Como recompensa recebers
a paz prometida.

A impureza, pelo contrrio introduz na alma desassossego e a inquietao, a confuso e
a revolta. Quantos coraes dolorosamente agitados, e aulados por causa da
sensualidade. Assemelham-se ao mar revolto pela tempestade, cujas ondas parecem
fantasmas enfurecidos. Ama, ainda mais que todos os tesouros da terra, a pureza do teu
corao e procura conserv-la com o mximo cuidado. Alcanars assim uma feliz
inclinao para todo o bem. Se teu corao for puro e candido, ser tambm
moralmente, suscetvel a todos os movimentos e inclinaes nobres. Teu esprito no
ser obscurecido pelas paixes. Compreenders melhor o encanto da graa e mais
facilmente e com maior prazer entusiasmar-te-s pelas coisas elevadas, pela beleza
moral. Possuirs tambm mais coragem e mais fora para praticar o bem e sacrificar-te
por ele. Com efeito, a castidade  uma fora superior e celestial, que levanta o corao
acima das prprias fraquezas, unindo-o a Deus; que  a pureza e a fora infinitas. Desta
unio influi sobre o corao casto uma energia cada vez mais nova.
Ao invs no mostra a experincia que a impureza quebra, por assim dizer, as asas 
alma juvenil e rouba-lhe todas as foras para os arrancos elevados? Que todo o
entusiasmo para o bem para o nobre desfalece no corao envenenado por este vcio?
Quantas vezes podemos verificar que tais jovens s tm vontade e compreenso para as
frivolidades e futilidade, para o gozo e o prazer, para o que  baixo e vil! Quantos pais,
professores e educadores no podem, com lgrimas, testific-los?

Ama principalmente, a virtude da santa pureza. Guarda-a como teu tesouro mais
precioso. Por meio dela conservars, um terno amor a teus pais, a teus irmos e ters
uma vida serena e feliz.




A uma filha, a uma moa, que se mantm pura, ser fcil amar os pais e corresponder,
fielmente, aos seus deveres para com eles. Seu corao est indizivelmente, dirigido
para Deus e para os pais. Depois de Deus as delicadezas especiais so reservadas aos
pais, a quem nenhum segredo oculta. Com prontido infantil cuida de satisfazer os
desejos de seus queridos pais, proporcionar-lhes alegria, felicidade e delcias.

A uma pequena indisposio de sua querida me, corresponde com os maiores
cuidados, que se traduzem nas mais afetuosas expresses. Sucede, ordinariamente, coisa
bem diversa  filha, que tem o corao dominado por alguma paixo desordenada!
Como podes tratar friamente, com grosseria e aspereza, a me que, h vinte anos, ou
talvez h mais tempo, vem dedicando-te todo o amor! J no te lembras das lgrimas
que ela derramou por ti, das profundezas feridas que lhe abriste no corao, das amargas
aflies que lhe causaste?

Ama a inocncia e a pureza do corao e conserva-as com santo zelo, como jias
preciosas, assim poders contar com um futuro feliz. Para chegares a esses resultados,
tem como certo, antes de tudo, que os belos anos de tua mocidade passaro mui
rapidamente. Que te aproveitar, ento, o haver-te distinguido durante alguns dia e
meses, o teres ouvido inspidos louvores; e tomado parte em inmeras festas e
divertimentos, se depois, decorridos, talvez trinta ou quarenta anos, com severa censura
de tua conscincia, com um olhar retrospectivo ao teu passado sentires a angstia do
remorso?

Pensa, portanto, em preparar-te um bom futuro, lanando agora, slidos alicerces; passa
a tua juventude virtuosamente e, sobretudo, conserva-te casta e pura. Assim merecers
os favores de Deus; Ele te conduzir, te esclarecer, a fim de com seriedade e recato,
atenderes s obrigaes do teu estado e no te deixares seduzir por uma paixo cega e
alucinante; Ele te abenoar, como o fez ao casto Jos do Egito.

E, ainda mesmo que no tenha derramado com abundncia os bens terrenos sobre a
estrada de tua vida, te conceder as suas graas com tanta largueza, que vivers uma
vida feliz e um dia com toda a confiana poders encarar a morte. Se quiseres
permanecer casta e pura, deves combater pronta, firme, resolutamente, todos os maus
pensamentos e tentaes, que sobrevierem contra esta virtude. Apesar de seres boa e
virtuosa, teres recebido uma aprimorada educao de teus timos pais, possures a
melhor vontade de passar cristmente o precioso tempo da tua mocidade, no obstante
poders ser assaltada pelas piores e mais vigorosas tentaes.

Consola-te: a tentao nunca e de nenhum modo  pecado, se no consentires nela. At
os maiores santos foram tentados muitas vezes e com violncia: So Paulo, apstolo,
que se consagrara todo  causa de Cristo, um So Francisco de Assis, que votava amor
serfico ao Salvador Crucificado, uma Santa Catarina de Sena, to agradvel a Deus por
sua elevada pureza.

Assim como o foi para eles, a tentao tambm ser para ti, uma fonte de merecimentos
e fortalecer o teu progresso na virtude, se, como eles a combateres, decididamente. Se
acontecer cair sobre a tua roupa um carvo em brasa, no te detns a olhar como vai o
carvo consumindo e devorando o pano. No, imediatamente, num instante o sacodes
fora.  o que te cumpre fazer, se a fagulha de uma tentao impura cai sobre a veste
preciosa da graa santificante. No brinques, pois, com a tentao; logo que a
perceberes esfora-te com energia por afast-la.

Recorre  orao, sobretudo formula no teu interior pequenas, mas vivas e afetuosas
jaculatrias, e porfia em passar a outros pensamentos por meio de trabalhos que te
distraiam. Assim se afastar a tentao, sem consentires nela, principalmente se
permaneceres sempre vigilante sobre a tua vista e, constantemente, em cada ocasio,
tomares uma santa e honesta precauo contra ti mesma.

Abstm-te, outrossim, da convivncia com certas pessoas, que no seu proceder e
conversas so extravagantes e dissolutas. Evita a companhia de moos libertinos... So
Francisco de Sales diz: "Os vidros, que, demasiado se aproximam uns dos outros,
quebram-se facilmente, e contaminam-se os frutos delicados, quando em contato uns
com outros. Nunca permitas a ningum tocar-te, contra as regras da decncia, nem por
brincadeira, nem por afagos".

Se algum importuno quiser tomar contigo certas liberdades, faze como Jos do Egito:
foge, logo que for possvel! Se, porm no puderes fugir, clama por socorro e resiste
com todas as foras. Determina-te a morrer, de preferncia a consentir em qualquer mal.
No te deixes iludir por quem te diga: isto ou aquilo, - que evidentemente  contrrio 
honestidade e aos costumes cristos  no tem importncia e no  pecado.

Acredita, apenas, no teu catecismo e na voz da tua conscincia. Nunca passeies sozinha
 noite com um moo, nem permitas excessivas familiaridades com pessoa de outro
sexo. Muito, embora, aquela camaradagem possa parecer inocente, no comeo, contudo
a pureza do corao corre sempre grande perigo. No te esqueas de que a serpente, que
fere mortalmente, gosta de se esconder sob a relva macia e entre as variegadas flores.
No fomentes, portanto, amizade alguma, demasiado prematura e sem vigilncia.

Teus pais, que muito se interessam pelo teu bem e felicidade e que, por sua mais larga
experincia da vida, mais facilmente conhecem as pessoas e as relaes, sabero
aconselhar-te a tempo, quando algum te pretender. Sem que eles o saibam, no deves
travar semelhantes relaes.

Familiaridade s haja quando a sria inteno e perspectiva de casamento prximo a
justifique, e ainda neste caso, no deve faltar  conscienciosa vigilncia dos pais ou de
outros bons parentes cristos, para prevenir, o mais possvel, qualquer perigo e ocasio
de pecado. Ah! Quantas donzelas no dia de suas npcias, censuram-se amargamente, ao
pensar como se preparam to mal para o casamento, por terem permitido namoros to
leviano e demasiado livre! Quantas h que do este passo de extrema importncia, sem
Deus e sem a sua santa beno, fundam uma famlia, em que no reina paz, nem virtude,
nem verdadeira felicidade!

Quantas h que no leito de morte, ao pensarem nos pecados que cometeram antes do
casamento, foram atormentadas pelas duras exprobraes da conscincia e aguardaram
a morte com inquietao e pavor! Se queres casar, faze que, no dia de teu casamento, o
divino Salvador, de modo invisvel, mas real, do altar, estenda Suas mos e derrame
sobre ti e teu esposo a plenitude de Suas mais preciosas bnos, para viverdes em
matrimnio feliz e virtuoso. Esfora-te para que no tenhas, algum dia remorsos de
conscincia, ao lembrar-te do tempo do teu noivado.

Eis porque deves estabelecer os seguintes princpios: evita, quando puderes, at a
sombra do pecado; precisamente no tempo do teu noivado, reza com muita regularidade
e devoo, com diligncia maior e melhor do que antes; honra e venera muito a
Santssima Virgem, coloca-te amide debaixo de Seu manto e sob a proteo de So
Jos; recebe mais amide e com timas disposies, os santos sacramentos, e procura,
tambm estimular a isso o teu noivo. No transcorrer desse tempo to belo e feliz para ti,
mas, por outro lado, to srio e to importante, exercita-te mais facilmente do que antes,
nas boas obras, sobretudo, nas obras de misericrdia e caridade.

Que bom seria se, no dia de teu casamento, muitos pobres e doentes, que conheceram o
teu corao nobre e generoso, implorasse as bnos do cu sobre ti! Ser-te-ia muito
mais til do que todo o brilho externo e os alegres banquetes e festas, que em regra se
fazem no dia das bodas, embora eu no queira afinal censurar tal costume, quando se
festeja as npcias de maneira crist e se exclua todo o pecado. Por amor a santa pureza,
evita tambm o mais que puderes, os bailes. Desfalece e extingue-se neles a inocncia.
No poders, talvez, esquivar-te da dana, e de algum baile, mas participa deles o mais
raro possvel. Nunca tomes parte dos que forem escandalosos; em quaisquer
circunstncias, vai sempre acompanhada de teus pais, ou de outras pessoas
conscienciosas.

O manso e suave So Francisco de Sales, que no gostava de impor a outrem exigncias
rigorosas, manifestou-se contrrio s danas e aos bailes, com estas palavras: "Digo dos
bailes o que os mdicos dizem dos cogumelos; os melhores no valem nada; assim
tambm, as danas mais inocentes no tm valor algum. Pelo que, jamais se ho de
permitir tais divertimentos, nem mesmo em caso de necessidade e com a maior
precauo". Ouamos ainda a tal respeito a opinio de um estadista, o conde de Bussy
Barbutin.

Em 1620, o bispo de Autun, que desejava transmitir aos seus diocesanos por meio de
uma carta pastoral, a so doutrina sobre os bailes, perguntou-lhe se esses divertimentos
nas classes elevadas e educadas no seriam talvez inofensivas. O referido conde
respondeu ao bispo do seguinte modo: "Sempre tive por perigosos os bailes; no s o
meu bom senso, mas ainda a minha experincia, conduzem-me a esta concluso, e
embora seja de grande valor o testemunho dos Padres da Igreja, penso, contudo, que
nesta matria, pesa mais a opinio de um estadista. Bem sei que, para algumas pessoas
h menos perigo do que para outras; no obstante, os temperamentos mais frios a se
inflamam. Em regra, esta espcie de divertimento  preferido pela mocidade que a
muito custo logra vencer as tentaes, dificuldade que mais se agravam em tais
ambientes. A minha opinio, portanto,  que um bom cristo no deve ir a nenhum
baile".

Finalmente, donzela crist nunca leia livro, jornal ou revista, que contenha coisas
lbricas ou pensamentos e versos ambguos, de dbio sentido que se prestem a uma
interpretao pouco decente. Muito embora seja magnfica a linguagem ou estilo, no te
deixes, todavia aliciar e corromper. O veneno  sempre veneno, ainda que esteja num
artstico frasco dourado. Extremamente pernicioso para a moralidade so tais romances,
sobretudo os romances de amor livre. Quantas donzelas no depravaram o prprio
corao com essas leituras e encheram a cabea de idias extravagantes e falsos
conceitos da vida! Eis porque admoesta Santo Afonso com grande energia: "Proibi, pais
de famlia, aos vossos filhos, com mximo rigor, que leiam romances, os quais deixam,
na infeliz mocidade, torpes impresses que lhes roubam a piedade e a excitam ao
pecado".

O que se diz dos livros maus, pode-se aplicar tambm s figuras e esttuas imorais. No
as encares, no as examines de perto. So de algum modo ainda mais danosas para a
virtude, que os escritos e as conversas desonestas. O que se v produz uma impresso
ainda mais profunda do que aquilo que se l ou se ouve. No te detenhas, portanto, em
frente de mostrurios, onde se expem coisas capazes de ofender os olhos castos.
Alerta, pois e guarda-te que, por desgraa, hoje se encontram nas revistas, nos artigos de
comrcio e nos mveis, as figuras mais torpes e vergonhosas.

Quanta donzela honesta, houve que preferia morrer a cometer uma ao impura, foi
perdendo aos poucos, pela contemplao de tais figuras, o delicado pudor e averso ao
pecado e se despenhou, por fim, no abismo do vcio! Que o dano e o prejuzo das
incautas te sirva de aviso! Seja precavida, evita, com toda a ateno, os perigos.
Freqenta a sagrada Comunho. Cultiva amor filial e devoo  Santssima Virgem
Maria, assim transcorrer, pura e feliz, tua mocidade, e conservars intacta a inocncia
at o dia do casamento ou at  hora da morte, se no quiseres contrair matrimnio.
                                13 - O TRABALHO




"Ora et labora - Reza e trabalha!" Era esta a divisa usada por uma antiga Ordem. Quanto
mais fielmente os membros daquela Ordem se apegavam a esta divisa, tanto melhor se
tornava para a sua virtude e perfeio, para a sua alegria e felicidade, para o bom xito e
prosperidade de seu trabalho. Mas, isto que com proveito se aplica aos habitantes do
claustro, tem tambm a sua repercusso para as pessoas do mundo, e para estas, talvez,
com mais vantagens do que para as primeiras. Como j incuti em teu corao o amor 
orao, quero agora recomendar-te o trabalho.

1- Trabalha com fidelidade e diligncia; pois o trabalho  um dever.

J no paraso o homem devia trabalhar, segundo a vontade de Deus. Est escrito no
Gnesis (2,15): Deus, o Senhor, tomou o homem e o colocou no paraso, para que ele o
cultivasse. Alis, o trabalho, era para o homem uma distrao doce e suave. Depois da
queda, Deus renovou a ordem, o preceito do trabalho. Dirigindo-se a Ado, que
representava toda a humanidade, disse: Comers o po no suor da tua face, at que
tornes a terra, donde foste tirado. (Gnesis 3, 19). Homem algum est isento da lei do
trabalho, nem o rico, nem pobre, nem o rei, nem a mocidade (esta principalmente) que 
a primavera da vida, o tempo da semeadura.

Na mocidade  que se deve preparar a terra, para que h seu tempo, se logre colher, com
abundncia: a mocidade  a quadra em que se deve cuidar da rvore, para que mais
tarde no produza frutos amargos, inspidos e envenenados. Na mocidade  que se ho
de aprender os meios de ganhar a vida e sustentar-se na idade futura. Se a mocidade
transcorre-se na vadiagem, ento est perdida, e esta perda , na maioria dos casos
irreparvel, irremedivel. De modo que, justamente para ti, na tua mocidade, a
obrigao de trabalhar  muito sria e importante, e devers cumpri-la
conscienciosamente.

Trabalha com fidelidade e diligncia, pois o trabalho  uma honra. No  de fato uma
honra o tornar-se semelhante ao divino Salvador, trabalhar, como Ele o fez? Como
Jesus trabalhava com diligncia e boa vontade! Na oficina de Nazar, no decorrer de
muitos anos, dia a dia, o suor Lhe gotejou de face, quando com a enx na mo,
desbastava a madeira.
Aquelas gotas de suor do Divino Salvador restituram honra e dignidade ao trabalho
corporal, que no tempo do paganismo era to desprezado e, por isso confiado somente
aos escravos. Mais tarde, na vida pblica, como no trabalhou o Senhor, fielmente!
Com que zelo entregou-Se  pregao do Seu santo Evangelho! Com que amor
afadigou-Se pelos pecadores! Os raios dardejantes do sol, Ele esperava, junto ao poo
de Jac, a Samaritana pecadora, para a converter. Nas horas mais avanadas, exausto do
trabalho pesado, ainda instrua o povo. Ao Salvador te assemelhars, se trabalhares
fsica ou intelectualmente, com ardor e esforo, o que ser para ti uma honra.

No ser ainda uma honra para ti, se por meio dos favores que fazes a outrem, te
tornares til e servial? O levar a efeito alguma iniciativa, o proporcionar aos demais os
meios e o caminho para a sua felicidade, sobretudo ser til e obsequiosa para com os
outros, equivale mais ou menos a tomar parte na atividade criadora, conservadora e
providente de Deus infinito. Isto  grande e belo e sumamente honroso, mil vezes mais
do que viver, indolentemente,  custa do que os outros acumularam e realizaram.

Eis porque um operrio de face tostada pelo sol e mos calejadas, merece muito mais
estima e venerao do que o preguioso e vadio, que no quer trabalhar e que to s ao
gozo aplica seus sentimentos e esforos. Das retalhadas mos do trabalhador brotam
bnos, enquanto que a vida do ocioso folgazo vem a ser, apenas, desdita para a
humanidade. Razo tem, portanto, o poeta W.Weber, quando diz: "Der beste Orden, den
ich weiss, ist eine Hand voll Schwellen - o melhor ornato que eu conheo,  a mo cheia
de calos."

Trabalha com fidelidade e afinco, pois o trabalho  finalmente uma bno.

O trabalho assduo far-te- progredir na vida. Quem  que progride? No  o que 
capaz e habilitado? o que aprendeu alguma coisa? o que, extremamente ativo, de manh
at a noite, se d com prazer ao trabalho? o que se entrega, de corpo e alma e com
grande escrpulo, aos deveres do prprio estado? O vadio, o preguioso, nunca chegar
a um ramo verde, como costumam dizer os alemes, e que se aplica principalmente aos
nossos dias, quando, em todos os setores da vida, reina uma enorme concorrncia, e os
indolentes so postos  margem.

2- O trabalho diligente enobrece e aperfeioa o teu carter.

Queres trabalhar constantemente de acordo com a tua conscincia e atender sempre de
modo fiel s exigncias muitas vezes srias e graves, de tuas obrigaes? Devers,
ento, renunciar a ti mesma e combater, resolutamente, a tendncia inata para a
indolncia e comodismo. Esta abnegao, de ti prpria, comunicar ao teu carter, fora
e energia, tornando-o equilibrado.

O trabalho diligente dar-te- ntima alegria e felicidade. De fato. Quando  que ests
mais contente contigo mesma? No  naquela tarde que podes dizer a ti mesma que
nada negligenciaste ao teu dever? Com razo exclama o provrbio alemo: Arbeitmacht
das Leben suss - O trabalho faz doce a vida.  o que tambm a sagrada Escritura
confirma: "A vida do homem laborioso, que se contenta com o que tem, ser doce e
suave, e tu nela encontrars um tesouro." (Ecli., 40,18)
O trabalho diligente  de grande utilidade para a conquista da virtude. Diz o Esprito
Santo: "A ociosidade ensina muita coisa m". A esta mxima combina perfeitamente o
provrbio alemo: "Mussigang ist aller aster Anfang" - A indolncia  o comeo de
todos os males. Quantos pensamentos desatinados e pecaminosos no se mantm longe
de ns, enquanto nos ocupamos sria e utilmente nalguma coisa! Quantas ocasies ms
e quantos perigos de pecado no removemos, quando, com grande alegria, cumprimos
as obrigaes do nosso estado! Assim, ser mais fcil permanecermos bons e virtuosos,
se formos amigos do trabalho srio e esforado. A gua que corre apressada e ativa
sobre os rochedos duros e speros, permanece lmpida e clara, fresca e pura; aquela,
porm, que repousa preguiosa, corrompe-se e oculta, em si, toda sorte de animais feios
e imundos.

O trabalho diligente torna-te til  sociedade. J o bom exemplo da tua diligncia e
amor ao trabalho ser til aos demais, principalmente aos de classe obscura. Vendo
estes que tambm os ricos e distintos trabalham, que empregam o seu tempo a seu
trabalho no servio dos pobres, sentem-se mais aliviados, mais dispostos a uma
reconciliao. O trabalho, pois, concorrido, eficazmente, para a soluo do problema
social, que est hoje causando tantos cuidados e inquietaes.

Quo til e benfica poders tornar-te se distribures, entre as famlias pobres, em tempo
de infortnio, peas de roupa que tu mesma confeccionastes; se ornares a mesa de Natal
dos desamparados, com os produtos da tua diligncia e solicitude; ou se, com o proveito
do teu trabalho, tornares possvel s crianas pobres, a freqncia  escola e  igreja.
Quantas alegrias no poders, assim, proporcionar aos teus semelhantes e que grande
benefcio lhes fars! Se cumprires, alegre e diligentemente, os deveres domsticos, s
isto j bastar para encher-te a vida de graas abundantes! Quanto h, numa famlia,
uma senhora que tem o senso domstico e, portanto que de tudo se preocupa
conscienciosamente; quando as filhas adultas animadas do mesmo esprito, se mantm
ao seu lado, no se  a mais feliz, mil vezes mais feliz do que numa famlia onde falta,
de todo, esse esprito?

Sim, precisamente a execuo conscienciosa do trabalho domstico feminino contribui,
sobremodo, para a felicidade da famlia, e ao mesmo tempo para a felicidade social. 
por isso que tece o Esprito Santo um alto elogio  mulher trabalhadora, quando diz:
"Muitas filhas ajuntaram riquezas; tu superastes a todas". (Prov., 31,29).

Visto ser o trabalho causa de tantas bnos, ama-o e aproveita as graas que Deus te
concedeu. Reflete freqentemente na grave sentena do Senhor: "Toda a rvore que no
produzir bons frutos, ser arrancada e lanada ao fogo". No te coloques no nmero das
moas em que a ociosidade j se tornou como que uma segunda natureza e que dedicam
todo o seu tempo aos prazeres, divertimentos, ao luxo, aos galanteios.  noite, l se
acham elas no cinema; de manh levantam-se tarde. Passam toda a manh diante do
espelho,  tarde consagram-na no piano, ou aos passeios, ou s visitas ou aos clubes, ou
 leitura de romances, ou ao jogo de tnis. Nenhum pensamento para o trabalho srio.
Ah! pobres criaturas!

Pode-se, porventura, esperar que, mais tarde na famlia ou em seus deveres, trabalhem
com xito? que venham exercer um nobre e feliz influxo sobre todas as que se
relacionam de modo mais ntimo com elas? Certamente que no. No pertenas ao
nmero destas! Aplica-te desde cedo, aperfeioa-te e aprende alguma coisa til! Preza
tambm a ocupao proveitosa. Executa, porm, os teus trabalhos com inteno reta,
por amor de Deus e para a Sua honra. As boas intenes, freqentemente renovadas,
tornaro suaves as dificuldades do trabalho e da vida, aumentaro o amor de Deus em
teu corao e granjear-te-o muitos merecimentos para a eternidade.

Se escreveres sobre uma lousa uma poro de zeros, no apresentar estes nenhum valor
numrico, embora sejam algarismos bem traados. Antepe-lhes, porm, uma unidade,
e imediatamente, adquirem grande valor. O mesmo sucede mais ou menos com os teus
trabalhos e ocupaes dirias. Ainda que sejam muito importantes e os executes com a
mxima perfeio, e mereas, por isso, muitos louvores e reconhecimentos dos outros,
se os realizares sem nenhuma reverncia a Deus, sem uma boa inteno, mas apenas
com intuitos mundanos, no passaro de zeros para a eternidade.

Se, porm, os executares "para a glria de Deus e por Seu amor", se lhes acrescentares
aquela misteriosa unidade da boa inteno, adquire grande valor aos olhos de Deus,
ainda mesmo que sejam trabalhos insignificantes e dirios. Segue, pois em teus
trabalhos quotidianos a admoestao do Apstolo dos gentios: "Tudo o que fizeres, em
palavras ou em obras, faze-o em nome do Senhor Jesus Cristo". (Col. 3,17)



              14 - AMOR A ORDEM E A PONTUALIDADE




Deus confiou  mulher um encargo duplamente importante: santificar a famlia por sua
vida e trabalhos, e dar aos filhos primeira educao. Cumpra ela, conscienciosamente,
esse dever, e grande cpia de graas far fluir sobre a humanidade. Para torn-la apta 
sua misso, comunicou-lhe o Criador, a par de outros dons, o amor  ordem e a ateno
s coisas pequenas. Exercitar retamente este amor  ordem , portanto, um dever que
Deus exigir, principalmente dela.

A ordem agrada. Agrada, principalmente, a Deus, Deus ama a ordem, porque Ele
mesmo  ordem, a mais maravilhosa e a mais amvel harmonia. Unem-se nEle as trs
Pessoas, numa perfeita unidade de substncia; nEle esto todos os atributos em perfeita
consonncia entre si - a justia com a misericrdia, a onipotncia com a bondade, a
majestade com a assombrosa singeleza de Seu amor; todos os Seus atributos infinitos
forma a unidade absolutamente perfeita do Seu Ser, numa ordem e harmonia
inconcebveis. No h nEle a menor sombra de desordem ou dissonncia.

Deus ama a ordem. Eis porque comunicou  Sua obra (a natureza) uma ordem
admirvel. Com quanta preciso os inumerveis corpos celestes executam as rbitas que
o Senhor lhes traou! Que ordem surpreendente as manifesta na criao das mais
pequeninas plantas e dos mais insignificantes insetos, que ns podemos examinar
suficientemente apenas com o microscpio! E no estabeleceu tambm na Sua Igreja,
uma ordem santa, uma hierarquia, por meio da qual todos os seus membros, desde o
Papa at o ltimo dos fiis, uns a outros se ligam numa grandiosa e estupenda unidade?
Suprima-se esta ordem santa, e dentro em breve perder a Igreja sua unidade e sua
fora, e o Reino de Jesus Cristo se malograr, suas partes dispersaro como o vento que
espalha em todas as direes a pedra moda e reduzida a p.

Assim como Deus ama a ordem, tambm tu deves ter sempre em vista um mtodo em
tua vida e nos teus trabalhos, seguindo assim a admoestao do Apstolo dos gentios:
"Faa-se tudo decentemente e com ordem". (I Cor. 14,40).

A ordem agrada tambm aos homens.

Quando entramos num jardim e encontramos tudo bem ordenado, as plantas tratadas
com cuidado, as rvores dispostas com percia e inteligncia, ordem e proporo, no
desenho dos caminhos, dos canteiros e divises, imediatamente e desde o primeiro
aspecto sentimo-nos cheios de alegria e satisfao, e esta alegria ainda sobe de ponto 
medida que dirigimos nossa ateno, para cada coisa em particular.

Se, ao invs houver, no jardim, as mais belas flores e arbustos encantadores, mas tudo
sem nenhuma ordem, a trouxe-mouse, sentimo-nos mal impressionados por aquela
confuso e contristados abandonamos imediatamente o jardim. A ordem desperta-nos
contentamento; a desordem, desgosto. Conserva, pois, a ordem em tudo, s pontual na
execuo das tuas obrigaes, apresentando-te sempre  hora certa; assim a todos
contentars, granjears a maior confiana, e vers os teus esforos reconhecidos.

Suceder, precisamente, o contrrio se faltares em tudo  pontualidade e no guardares a
ordem em teus trabalhos. Sobrevir-te-o reclamaes sobre reclamaes e ningum
ousar confiar-te coisa alguma de importncia. A ordem tambm  til e saudvel. Sem
o amor  ordem no existe verdadeira e slida virtude. Com efeito: que  a virtude? Em
sentido estrito,  o desembarao, adquirido pelo exerccio no querer e fazer o bem.
Basta ter em vista definio para reconhecer que a verdadeira virtude no tolera a
desordem.

Sem dvida, como pode solidamente formar-se aquela prontido no bem, se, no seu
proceder o homem se deixa conduzir apenas pelo humor e disposio, pelas
contingncias e exterioridades? Sem o apego  ordem no haver boa formao de
carter. Se desejas adquirir um carter firme e reprimir o teu esprito verstil e teu
corao volvel, hs de ser enrgica e renunciar a ti mesma. S assim teus pensamentos,
desejos e atos podero tomar rumo seguro e definido. No o conseguirs, porm, da
maneira mais eficaz, se te acostumares com a ordem e pontualidade, a despeito de todos
os estorvos e impedimentos? Sim, a pontualidade fortalece o teu carter, e comunica 
tua natureza uma tmpera de ao. Sem o amor  ordem  impossvel, tambm, o
cumprimento fiel dos deveres do prprio estado.

Quem ama e observa a ordem, dispe de mais tempo para os seus trabalhos, porque tudo
est regulado e ordenado na sua vida; no perde tempo em conversaes e divertimentos
inteis, em sonhos quimricos, na ociosidade estril. Quem ama e observa a ordem,
trabalha com mais energia e tenacidade, suplanta mais facilmente, com inflexvel aferro,
as dificuldades e obstculos que se opem ao fiel cumprimento das obrigaes, sua
vontade, tornar-se- de contnuo, robustecida pela constante abnegao que h de
exercitar.

Quem ama e observa a ordem, pode finalmente no exerccio dos seus deveres, contar
com a bno de Deus, que a tudo acompanha. No entanto, Deus abenoa,
principalmente, aquilo que Ele ama. Ora, ama antes de tudo, como ficou indicado, a
ordem, - e aborrece a desordem. De todas estas razes se conclui que, pela desordem e
inexatido, muitos e grandes danos se produzem. Acostuma-te, pois, desde jovem, 
pontualidade e ao amor  ordem. Surge agora esta objeo: onde devers observar a
ordem?

Em primeiro lugar, observa a ordem nos deveres do teu estado. Levanta-te cedo pela
manh, para que possas,  hora marcada, comear a tua obrigao. Nunca comeces
tarde, nem um instante sequer. Executa cada parte da tua tarefa, com ateno e
conscincia. O que puderes fazer agora, no o transfira para a hora seguinte, nem deixes
para amanh o que deve ser feito hoje. Sobretudo no descures a limpeza nos teus
deveres e o asseio de tua pessoa. Causa to m impresso uma jovem, desasseada no seu
ofcio e no seu vestir! Deves ter certa ufania de ser em tudo exata, pontual e limpa.
Observa, em segundo lugar a ordem em (momentos de) folgas e prazeres.

O cristo que trabalha, assiduamente, deve tambm conceder a si prprio alguma folga e
descanso. No pode o arco permanecer sempre retesado, alis, perder sua fora, sua
elasticidade. O descanso e a alegria sadia, comunicam-nos novo frescor e fora nova
para o trabalho srio; tornam-se, pois, verdadeira necessidade para ns. No entanto, se
por um lado o descanso  til, por outro lado  sobremodo necessrio que, nas alegrias e
prazeres da vida se observe medida e termo, regra e ordem. Quem no observa, neste
ponto, a justa medida e ordem razovel, expe-se ao perigo de queres gozar sempre
mais at chegar finalmente a engolfar-se nos prazeres, e ento se verificam as palavras:
"Se condescenderes com tua alma no que deseja, ela far de ti a alegria dos teus
inimigos". (Ecli., 18,31). , em nossos dias, principalmente, que tais palavras encontram
a sua aplicao, quando uma sede desordenada de prazeres se apoderam de quase todas
as classes sociais e causa tantos males, precisamente,  mocidade.

Aprende, pois a guardar aquela sbia medida e s desfruta o teu descanso at o ponto
em que tua moralidade, o gosto pelo trabalho, o zelo de teus deveres no sofram o
menor dano. No te deixes seduzir de nenhum modo, pelo exemplo dos outros, ou pelas
exortaes ou zombarias de companheiras levianas: Primeiro o necessrio: depois o til;
finalmente o agradvel. Por ltimo observa a ordem na tua vida religiosa. Refiro-me
principalmente  orao,  recepo dos Santos Sacramentos e  assistncia aos atos
religiosos. Aqui, a ordem e regularidade so de grande importncia.
Para que possa a flor prosperar e desenvolver-se em magnficos frutos, necessita de
humildade. Que faz, ento, o jardineiro quando a chuva no vem no tempo prprio? Ele
mesmo rega as flores, e com toda a regularidade. Se no observar nenhuma ordem, se
durante dois ou trs dias inundar as plantas, e depois deixar passar trs ou quatro
semanas sem as prover duma s gota de gua, aquelas plantas, enfezadas pelo ardor do
sol, no podero desenvolver-se satisfatoriamente. Assim, tambm, para que a vida de
virtudes produza em ti frutos preciosos, necessitas da presena da graa, comunicada
por meio da orao e dos santos Sacramentos. Se procederes segundo a tua vontade e
capricho, sers como a pobre flor, que o jardineiro desleixado rega, to
desordenadamente.

Por conseguinte, faze sempre e com todo o escrpulo, dia a dia, a tua orao de manh e
 noite, e estabelece como norma de vida, receber, regularmente, os santos Sacramentos.
Desejaria aconselhar-te ainda, a fazeres todos os dias, com regularidade, uma breve
leitura espiritual de um quarto de hora, ou pelo menos de dez minutos, nalgum livro, por
ex., "Santo Evangelho", "Imitao de Cristo", ou "Filotia" de So Francisco de Sales.
"Guarda a ordem e a ordem te guardar".


                                  15 - ECONOMIA




O ouro e os bens temporais, principalmente, tm sem dvida a sua grande importncia
para cada indivduo, para a famlia e para a vida social. Se o cristo, antes de mais nada,
deve dirigir seus cuidados para a consecuo dos bens celestes, no pode, todavia,
mostrar-se indiferente aos bens terrenos e temporais.

H de esforar-se por adquiri-los pelo emprego de meios lcitos e de maneira justa, deve
sobretudo usar deles conscienciosamente, e de acordo com a vontade de Deus. No
pode, portanto, dissip-los; cumpre que os empregue com economia.

Sobre a economia desejo agora dar-te uma breve instruo.

1 - A religio crist exige de ti a economia.

A economia pertence ao nmero das virtudes que so mais desprezadas e criticadas.
Quem no sabe distinguir devidamente a sua renda e as suas despesas e por isso nunca
"chega a um ramo verde" (como dizem os alemes),  precisamente o que murmura da
economia daqueles que a aconselham e os difama como sovinas. Eis porque no raro
acontece que a gente se envergonha da economia e procura escond-la quanto possvel
aos olhos do mundo. No entanto, ela merece, como as outras virtudes, todo apreo e
cumpriria que a praticassem fiel e retamente todos os cristos. Sim, mesmo os ricos, at
os milionrios, devem ser econmicos, naturalmente de maneira diversa da dos
burgueses comuns.

O Cristianismo exige de todos ns uma sensata economia. Diz-nos que Deus  o
altssimo Senhor e Proprietrio dos nossos bens terrenos, dos quais s nos confiou o uso
e administrao. Nesta administrao e neste uso devemos acomodar-nos  sua vontade
infinitamente santa e sbia, que sem dvida reprova uma dissipao leviana e insensata
dos mesmos bens, e que ser denunciada, perante o Seu divino tribunal. Eis porque
prescreve a Sagrada Escritura: "Tudo quanto entregares conta e pesa: e tudo anota do
que deres e receberes". (Ecli. 12,7). E assim nos exorta outro passo: "No tempo da
abundncia, lembra-te da pobreza, e das necessidades da indigncia no dia das
riquezas". (Ecli. 18,25).

Mas, ainda mesmo, no tempo em que possumos grandes riquezas e abundncias, no
devemos ser arrogantes e perdulrios, cumprindo-nos antes pensar nos pobres e
necessitados.

O prprio Divino Salvador, certa vez numa ocasio solene, publicamente recomendou a
economia. Acabara de saciar milagrosamente, no deserto, uma multido de 5.000
pessoas, mais ou menos; disse depois aos Seus discpulos: "Recolhei os pedaos que
sobejaram, para que no se percam" (Jo. 6,12). A que vinha esta ordem do Senhor, esta
solicitude por aqueles fragmentos? Teria podido abandon-los quela gente, para que
fizessem de tais restos o que bem quisessem. No entanto Ele mesmo justifica a Sua
ordem com estas palavras: "para que no se percam".

Cuidado e carinho com o que  pequeno, ateno para o que  pouco, prudente
economia,  o que Ele queria incutir, daquele modo, no corao de todos ns.

2 - A economia crist  uma virtude til e cheia de bnos para a vida domstica.

Preserva, primeiro, a famlia de muitos embaraos. Nem sempre o sol brilha claro e
alegre. Para muitos lares chegam tambm os dias graves e tristes, ocasies em que os
negcios no prosperam como de costume e as fontes de renda se vo secando cada vez
mais, horas em que a doena ou acidentes imprevistos exigem maiores gastos. Que bom
no ser ento se, pela economia e previdncia, se houver guardado alguma coisa! Ao
contrrio, que grande no ser o aperto e at mesmo a desgraa, se nos dias de
prosperidade no se houver pensado na economia, mas somente em viver  larga!

A economia conduz tambm  riqueza.

Uma gota une-se a outra gota, e assim se forma o regato; um gro de areia junta-se a
outro, e deste modo se levanta a colina. Um centavo acrescenta-se a outro centavo para
perfazerem uma bela soma. Com um cajado, que representa todo o seu cabedal,
transportou-se o Patriarca Jac por sobre as guas do Jordo para um pas estranho, e
volvidos alguns anos, enriquecido, com dois grandes e preciosos rebanhos, tornava 
sua ptria. Por onde se v que, se algum comeou a economizar tosto a tosto,
chegar finalmente, a uma considervel abastana.
"Os bens que se colhem pouco a pouco, multiplicar-se-o" (Prov. 13,11).

A economia cautelosa tem um alto valor moral. No rene apenas bens materiais, mas
ainda proporciona vantagens morais. Conserva a famlia na honestidade e na ordem;
preserva-a de leviandade, fazendo-a evitar gastos desnecessrios; garante-lhe certa
alegria e confiante disposio, pelo aumento cabedal; faculta-lhe aquele esprito de
independncia, que  o sinal de uma livre e forte burguesia.

Econmicos e frugais no se resguardaro os filhos adultos de todos os perigos, em que,
desgraadamente naufragam tantos? Refiro-me, sobretudo aos gozos e prazeres
desordenados, ao luxo excessivo e paixes que consomem tanto dinheiro e desbaratam
ainda mais as foras morais. A famlia, onde reina uma prudente economia, no est em
melhor condio de praticar as obras crists de misericrdia? Quantos auxlios no
poderiam dispensar aos indigentes, s igrejas pobres, s misses, ou a outros fins nobres
os que quisessem evitar gastos de todo suprfluos? De maneira que no  somente para
a administrao, mas, ainda para a vida moral, religiosa e social que tem a economia sua
alta importncia, to mal conhecida infelizmente.

3 - Como adquirir o hbito da economia?

A economia deve, antes de tudo, ser razovel. Cumpre, pois, examinar onde e quando se
h de economizar ou no. Os gastos para tudo o que requer uma vida social so
razoveis, como tambm para o que proporciona descanso e recreio moderados, so
plenamente autorizados e permitidos, contanto que se tenha em vista a posio social e
as possibilidades do capital. So, pelo contrrio, proibidos todos os gastos feitos apenas
para desafogo de uma inclinao pecaminosa, de um luxo exagerado, para satisfao de
prazeres excessivos, e, sobretudo, de paixes baixas. No esbanjes no luxo exagerado e
no prazer ilcito as tuas riquezas.

Enquanto permaneceres em casa de teus pais, deves tambm ajud-los a economizar.
Portanto, nada exijas que lhes seja difcil fazer ou conceder, ou que exceda as suas
posses. No os atormentes com pedir-lhes vestidos, adornos e diverses que no podem
satisfazer, por lho vedar o dever de uma sensata economia.

Do que te do, usa tambm com cuidado, para que em pouco tempo se no deteriore e
seja preciso reform-lo. Quantos pais no lamentam as pretenses das filhas, que esto
sempre a transpor os limites, com suas ambies descomedidas! H razes sobejas para
se censurar estudantes que vivem  larga nas academias, enquanto os pais carecem do
necessrio em casa. No merecem igualmente grave censura as filhas que, com suas
exageradas pretenses em matria de apresentao externa, obrigam os pais a
verdadeiras privaes?

A tua economia h de ser, em segundo lugar, sobrenatural. Deves pratic-la, no por
afeio desordenada ao dinheiro e aos bens terrenos, mas por um princpio superior, isto
, para cumprires fiel e conscienciosamente a vontade de Deus, que um dia te pedir
conta da administrao e do uso dos bens terrenos. Ainda que rica e opulenta, no
penses nem diga jamais: por que fazer economia? no preciso de economia; tudo tenho
em abundncia. Convence-te de que tambm tu, que s rica, dars conta a Deus do reto
uso dos teus bens. Finalmente seja a tua economia amorosa e benfica. Certo que, em
fazendo economia, deves pensar no futuro e empenhar-te em cuidar dele. Deves querer
tambm, por meio de economia, aumentar os teus haveres, de maneira justa e reta; ser-
te-, porm, meritrio, se empregares para fins de beneficncia, parte das tuas
economias. Se fores econmica, bem depressa estars em condio de auxiliar os outros
e tornar-te benfeitora ainda que menos rica.

As obras de caridade crist: igrejas, hospitais, abrigos para os pobres, estabelecimentos
de instruo, etc., so fundados e mantidos ordinariamente com os donativos da
economia. Para poderes, portanto fazer o bem, s econmica. No governo da tua vida,
pensa numa slida parcimnia e moderada simplicidade; nada deixes sem a devida
ateno e evita os gastos suprfluos, at mesmo nas coisas pequenas coisas, pois na
considerao destas pequenas coisas est o segredo da economia.

                       16 - ALEGRIA E BOM HUMOR




Estranhars talvez que um religioso te estimule  alegria e jovialidade e pensars que
haveria coisas mais importantes para as quais poderia ele impelir-te. No entanto, quero
mostrar-te que tambm a alegria  um dom de grande preo que um religioso com muita
razo pode colocar em teu corao.

1 - Na alegria bem ordenada se esconde uma grande bno

A jovialidade que te recomendo  uma pacfica e bem fundada alegria, uma irradiao
da paz interna e da harmonia que residem no corao. Vem a ser, para ti, um grande
bem. Desta alegria diz Joo Paulo: "A jovialidade  um cu sob o qual tudo prospera,
menos o veneno". Certo que  grande o encmio, mas verdadeiro. A alegria contribui
para que os bons germes e disposies naturais do corao se desenvolvam do melhor
modo possvel.
A primavera  na natureza a quadra da alegria e dos prazeres. Quo afvel e doce nos
sorri o cu azul! Sobre montes e vales, derrama o sol seus raios dourados, os quais
penetram at o ntimo do nosso corao! Os pssaros, com seus cantos alegres e
variados, enchem a floresta! Solcita e contente, esvoaa a abelha, de flor em flor para
sugar o mel. As flores ostentam sua beleza  nossa vista, amveis crianas em trajes
festivos!

Por toda a parte deparamos alegria e beleza!

Merc desta alegria, como tudo se desenvolve e prospera na natureza! Ento
contemplamos o fermentar e germinar, o abotoar e florescer, como se tudo, montes e
vales, estivesse cheio de uma vida nova e misteriosa. Como tudo se transforma e
modifica, sob a ao do inverno duro e rigoroso, qual fantasma do terror domina por
toda a parte, afugentando a fresca vida da natureza. Eis a imagem do que sucede,
tambm, contigo, jovem crist.

Quando permite que se apodere de ti uma disposio sombria e triste, que te domina por
longo tempo, secam-se em teu corao as fontes da vida, como no inverno fenece a
natureza. Torvas imagens e tenebrosas impresses descem sobre tua alma qual fria
neve; teu esprito se escurece, entibia-se tua vontade e tua fantasia se povoa de
melanclicos devaneios. Como podero desenvolver-se, cheios de esperana, os bons
germes, a inclinao para a virtude, que Deus te concedeu?

Devero, necessariamente, perecer naquela aflio ntima, como a experincia diria o
demonstra  sociedade. S quando os raios brilhantes do sol penetrarem em teu corao,
quando uma alegria interior e uma pacfica harmonia animarem todo o teu ser, sentirs
prazer e gosto na prtica do bem. A graa de Deus, com sua fora, lanar em ti os
germes da virtude, para crescimento rico de esperanas.

Eis por que vivamente nos admoesta o Divino Esprito Santo que nos mostremos alegres
no servio de Deus. "Servi o Senhor com alegria" (Sl. 99,1). E, noutro passo da Sagrada
Escritura, denomina esta alegria ntima - a vida do homem - quando diz: "O jbilo do
corao  a vida do homem e um tesouro inexaurvel de santidade... fixa o teu corao
na santidade do mesmo Deus, e afugenta para longe de ti a tristeza" (Ecli. 30, 23-24).

A alegria contribui, alm disso, para que cumpras melhor os teus deveres de estado.

A satisfao e a alegria te infundem na alma fora e coragem e a revestem de intrpida
energia. Conduzem-te mui suavemente sobre todos os pensamentos, dificuldades e
embaraos com que talvez hajas de defrontar; tornam leve o que  pesado e fazem-te
sentir muito menos os apertos da vida. Por isto, diz de si mesmo o Cantor Real que no
somente caminhou, mas ainda correu pela estrada dos mandamentos do Senhor, porque
o esprito de Deus, o esprito de alegria, lhe tinha dilatado, o corao (Sl. 118,32).

Ao contrrio, uma disposio melanclica e sombria no faz com que tudo te seja
duplamente fastidiosa? No se abate como um peso de chumbo sobre todo o teu viver,
de modo que, alm do fardo dos deveres, deves suportar-te a ti mesma com o fardo do
teu mau humor e tormentos internos? A alegria contribui ainda para que mantenhas
relaes boas e pacficas com teu prximo. Aquele que trata com os homens, deve
exercitar-se na pacincia. Na verdade, ainda os melhores tm as suas imperfeies e
singularidades; de modo que, sempre e por toda a parte, ser preciso suportar algo.

Se estiveres intimamente alegre e satisfeita no te ofenders com qualquer coisa, no
sers uma "sensitiva", ser-te- mais fcil passar por cima de muitas pequenas
contrariedades, e, como se costuma dizer, fars boa cara a mau jogo. E assim ficaro
inclumes a paz e as boas relaes com os demais. Se, pelo contrrio, te deixares
dominar pelo mau humor e pela tristeza, tudo interpretars mal e de cada coisa
insignificante fars, como vulgarmente se diz, "um cavalo de batalha". Ser, ento, para
se admirar que ningum te suporte, que pessoa alguma se disponha com prazer a tratar
contigo, e que se procure quando possvel evitar a tua companhia?

 um prazer freqentar pessoas que pelo domnio de si prprios conseguiram harmonia
interna, e a fazem transparecer externamente como um sol sereno; ao passo que todos
porfiam por evitar aquelas sobre cuja fronte se estende constantemente uma nuvem
ameaadora. A alegria concorre para te proporcionar abundantes graas, nos trabalhos
que depois compreenderes. Como se explica que So Felipe Neri, durante muitos anos,
tenha exercido to grande influxo sobre a mocidade masculina de Roma? Foi antes de
tudo por causa da sua alegria jovial, que poderosamente atraa a mocidade romana.

Sereno, permitia tambm aos rapazes inocentes divertimentos e muitas vezes ele mesmo
tomava parte nos seus folguedos. Quando algum o censurava e bem assim aos rapazes,
dizia tranqilamente: "Deixai-os murmurar! no vos perturbeis, porm, na vossa
alegria! Nada mais exijo de vs seno que eviteis o pecado". E, por que motivo a
atividade de So Francisco de Sales, o grande Bispo de Genebra, exercia to desusado
domnio, com os mais excelentes resultados? Era porque ele, apesar das suas mximas
firmes, em toda parte se apresentava com extraordinrio bom humor, e sua fisionomia
se iluminava e refletia uma alegria celestial.

s ainda jovem e, contudo, j ters talvez observado como este homem ou aquela
mulher soube granjear popularidade e por meio desta, um grande influxo. Ters sempre
verificado que era homem ou mulher de carter brando e suave, pessoas que, por suas
maneiras afveis e serenas, arrebatam todos os coraes. Acerca-se a gente com
absoluta confiana de tais pessoas, e esta confiana facilita e abenoa depois a sua
atividade. Eis porque te ser da maior importncia procurar, desde a tua adolescncia,
adquirir certa jovialidade, certo bom humor. Surge agora em teu esprito esta pergunta:

2 - Como adquirir a jovialidade e o equilbrio?

Se quiseres obter e conservar esta alegria que te h de tornar feliz, preza antes de tudo 
pureza de corao, que  a raiz da verdadeira alegria. Quem possui a amizade de Deus,
tem o direito de estar alegre. Este pensamento: - nada h no meu ntimo que possa
ofender os olhos de Deus;  meu Pai que me ama como a filha querida, e deseja o meu
maior bem -  pensamento que estimula o teu corao, introduz em tua alma juvenil
uma paz celeste e lhe infunde suave confiana.

Sers mil vezes mais feliz que outras jovens escravas da paixo vil e baixa, que se
entregam amide e por longo tempo, a prazeres excessivos e participam de
divertimentos malsos. A experincia quotidiana no demonstra que tem estas o corao
dominado muito mais pela melancolia e mau humor?
Quem adquirir e conservar a alegria que faz feliz, ame, alm disso, o trabalho.

Ocupa-te, de bom grado, em coisas teis, e esfora-te, conscienciosamente, em cumprir
em toda a parte, os teus deveres. Com todo o acerto diz Grasmus: "Assim como a rosa, a
mais amada e apreciada das flores, desabrocha numa base espinhosa, assim tambm do
trabalho srio e spero procede o melhor dos frutos, isto , a satisfao interior".

L-se na Sagrada Escritura: "A vida do homem laborioso  suave, e tu achars nela um
tesouro" (Ecli., 40,18). Queres permanecer sempre alegre e satisfeita? Aprende a
desculpar, de boa vontade, as fraquezas e as folhas dos outros, principalmente se eles
parecem guardar certe preveno contra ti. Tens necessidade de tratar, muitas vezes com
os demais... pode acontecer que s vezes algum te dirijas palavras pouco amveis, que
te seja algo descorts, que te pise um pouco no p.

Se pesares cada palavrinha e a considerares atravs do vidro de microscpio, para
encontrares ali uma ofensa; se supuseres, sempre, que  com plena deliberao e m
inteno que te dizem isto ou fazem aquilo, no te libertars do enfado e do despeito:
levada por tua sensibilidade tudo interpretars mal, e na tua imaginao, que tudo pinta
com cores negras, as ninharias e bagatelas tomaro o tamanho desproporcional e grande
peso. Neste caso, esvai-se tua alegria e bom humor.

S, portanto sensata e precavida; coloca-te indiferente acima dessas bagatelas e reflete
contigo mesma: por um pequenino gro de areia no quero perder o grande bem de
minha paz interior. Esfora-te em perdoar as ninharias e dize contigo mesma: no houve
m inteno; foi apenas o efeito de um mau humor passageiro, de que talvez j se tenha
arrependido, amargamente. Dirige antes a tua ateno principalmente para a afabilidade
que te manifestam, e para o bem que te fazem.

Procede de acordo com o velho provrbio alemo: Die Beleidigungen schreibe in den
Sand, die Wohitaten dagegen an die Marmorwand und denke: Ich stehe in Gottes Hand
- "Escreve as injrias sobre a areia; os benefcios pelo contrrio sobre o mrmore, e
assim reflete: estou nas mos de Deus".

Isto contribuir sobremaneira para preservar teu corao de enfado e de molestas
disposies. Queres permanecer sempre alegre e satisfeita? Convence-te de que at
mesmo o rduo, o adverso na vida tem para ti grande significao. Devem prestar-te
poderoso concurso para o enobrecimento moral e para a formao de carter. J ters
observado como faz o artista, quando se um bloco de pedra bruta pretende tirar uma
magnfica esttua. Toma o martelo e o cinzel e golpeia desapiedado o mrmore.
Estilhaos voam em todas as direes!

Fosse  pedra sensvel e pudesse falar, que altos brados no soltaria e como se queixaria
amargamente do artista! E, no entanto, s assim  que se pode formar de uma pedra
informe uma obra de arte. Ora, o que  para a pedra o martelo, so para o homem o
sofrimento, as fadigas e as dificuldades da vida. No contribuem, acaso, para mortificar,
em ns, a leviandade e o orgulho, a frouxido e a moleza? No concorrem para gerar e
fortalecer a energia e atividade, a coragem e a magnanimidade, o interesse pelos outros
e o amor ao prximo? Sim, executam um importante trabalho em ns.
Aprende, pois, a estim-los e suport-los de maneira crist, procura tirar deles, por uma
corajosa pacincia, a utilidade que, segundo o querer de Deus, devem causar-te. Faze
isto, e vivers em paz e alegria. Converte teus sofrimentos em bnos. No permitas,
pois, que as contrariedades inevitveis da vida te arrebatem a doce e alegre disposio
da alma.

                          17 - O AMOR A VERDADE




O clebre presidente dos estados Unidos, Jorge Washington, quando contava seis anos,
recebeu de presente uma machadinha com a qual ia desbastando tudo quanto
encontrava; maltratou a tal ponto uma cerejeira inglesa, tirando-lhe a casca, que a rvore
devia fatalmente morrer. Na manh seguinte, quando o pai viu a sua querida rvore em
to lamentvel estado, tomou-se de furor e perguntou quem havia praticado aquela ao
brbara. Aparece, entretanto o pequeno Jorge com sua machadinha, e o pai intuiu
imediatamente, que este era o culpado.  vista disso, indagou srio:

- "Jorge, no sabes quem assim maltratou est rvore?" O menino deteve-se por alguns
momentos, mas em seguida respondeu com franqueza:
- "No posso mentir, papai, sabe que no posso mentir, golpeei-a com esta
machadinha".

A resposta abrandou a clera do pai que, profundamente comovido, assim lhe falou:
-"Vem a meus braos, filhinho! O dano que fizeste  rvore reparaste-o, agora, mil
vezes com a tua sincera confisso; pois, tal amor  verdade  mais precioso do que
milhares de rvores, ainda quando carregadas de frutos saborosos".

Sim, o amor  verdade  uma bela virtude que te recomendo com toda a energia, e, por
isto desejaria prevenir-te contra o feio vcio da mentira.

1 - No mintas  a mentira  abominvel a Deus.

Com efeito, Deus  Verdade, a mais pura e a mais lmpida, e absolutamente, no pode
mentir. Eis porque detesta, em ns, a mentira; esta lhe contraria a essncia e se ope ao
escopo que Ele teve em mira ao dar-nos ao dom da palavra. Esta faculdade preciosa,
certamente, no nos foi concebida, para camuflar a realidade com a aparncia e o
engano. A mentira , portanto, uma subverso da ordem divina, uma revolta contra
Deus. Satans, o primeiro que se insurgiu contra Deus, foi por isso mesmo o primeiro
mentiroso, "o pai da mentira", como denominou o Divino Salvador. Visto, opor-se a
mentira  essncia divina e  sua santa ordem, Deus a aborrece, e assim se exprime sria
e severamente na Sagrada Escritura: "Os lbios mentirosos so abominao para o
Senhor". (Prov., 12,22)

2 - No mintas  a mentira  tambm, desdouro na perspectiva humana.

Detestemos a mentira, que  contrria  natureza humana. O homem , inclinado 
verdade, repugnam-lhe a mentira e a falsidade. A criana, ainda no corrompida, diz s
o que pensa, seus olhos brilhantes so o espelho fiel de sua alma pura e franca. A
primeira que profere, revolta-se a natureza ntima da criana e manifesta-se pelo rubor
da face que denuncia a confuso. Detestemos a mentira, porque solapa o fundamento da
sociedade humana, que so a veracidade e a confiana, mtuas.

No desfaleceria toda a confiana mtua; no cessaria a certeza e segurana nas
relaes dirias a certeza e segurana nas relaes dirias, no se tornaria impossvel
uma vida digna e meritria, se o esprito da mentira dominasse e em todas as
circunstncias se fizesse valer? Que efeitos fatais no sofreriam o corpo, se os seus
membros mutuamente se induzissem ao erro? Se, por exemplo, os olhos enganassem
aos ps, levando o corpo num pntano, tidos por um prado firme? Algo semelhante
aconteceria se os membros da sociedade humana tomassem por regra a mentira e a
dissimulao. Destruir-se-ia assim o organismo social. Detestemos, finalmente, a
mentira, porque nela se encerra covardia. Admiremos a coragem e a firmeza;
desprezemos, porm, a pusilanimidade e a perfdia. Na conscienciosa afirmao diria
da verdade, existe muitas vezes, mais coragem e intrepidez, do que no desprezo da
morte, que s raro se d e por causalidade.

Diz, com a razo, o conhecido educador, Forster:

"Penso que a veracidade  sempre a melhor prova de valor, e, portanto, qualquer
homem, embora jamais tenha visto um fuzil, encontra diariamente, ocasio de exercitar
a coragem, por meio da afirmao sincera e corajosa da verdade, nas coisas mais
insignificantes. , de fato, muito mais fcil, impelido pelo entusiasmo, sacrificar uma
vez  prpria vida, do que permanecer constantemente invarivel, quando surge a
tentao de fugir a uma cena desagradvel ou  desonra ou ao castigo. Cedo se v se
algum , realmente forte contra o medo e o pavor; ou se  um salteador, que se oculta
quando prev o momento do ataque". Sim, grande coragem manifesta-se no constante
amor  verdade, ao passo que, com a mentira, patenteia-se uma lamentvel covardia 
portanto, detestemo-la.

3- No mintas  a mentira corrompe o carter.

Certo que uma nica mentira no ser agravo ao carter, mas mentiras freqentes, que
procedem de uma natureza falsa, tornam de todo impossvel, a formao de um bom
carter. Trs so as propriedades que constituem o ornato de um carter nobre, a saber:
firmeza, doura, desinteresse ou desapego de si mesmo. Como pode, porm, formar-se a
firmeza de um carter, se, em qualquer ocorrncia e por motivo ftil se deixa o homem
subornar, para se desviar da verdade, iludir a outrem, e lev-lo ao erro? Da resultar,
com o tempo, uma vacilao insegura.

Ademais, como pode o mentiroso manifestar a seus semelhantes amvel doura,
quando, em geral o verdadeiro amor lhe  impossvel, por no possuir nenhuma elevada
estima dos demais? Com efeito, se estimo e venero algum, procuro captar-lhe
confiana, e no engan-lo ou induzi-lo ao erro. Do desinteresse, porm, que  a mais
nobre qualidade de um bom carter, nem se pode falar, em se tratando de um mentiroso.

 Na verdade, como pode um homem mostrar-se to altrusta que se esquea de si prprio
e de bom grado, generosamente sacrifique-se pelos outros se para lograr pequena
vantagem ou desviar um pequeno embarao, deliberadamente, profere a mentira? Tal
coisa  de todo inconcebvel. Assim, quem tem o vcio da mentira, pouco a pouco,
corrompe o carter e por vezes o arruna. Onde prevalece o esprito de mentira e a
confuso, no se podem educar nem formar caracteres firmes e grandes.

4- No mintas  a mentira  aliada de muitos outros pecados.

A mentira, por si s, no constitui pecado grave, a no ser quando causa grandes
prejuzos ao prximo. No entanto embora no seja, em si, gravemente pecaminosa,
todavia muitas vezes contribui, para outros pecados, favorece e facilita o hbito de
pecar. Para demonstr-lo, basta apelas para a experincia de cada dia.

No se serve o orgulhoso da mentira, quando falsamente se ufana de suas prerrogativas
e de suas aes, enquanto, por outro lado oculta seus vcios e fraquezas? Os pecados
contra a caridade e os pecados da vingana, no exageram e aumentam malignamente as
faltas das pessoas odiadas, atribuindo-lhes muitas vezes faltas que no cometeram, ou
defeitos que no possuem? A infmia e a injustia no crescem junto com a mentira, de
tal modo, que se possa dizer  guiza de provrbio: Wer liegt, der stiehlt  "quem mente
rouba?" No  coisa mui sabida que o pecado de impureza, mais do que qualquer outro,
torna o homem mentiroso? As jovens que se entregam a este pecado, j no encaram os
pais, com olhar franco e lmpido, tm alguma coisa que lhes encobrem e os enganam de
caso pensado.

Em resumo: No podem muitos pecados medrar ou ter longa durao, se os no
favorecer a mentira. O pecado teme a verdade. A virtude da lealdade  como um sol
interno, cujos raios brilhantes afugentam as trevas do vcio e das paixes. Ama,
portanto, a verdade e foge da mentira. Prefere suportar um pequeno dissabor, uma
repreenso, uma correo, a te libertares de uma dificuldade a custa da mentira.

Sobretudo, nunca profiras, deliberadamente, mentira alguma, nem mesmo por
brincadeira; porque se facilmente, por gracejo, mentires, depois o fars seriamente. No
sejas do nmero dos que gostam de caoar dos outros e se divertem em contar
patranhas. Isto no  nobre nem digno. Tem a todos em estima, embora sejam muito
insignificantes as suas qualidades. No te aproveites da fraqueza alheia para criv-los de
sarcasmos e zombarias. Tal proceder a quantos no acovardou por toda a vida!

s vezes pode haver casos em que no convm que se diga toda a verdade,
principalmente aos que no tm direito de conhec-la e levados por curiosidade andam a
cata de notcias. Em tais circunstncias,  lcito usar de subterfgios que simplesmente
contornam a verdade. A virtude da veracidade no pode separar-se da prudncia crist.
O eu professor, na minha mocidade, fazia-nos escrever amide, esta sentena: Alles,
was tu sagst, muss warh scin, aber nicht ales, was wahr ist, darfst Du sagen  "Tudo o
que disseres, deve ser verdade, mas nem tudo o que for verdade, deves dizer". Contm
esta mxima uma grande sabedoria, que deves seguir sempre.

Acostuma-te tambm, a manter sempre, a palavra dada. H jovens que prometem
facilmente e, at, sob palavra, mas depois, no fazem nenhum caso do seu
compromisso. Merece isto decidida repulsa. Ohne Falsch und Trug  "Sem falsidade,
nem embuste". Seja esta a tua divisa.



                               18 - A GRATIDO




Certa dama norte-americana sentiu-se um dia profundamente humilhada, por haver
omitido um agradecimento. Desejava fazer uma viagem de trem e ao subir no vago,
notou que todos os lugares j estavam ocupados. Um senhor de idade para se mostrar
gentil para com ela, cedeu-lhe o lugar. Na estao ela desceu do trem e quando j estava
a certa distncia, um viajante gritou-lhe do vago: "Senhora, esqueceu-se de alguma
coisa". Aproximou-se rpida, indagando de que coisa se havia esquecido. Informou o
viajante: "Esqueceu-se de agradecer quele senhor que lhe cedeu o lugar".

Foi grande, em verdade, o vexame, mas muito merecido, no dizer sequer uma palavra
de agradecimento a um senhor idoso que se houvera com tanta delicadeza e ateno
para com uma pessoa estranha; foi, por certa falta de polidez, merecedora daquela
correo.
Se cuidares de agradecer todo o bem que te fizerem, tanto Deus como os homens se
alegraro com teu proceder; se, porm fores ingrata, sers desprezada e ningum
desejar ter relaes contigo. Desejo, pois, incutir, em teu corao a virtude da gratido.

1 - O sentimento de gratido  de todo conforme a nossa natureza.

Diz o grande telogo, Santo Toms de Aquino: "Todo efeito segue a natureza da causa
que o produz, e de maneira proporcionada  mesma coisa". Ora, o benfeitor  causa do
benefcio que produz. Portanto, deve o beneficiado voltar ao benfeitor, e voltar com a
inteligncia que reconhece e com a vontade que avalia o beneficio.

Exprimir por meio da inteligncia e da vontade o prprio reconhecimento,  praticar um
ato adequado  natureza humana. Corresponde a gratido no somente  natureza
humana, seno tambm s criaturas irracionais, ao mundo animal.  o que indica a
comovente queixa de Deus, no profeta Isaas: "Ouvi, cus, e tu,  terra, escuta, porque o
Senhor  quem falou: Criei filhos e engrandeci-os, porm, eles me desprezaram.
Conhece o boi o seu possuidor e o jumento o prespio do seu dono; mas Israel no me
conheceu, e o meu povo no teve inteligncia!" (Is. 1,2-3).

At os prprios animais no so indiferentes  gratido. Certa vez, em Roma um
escravo desertor, chamado Androcio, fora lanado no anfiteatro a um leo, e a fera se
ps a acariciar o escravo. Maravilharam-se os espectadores. A admirao, porm,
chegou ao auge quando souberam que o escravo, por espao de trs anos, tinha
permanecido no deserto da frica e l havia curado a pata deste mesmo leo. Foi o
escravo imediatamente indultado. Ora, se os irracionais, como o leo feroz, se mostram
assim agradecidos, no ser profundamente vergonhoso para o homem, criado 
imagem e semelhana de Deus, no testemunhar nenhum amor e gratido a seu
benfeitor?

2- A gratido  sinal de um corao nobre.

Quem no conhece a gratido, manifesta-se intimamente estlido acerca do bem que lhe
fazem; no possui nenhum sentimento nobre e delicado.

O egosmo faz que se desenvolva cada vez mais no seu interior a grosseria; torna-se
vulgar e mesquinho. Coisa muito diferente sucede ao homem agradecido. Possui um
corao nobre. De sentimentos delicados, mostra-se reconhecido a cada benefcio que
recebe, a cada favor que lhe fazem.  para ele um prazer e uma necessidade declarar-se,
novamente grato, em qualquer ocasio, quando no com ddivas e presentes, ao menos
com sinceridade e alegria. Da provm a suposio de que o homem agradecido  quase
sempre um homem contente e satisfeito. Ocorre-lhe amide, a grata lembrana desta ou
daquela ateno e amabilidade, que lhe demonstraram, embora pequena e insignificante.

Sim, a gratido no olvida os pequenos benefcios, nem os mais nfimos. No  isto,
prova de um corao bom e nobre? Assim disposto, no se desenvolvem nele a
maravilhosa ao de graa? Ao passo que a ingratido convoca, por assim dizer, ao
redor de si todos os maus espritos e lhes franqueia a porta do corao.

Visto ser a gratido prpria de um corao nobre, os santos foram tambm os homens
mais agradecidos. Como se distinguir nesta virtude o grande Rei Davi! Aps a morte de
Jnatas, de quem recebera tantos benefcios, mandou que trouxessem  sua presena o
filho dele, que era coxo, e lhe restituiu todos os campos de Saul (II Reis, 9). Quando
Davi se empenhou em guerra contra seu filho ingrato, faltaram-lhe todos os meios de
subsistncia. Um velho rico trouxe-lhe ento o necessrio. Para recompens-lo quis
Davi, conduzi-lo  Jerusalm no seu palcio real, para que ele transcorresse ali a
velhice. Como o velho recusasse, em virtude da sua avanada idade, tomou-lhe Davi
consigo o filho e cumulou-o de todos os benefcios. Ainda, antes de morrer, pediu a
Salomo que no esquecesse o filho daquele velho e que fizesse comer  mesa.

3 - A gratido  tambm uma virtude que se pode, facilmente, exercitar.

Sem dvida, h casos em que a prtica de certas virtudes oferece dificuldades. Por
exemplo, um adversrio ou inimigo, que de muitos modos, te embaraa e procura
contrariar e frustrar as tuas intenes e os teus planos, que no desiste de te ofender, s
vezes gravemente; como no ser difcil, neste caso praticar essa virtude crist do amor
ao prximo! Quo difcil te no ser em tais circunstncias observar a palavra do Divino
Salvador: "Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, e orai por aqueles
que vos perseguem e caluniam" (Mt., 5,44).

E no ser tambm, muitas vezes difcil e rduo para uma moa, o conservar a pureza
do corao? Quando, no seu interior, se levantam violentas e obstinadas tentaes, e
talvez externamente se lhe deparam perigos sedutores, no ter ento necessidade de
combater, seriamente, e estar, sobretudo, atenta e precavida, para no sofrer nenhum
dano? D-se o contrrio, com a gratido. Para exercit-la no precisa empenhar-te em
grandes e difceis combates, no tens necessidade de afastar perigos externos, basta que
sigas o pendor inato e nobre do teu corao. Basta apenas que s pessoas que se
mostram benvolos para contigo, tenhas uma palavra de agradecimento, uma
reconhecida apreciao do benefcio e que lhes faas uma ou outra vez algum pequeno
favor.

No  isto extremamente fcil, no  isto um alvio para o teu prprio corao? E
embora a gratido pelos benefcios recebidos exigisse um sacrifcio ainda maior ou a
retribuio de maior favor, este sacrifcio ser feito com certo entusiasmo e infundir,
no corao, to grande alegria, que dificilmente se poder sentir o seu peso, ou
incmodo. No h com efeito, nenhuma virtude to fcil de se praticar, como a gratido:
eis porque merece tanto maior censura quem se mostra ingrato.

4 - A gratido  uma virtude que nos granjeia a benevolncia dos outros e os torna
propensos a conceder-nos novos benefcios.

Diz So Joo Damasceno: "Assim como um pequeno remdio muitas vezes nos livra de
uma doena grave, assim tambm o sincero agradecimento pelos pequenos benefcios,
alcana-nos amide grandes favores". Ningum gosta de tratar com o ingrato, por que
geralmente,  mesquinho, egosta e enfadonho. Ningum gosta de lhes fazer benefcios,
porque no deseja ver os seus dons tratados com indiferena e desprezo. Com a pessoa
educada, acostumada a agradecer os favores, todos gostam de tratar, em razo da sua
bondade interna e nobreza de sentimentos: de cada benefcio recebido e de cada favor
que lhe concedem, faz com que um suave lao que o liga ao seu benfeitor. Enquanto a
ingratido favorece o egosmo, a gratido torna o amor ao prximo mais intenso e
cordial, conquista renovada benevolncia dos nossos semelhantes.
S, portanto, agradecida sempre. Antes de tudo e em primeiro lugar, a teu Deus e
Senhor que , sem dvida, o teu maior Benfeitor. Com o Rei Salmista, podes tambm tu
dizer: "Que dareis em retribuio ao Senhor, por todos os benefcios que me tem feito?"
(Sl. 115,3). Adquire o santo costume de agradecer a Deus todas as noites, em breves
palavras, todos os favores que te fez. E cada vez que te conceder um benefcio especial
ou te distinguir com uma felicidade particular, no deixes de Lhe agradecer, ainda do
ntimo da alma e de todo o corao.

S, depois, agradecida a teus queridos pais que, desde os primeiros momentos da tua
existncia te consagraram o seu maior amor e cuidado. Com muita razo diz So
Loureno Justiniano: "Enquanto vivermos sobre a terra, seremos sempre devedores a
nossos pais. No poderemos jamais saldar a grande dvida que com eles contramos".
Pelo menos, em parte, havemos de procurar faz-lo do melhor modo possvel. Por
gratido proporciona a teus pais, com teu bom proceder, grande alegria; por tua
aplicao e vida virtuosa, esfora-te para seres as delcias, o orgulho deles.

Quo triste e lamentvel, uma filha adulta no causar seno aflies aos seus maiores
benfeitores terrenos, os pais, e amargurar-lhes a existncia! Deus no h de olhar, com
desprezo, para tais filhas e subtrair-lhes as suas graas?

Procura, sobretudo, quanto for possvel confortar a velhice de teus pais; impe-te
mesmo de bom grado, se preciso, algum sacrifcio, para que nada lhes falte. E se
perdurar, no agaste; prefere abster-te do necessrio a deixar que teus pais sofram
privaes. Se morrerem, conserva grata recordao deles, cumpre-lhes fielmente as
ltimas vontades, pede a Deus pelo seu descanso eterno e mantm-lhes o tmulo com
honra e venerao. S, constantemente, filha agradecida a teu pai e tua me. Por ltimo,
s tambm grata a quantos se mostram bem dispostos para contigo e te fazem
benefcios. Tem sempre nos lbios uma palavra de agradecimento a quem te faz um
favor; palavra que h de brotar de um corao realmente agradecido, e no por simples
formalidade e mera cortesia.

Movida pelo sentimento de gratido deves, alm disto, estar pronta para de bom grado
retribuir favores, e contente por proporcionar a outrem algum prazer. No entanto, em
qualquer ato de gratido para com quem te fez benefcios, guarda-te, sempre, de te
mostrares fraca e vacilante nos princpios fundamentais da religio. bvio seria este
perigo, quando um benfeitor muito famoso e influente fizesse grandes benefcios, mas
animado por princpios que contrariam o esprito de Jesus Cristo ou o senso cristo.
Muitos se expuseram a tal perigo, e com o tempo por deferncia a um benfeitor
poderoso, se tornaram pusilnimes e sem carter. Que gratido  esta que desgosta a
Deus e te conduz  perdio?

S, portanto, grata; grata de corao. Sempre e em toda a parte saibas ser agradecida.
No sejas, porm, servil; guarda, mesmo com pessoa altamente colocada, a tua
inflexibilidade e conserva-te sempre firme em teus princpios cristos.
                      19 - CARTER FIRME E NOBRE

Carter  um modo de pensar e agir adquirido por decidida determinao da vontade,
que domina as faculdades da alma e lhe imprime um constante equilbrio moral. Ser
um louvor para ti a afirmao de que possuis um carter firme e positivo; pelo contrrio,
ser uma afronta, o afirmar que no tens carter. Somente quem possui carter firme e
nobre merece a nossa confiana em qualquer circunstncia. Quem confia num homem
sem carter, se ver de ordinrio amargamente enganado. Viver ao lado de pessoas de
carter nobre  sobremodo agradvel e benfico; essas pessoas nos comunicam coragem
para o bem e confiana no futuro. Ao invs, o tratar com pessoas de mau carter torna-
nos a vida difcil; sentimo-nos como que apertados num crcere e atormentados pelo
desassossego e aborrecimento. Pelos benefcios que influi do bom carter, podes
deduzir quo importante seja que desde a meninice trabalhes na formao e
enobrecimento do teu carter.

Quo so, pois as qualidades do carter para que se possa denomin-los bom?




                             1 - Firmeza e inflexibilidade

No sejas como o canio ou o salgueiro, que se curva profundamente, ao sabor do
vento. S como o robusto e vigoroso carvalho, que ergue livre e corajoso a sua fronde
para o alto, em direo ao cu. Forte e inabalvel! Tempestades e tormentas sacodem-no
sem cessar, esbravejam em torno daquela soberba copa, agitando-lhe os galhos e a
folhagem, e no obstante, mantm-se o tronco rijo, tranqilo e imvel, como nos dias
calmos e lindos da primavera. No h quem o vergue nem arranque nas tempestades;
embora os esguios pinheiros e outras rvores, que o circundam, venham abaixo com
estrondo, o carvalho persiste ereto e desafia qualquer embate dos vendavais.

Semelhante ao carvalho conserva-te tambm inflexvel, permanece forte e firme em teus
bons princpios, inabalavelmente fiel, tanto no prspero como no adverso, nas afrontas e
perseguies, nas tempestades e tormentas, nos perigos e tentaes.

 o Cristianismo rico em pessoas desta natureza. Lembra-te dos santos mrtires dos
primeiros sculos da Igreja. No permitiam que nada lhes abalasse ou quebrantasse a
convico; nem o suplcio da tortura, nem as chamas das fogueiras, nem a fria dos
animais ferozes. Se quiseres adquirir tamanha firmeza de carter, cumpre que te
habitues, desde a juventude, a no seguir, em teu proceder a vontade dos homens
caprichosos, e sim o desejo de Deus eterno e imutvel, que te julgar depois da morte.
Esta h de ser sua divisa: "Deve-se antes obedecer a Deus que os homens" (Atos, 5 29)

Adquirirs esta firmeza e independncia interior, se te exercitares desde cedo no
domnio de ti prpria. Para o conseguires, recusa-te, por vezes, alguma coisa que te seria
lcito. Ainda que seja isto uma ninharia, a abnegao dessas pequenas coisas dar pouco
 tua vontade a firmeza do ao. Guarda-te, sobretudo da insensata inconstncia, que
perde inteiramente o objetivo da ao e por isto gira, ora para c, ora para c, ora para
l, sem nenhum alvo determinado. Procura finalmente fortificar a tua vontade fraca e
inconstante por meio da orao metdica e da assdua recepo dos santos Sacramentos.
A graa de Deus favorecer o teu sincero esforo e verificars dentro em breve que o
teu carter adquiriu fora e constncia.




                             2- Amabilidade e brandura

Se o carter possuir apenas inflexibilidade e firmeza, degenera em capricho e rigidez, e
tornar-se- desagradvel e repulsivo.  firmeza cumpre aliar a brandura e mansido.

S firme e inflexvel no tocante aos princpios essenciais, e inabalavelmente fiel ao
cumprimento consciencioso dos deveres; contudo, evita toda aspereza no trato com teus
semelhantes e mostra-te afvel e branda com todos. O carvalho, no obstante sua
rigidez,  uma rvore acolhedora e amiga. Seus galhos no tm espinhos que nos ferem
a mo, fazendo-a sangrar. As glandes que produz so pequenas e delicadas, de maneira
que nenhum mal fazem quando caem. Estende os seus ramos verdes ao longe, e acena
com eles ao viajante fatigado para que venha descansar  sua sombra fresca; protege
contra os raios ardentes do sol, e tambm contra as tempestades e borrascas.

Assim deve ser a jovem virtuosa: firme nos princpios, tenaz e enrgica nas atitudes,
avessa  insensibilidade e grosseira; compassiva e amvel; indulgente e atenciosa; e
assim, sua vida esparzir felicidade, alegria, prosperidade e bnos. Se quiseres
adquirir esta doura de carter, impe-te seriamente o esforo de combater, com
energia, a tua natureza arrebatada e a tua propenso para a clera. Habitua-se a falar e
tratar com todos pacificamente e com brandura. O Divino Salvador elogia a mansido,
dizendo: "Bem-aventurados os mansos, porque eles possuiro a terra". (Mt., 5,4). Se
algum te desgostou e ofendeu, perdoa-lhe e no guardes ressentimento; sobretudo, no
te mostres agastadia e caprichosa; pois o capricho  a energia da estupidez. No te
obstines na tua opinio, nem tomes facilmente resoluo irrevogvel em coisas
secundrias, se no estiveres seguramente convencida diante de Deus, de que isso em
quaisquer circunstncias constitui um dever imutvel. Nas pequenas contrariedades e
dissabores, no te exaltes intimamente, nem profiras palavras de enfado; domina-te,
corajosamente e no permitas que se altere o teu humor. Se aprenderes desde cedo a
aliar doura e indulgncia,  firmeza e energia, evitars, muitos contratempos e
situaes dolorosas; todos gostaro de tratar contigo, e facilmente exercers influxo
abenoado sobre os demais, principalmente se ajuntares s duas referidas qualidades
tambm o altrusmo, que ser a coroa da beleza do teu carter.




                             3- Altrusmo e desinteresse

Quanto  feio e detestvel o egosmo! J tiveste ocasio de observar como procede
quem ambiciosa alguma coisa? Torna-se completamente possudo pelo objeto da sua
cobia e no atenta a outra coisa. Tudo o mais deixa-o numa completa indiferena;
despreza at as coisas mais importantes, torna-se desleixado em relao aos deveres e
at inconsiderado nas relaes sociais, pois o objeto de sua cobia absorve-o
completamente.  exatamente o que sucede com a jovem egosta. S pensa em si,
naquilo que se relaciona consigo, que lhe interessa. Considera s a si mesma e tudo o
mais  circunstncias, coisas e pessoas  v to somente atravs do prisma do seu
egocentrismo. O seu maior gosto  ouvir falar de si mesma, principalmente se possui
voz agradvel e sabe discorrer com facilidade e desembarao; sua opinio pessoal, que
sempre manifesta com prazer, afigura-se-lhe naturalmente a melhor. No fala seno de
si, dos seus trabalhos e realizaes, dos seus planos e esperanas, das suas relaes e
perspectivas. Volta-se, apenas, para os seus desgostos e sofrimentos e no tem a mnima
considerao para com as dificuldades e dores alheias.

Como  feio e desagradvel a atitude de uma jovem egosta! Jovem, diante destas
consideraes, pondera os efeitos perniciosos do egosmo e procura corrigir-te desta
paixo. Guarda-te, portanto, do amor prprio desordenado; aprende a pensar no teu
prximo, a consider-lo, servi-lo e proporcionar-lhe alguma alegria, mesmo  custa de
sacrifcios.  o que de modo to perfeito te ajusta ao esprito cristo e enobrece teu
carter mais do que qualquer outra coisa, granjeando em alto grau a estima e o respeito
dos teus concidados. Que louvores no  digna a jovem que se sujeita a muitas
privaes, a fim de proporcionar alegria a seus pais ou prestar-lhes auxlio nas
dificuldades financeiras. Com que reverncia se dever olhar para uma moa que, em
muitas relaes se restringe, talvez at imponha grandes sacrifcios para cuidar da
educao e futuro de seus irmozinhos!

So estas, pois, as trs qualidades que ornam e embeleza o carter: firmeza, doura e
altrusmo. Esfora-te, jovem, para adquiri-las; no ser um ms, nem talvez num ano,
que chegars a conquist-las perfeitamente. Isso te custar longos anos de esforos e
combates. Pode acontecer que, apesar da tua boa vontade, caias em pequenas ou grandes
faltas. No percas, todavia, a coragem; trabalha sempre com mais valor em teu
aperfeioamento, e convence-te do que os teus esforos e lutas lograro por fim o
merecido triunfo. Com o passar dos anos plasmars o teu carter irradiando do teu
esprito brilho mais belo e mais intenso do que o ouro mais fino.


                               20 - OBEDINCIA




No podem desenvolver-se boas qualidades morais uma moa, que perde seu tempo
com vaidades fteis multiplicando consultas ao espelho. H, todavia um espelho, no
qual as moas deveriam contemplar-se sem perigo de descambar em devaneios fteis,
antes, encontrando na imagem refletida o ideal da virtude.  o sublime espelho de
virtudes do Divino Salvador, de quem est escrito: "E foi com eles (os pais) para Nazar
e era-lhes submisso" (Lucas 2,51). Eis aqui um bom espelho, um elevado modelo para
ti. Ensina-te a obedincia. Se isto aprenderes profundamente, grande vantagem ters
logrado para a tua vida futura; poder-se- dizer que ficars livre de noventa por cento
das penas e aflies a que esto sujeitas as filhas de Eva.

1- A obedincia tem uma grande significao.

Significao universal e geral: No pode o universo fsico perdurar sem a obedincia:
estabelecer-se-ia uma confuso brutal e devastao monstruosa; no desapareceria a
harmonia maravilhosa se os astros no observassem as leis e no seguissem com
preciso rbita que lhes traou o Criador? No pode o mundo domstico subsistir sem a
obedincia. De fato, que ser de uma famlia, se a mulher no obedece ao marido, se os
filhos no obedecem aos pais, se os criados no obedecem aos patres?! Isto causar,
sem dvida, um desajuste, uma completa desorganizao da famlia. O mundo poltico e
social tampouco pode subsistir sem a obedincia. No dia em que os cidados recusarem
obedincia aos seus superiores e os funcionrios aos seus chefes, estalar a revoluo e
tudo entrar em confuso e desordem.

Finalmente, no pode o mundo eclesistico existir sem obedincia. Todas as obras
propcias da Igreja desaparecero, se os fiis seguirem cada qual o seu caminho e no
quiserem mais atender  voz do seu pastor espiritual. Disto decorre que toda salvao e
prosperidade da ordem fsica, moral, social e religiosa repousam sobre a obedincia;
sem esta no pode subsistir nenhuma sociedade. Mas a obedincia tem tambm, e,
sobretudo, grande significao para ti mesma, jovem crist. Ela te proporciona primeiro
a exata compreenso da vida e dos deveres. De ordinrio, que sabe a jovem a respeito da
vida e das suas obrigaes? Que sabe das emboscadas do mundo perverso, dos perigos
que lhe ameaam a inocncia? Que sabe das enganadoras falsidades dos elogios e da
ignomnia do vcio?

Transcorre, por assim dizer, de olhos fechados, os anos da sua mocidade e dificilmente
percebe as pedras que lhe embaraam o caminho, e os profundos abismos que se
alongam  margem. Mister se faz ter um guia sbio que ela transponha, com felicidade,
os perigos! No ser a obedincia e a confiana nos pais e superiores que lhe facilitar a
verdadeira compreenso e a proteger eficazmente contra os numerosos perigos?

A obedincia, alm disso, educa e robustece a tua vontade. A hera  uma planta
delicada; incapaz de manter-se ereta; se lhe falta apoio, cair por terra. Quando se
arrima, porm, ao vigoroso carvalho, participa da agigantada fora deste e com ele
desafia as mais violentas tempestades. D-se tambm o mesmo com a jovem, cuja
vontade  ainda fraca e inexperiente. Quando pretende apoiar-se em si mesma, ento se
quebrar como frgil canio; mas, se ela se arrima sobre a obedincia aos pais ou aos
superiores participar da robusta vontade da fora que eles adquiriram no combate da
vida. Os pais ou superiores sero para ela como o mdico fortalecendo-lhe a fraqueza
por meio de um medicamento eficiente, e que, lanaro mo de todos os meios para
despertar-lhe as foras adormecidas, como a guia perita que instrui os filhotes para
vos arrojados. Assim, pouco a pouco se robustece  vontade no bem e torna-se apta
para resistir  atrao do pecado e  tempestade das paixes.

A obedincia te ajudar a quebrar o capricho. O inimigo que com maior obstinao
arma ciladas ao homem, que mais o excita ao pecado e lhe enche o corao de
descontentamento e desgostos,  o capricho. Ora, a obedincia combate-o do modo mais
eficiente. Persegue-o por toda parte, no lhe d trguas, enquanto no consegue
subjug-lo.

Diz Hamon, com acerto: "A obedincia corrige muito bem o desregramento do
capricho. Este  falso e enganador; tudo considera sob o prisma da paixo e do
interesse, que ofuscam a viso.  inconstante e leviano: o que hoje deseja, amanh
desprezar;  irresoluto e indeciso: no sabe que posio tomar;  extravagante, age sem
motivo razovel e sensato;  obstinado, no quer ceder; a cada contradio mais teimoso
se torna;  imperioso e arrogante e no quer concordar com ningum, mas dominar a
todos;  rude e precipitado, torna-se impaciente, queixa-se e se enfurece, quando se lhe
no satisfaz imediatamente  vontade".

Ora, a obedincia remedia todas estas faltas. Ao alucinado ela fornece o verdadeiro
conhecimento; firmeza, ao indeciso; determinao ao irresoluto; abate o arrogante;
acalma o violento; faz retroceder o perverso ou leva-o ao melhor caminho.

O obediente lana por terra o inimigo capital, o porta-bandeira e triunfa em toda a linha.
"O homem obediente cantar vitrias". (Prov., 21,28).
A obedincia  uma fonte de alegrias e felicidade. Se fores obediente, sabers pr-te de
acordo com Deus e teus superiores. Ainda que estes ltimos ordenem alguma coisa, que
no corresponda em tudo  prudncia e, portanto, no seja inteiramente justa, ao se
perturbar por isso a tua paz interior. Enquanto a coisa ordenada no estiver em
manifesto desacordo com a vontade de Deus, tens o dever de obedecer. Nada ters que
temer quanto ao presente, porque fazes o que Deus quer; nada, em relao ao futuro,
porque no s responsvel pelas conseqncias, e at, pelo ato de obedincia ganhars
merecimento. Em qualquer hiptese, portanto, poders ficar tranqila e satisfeita, e esta
alegre disposio contribuir de modo favorvel, para o teu trabalho e adiantamento.
Assim, pois, a obedincia te proporcionar extraordinrias vantagens. Surge agora esta
pergunta.

2 - Como dever ser a obedincia, para atingir a perfeio?

H de ser, antes de tudo, sobrenatural; deves como Cristo, exercitar a tua obedincia por
um movimento sobrenatural; obedecers por amor de Deus. Cumpre que no obedeas
com o fim de granjear a benevolncia dos teus superiores, ou por te proporcionar outras
vantagens; mas simplesmente para satisfazer a vontade de Deus:  por amor de Deus
que devers ser obediente. Esta obedincia sobrenatural  de grande valia aos olhos de
Deus, e alcana-te grande benemerncia. Se a possures, no te deixars jamais induzir a
executar uma ordem que se oponha os mandamentos de Deus. Obrars, ento, sempre
de acordo com aquela palavra:

" preciso antes obedecer a Deus que aos homens". (Atos 5,29)

Em segundo lugar, h de ser alegre e pronta. A alegria aumenta o mrito da obedincia,
torna-a mais suave e mais agradvel a Deus e aos homens. A isto se aplica tambm as
palavras do grande Apstolo: "Deus ama a quem d com alegria". (II Cor., 9,7) Um
presente, que nos fazem de m vontade e com rabugem, causa-nos pouco prazer. Assim
tambm, no agrada um ato de obedincia, que se pratica de m catadura. Obedece,
pois, sempre de corao e com prazer; no sejas como a criana mal habituada, que s
atende  vontade e a ordem dos pais quando estes lhe acenam com uma remunerao,
um prazer ou algum presente. J no  isto obedincia, e sim desprezvel satisfao do
tresloucado amor prprio.

A obedincia servil ope-se ao esprito cristo. Obedece sempre com nimo alegre e
sereno, de modo que se possa reconhecer que, no constrangida, antes por amor de
Deus, presta obedincia. Nem tampouco obedeas de mau humor, como um escravo;
que s por violncia e temor do castigo, executa, externamente, a ordem do senhor, mas
no seu ntimo murmura e enfada-se, e, percebendo que no  vigiado, tudo despreza e
faz apenas o que bem lhe apraz. Obedece, tambm, com singeleza e pontualidade, ainda
quando longe das vistas de teus pais e superiores: no sejas bajuladora.

Se for alegre tua obedincia, ser conseqentemente pronta. Sim, obedece  primeira
palavra, at ao mais leve aceno. Quando te ordenarem alguma coisa, reflete:  vontade
de Deus que eu obedea,  como se Deus me chamasse; mas, quando Deus chama, no
se deve contemporizar.

Tua obedincia h de ser, em terceiro lugar, geral. Presta obedincia em todas as coisas
que no sejam pecaminosas, mesmo naquelas que no se adaptam ao teu temperamento,
ou que te parecem difceis e rduas. J jovens que obedecem pontualmente, quando lhe
ordenam algo de que gostam, porque sentem por aquilo certa predileo; mostram-s,
porm contrariadas e s obedecem murmurando, ou desobedecem, quando se lhes
ordena o eu lhes no convm, ou no condiz com o seu temperamento. Cumprir
alegremente ordens agradveis no  coisa extraordinria, no denota grande virtude:
at o pago pode faz-lo. Pelo contrrio, nos encargos e ordens desagradveis, combater
com valor a repugnncia interna e obedecer com diligncia  coisa perfeita, sinal de
verdadeira virtude.

Seja, enfim, tua obedincia constante e duradoura. H jovens que obedecem conforme o
seu capricho. Quando alegres e bem dispostas, no opem a menor dificuldade em
matria de obedincia; se, porm, no seu interior no reinar bom tempo, se estiverem
agastadas e melanclicas, no permitem uma s palavra contra o seu capricho; fazem,
pelo contrrio o que bem entendem. Outras h que, at aos quinze ou dezesseis anos,
ainda aceitam alguma observao, mas, depois querem ter plena autonomia. E, no
entanto,  justamente nestes anos que comea aquela quadra da vida em que a direo se
lhes torna, sobremodo, salutar e necessria; fase, em que abandonadas a si mesmas,
podero cometer os mais graves deslizes e ser vtimas funestos enganos.

O barquinho da vida de muitas jovens precisamente nesta fase  destroado, por
desgraa, em speros rochedos. Por isso, no tempo da tua mocidade, enquanto estiveres
sob o domnio de teus pais ou de outros superiores, mostra-te sempre obediente e aceita
de bom grado os conselhos que te derem. Nesta fase da vida uma boa orientao te seria
benfica. Ofereceu-te o Divino Salvador um magnfico exemplo. Foi obediente no at
aos quinze ou dezesseis anos, mas durante a sua mocidade toda, at o comeo do seu
ministrio pblico. A todos estes anos se aplica o texto de So Lucas: "Foi com eles a
Nazar, e era-lhes submisso". (Lc., 2,51). Segue este modelo divino e atrairs sobre ti a
prosperidade e as bnos de Deus.


                          21 - BOM USO DA LNGUA




Parece ter querido o Criador proteger a lngua de modo especial. Com efeito, est
melhor defendida que qualquer outro membro, por exemplo, os olhos e os ouvidos.
Resguardam-na os lbios e os dentes, que,  guisa de muralhas a circundam e
conservam. No parece isto advertir-nos, que tambm, ns devemos dar ateno e
vigilncia toda especial a nossa lngua? Sim, jovem crist,  de grande importncia, que
te acostumes desde a tua mocidade ao domnio da lngua.

1- A lngua no dominada facilmente causa grande mal.

O bom uso da lngua pode transform-la em instrumento de graas. No ano de 1263
retirou-se o corpo de Santo Antnio de Pdua do sepulcro, a fim de o transportar para a
nova igreja, edificada em sua honra. Ao se abrir o sarcfago, os membros caram aos
pedaos, a carne j se havia transformado em p e cinza. Mas, o queixo, os cabelos e os
dentes estavam ainda conservados, e sobretudo a lngua de todo incorrupta e com a sua
cor natural. O Santo Cardeal Boaventura, que de Roma fora a Pdua por ocasio dessa
festividade, tomou em suas mos com grande respeito esse lngua, beijou-a e disse
entusiasmado: " lngua, que em todo o tempo louvaste ao Senhor e ensinaste os
demais a louv-Lo, agora se torna a todos manifesto, quanto s apreciada de Deus".

Tinha razo So Boaventura de exaltar a lngua de Santo Antnio, pois ela havia sido
um excelente instrumento da graa, por meio da qual inmeras almas foram
conquistadas para o cu.

- Sim, a lngua pode fazer muito bem. Aqui dirige a um pobre desconfortado algumas
palavras de estmulo, e um suave conforto desce ao corao do msero e o leva a
suportar o peso da vida com nimo forte. A, a lngua de um orador fala a milhares de
ouvintes e os arrebata. Suas palavras so como centelhas que incendeia os coraes.
Fala, e eles choram; fala e os revoluciona internamente; fala, e eles se enchem de
esperana e jbilo. Por meio da palavra, eles os mantm inteiramente em seu poder. A
lngua de um pregador virtuoso, como a de um Bertoldo de Regensburgo, conseguiu por
vezes infundir um esprito novo numa povoao inteira.

Mas, a lngua que tanto bem pode fazer, acha-se tambm em condies de causar grande
mal. O apstolo So Tiago escreve: "A lngua  realmente um pequeno rgo, mas
gloria-se de grandes coisas. Vede como um pouco de fogo devasta uma grande floresta!
Tambm a lngua  um fogo, um mundo de iniqidade". (Tg 3,5-6). E como so graves
as palavras que se lem no livro do Eclesistico (cap. 28): "As chicotadas produzem
verges, mas os golpes da lngua quebram os ossos... Faze uma porta e fechadura diante
da tua boca: Funde o teu ouro e a tua prata e faze com isso uma balana para pesares as
tuas palavras e um freio bem ajustado para a tua boca".

Pode-se afirmar que, nem a peste, nem a guerra, nem a espada, produzem tanto mal
como pequeno rgo que se chama lngua. Quando surge uma epidemia numa cidade ou
povoao, vai-se alastrando sinistramente casa por casa; aqui arranca dos braos da me
uma querida criana; mas adiante atira ao leito de morte um robusto pai de famlia;
assim  grande a dor e a desgraa que vai causando a molstia fatal. A guerra sangrenta,
devasta o campo de batalha semeando a morte dos soldados, filhos que eram a
esperana e seriam o amparo dos pais, jovens que, pouco antes, haviam constitudo uma
famlia feliz; a gente sente-se possuda de uma dolorosa tristeza,  vista da desgraa que
o flagelo acarreta.

No entanto, o mal que faz a lngua, no  de certo modo, ainda maior?
A peste e a guerra so ocasionais e produzem por certo tempo seus efeitos malficos, ao
passo que a lngua tem um poder destruidor e atua cada dia, cada hora, cada instante e
por toda a parte? Com efeito, no somente num ou noutro campo de batalha, exerce a
lngua a sua atividade perniciosa, mas em cada lugar, em cada cidade e em cada aldeia e
em todas as camadas sociais; entre a alta sociedade, como tambm na classe mdia, nos
passatempos dos homens doutos, como nas oficinas dos nossos mestres, especializados
e aprendizes. Ela infunde a desconfiana aos nimos, prejudica o bom nome das pessoas
honradas, destri o lao das melhores amizades, arruna a felicidade familiar, fomenta a
desordem e o esprito de revolta na vida da nao e dos cidados, desacredita a religio
e a moralidade.  incalculvel o mal que produz a lngua desenfreada. Vigia, pois, a tua
lngua!

2 - No fales quando te for necessrio calar.

Sim, h tambm tempo em que o silncio se torna uma necessidade para que o nosso
esprito possa encontrar-se com Deus. Claro est que no precisars observar o silncio
como um trapista ou como um Moltke, (organizador de batalhas); no obstante, devers
dominar a vontade de falar, de maneira justa e razovel. No sejas, antes de tudo,
palradora e tagarela, no deixando nunca s outras pessoas, oportunidade de usar da
palavra. Tais paroleiras causam repulsas e ningum deseja estar com elas.

Essas pessoas soltam palavras ao ar e ningum d importncia ao que elas dizem, so
consideradas irrefletidas. Tambm os pecados se insinuam facilmente pela loquacidade,
pois, diz o Esprito Santo; "No muito falar no faltar pecado, mas o que modera os seus
lbios,  prudentssimo". (Prov., 10,19). Contudo h de se evitar o mutismo que destoa
a convivncia social. Cada qual, segundo o seu alcance, de maneira sensata, deve
contribuir com a sua parcela para a conversa social, como o exige a considerao que
merecem os demais. Em companhia, porm, de pessoas mais velhas, ceda-se a elas o
uso da palavra.

No que concerne s faltas do teu prximo, no deves falar, mas calar. A todos aplicam-
se as palavras do Divino Salvador: "No julgueis, para no serdes julgados". (Mt 7,1).

Sem motivo graves, nunca se deve falar das faltas e fraquezas dos outros. Guarda s
para ti o que rouba a outrem o bom nome e estende sobre os seus desvarios e pecados o
manto da caridade crist; salvo se o bem comum ou a obedincia o exigirem, fala a tal
respeito. Que de faltas, infelizmente, no se cometem hoje neste ponto! Quantos que,
por um vezo especial, criticam as fraquezas e os defeitos de uma pessoa ausente!

No  isto cristo, nem nobre! No deves falar, mas calar, quando algum, em momento
de grande excitao e num acesso de clera, te fizer qualquer reprimenda. Nestas
circunstncias,  mister considerar que toda palavra de esclarecimento e desculpa ser
intil  o mesmo que atirar lenhas a uma fogueira, e inflamar ainda mais a ira; nesta
situao embaraosa aconselha-se domnio e equilbrio. Passar logo a tempestade, sem
prejudicar-te.

Se tomarmos uma pedra e a lanarmos contra outra, levantar-se- um grande fragor,
chispas e estilhaos esvoaaro para todos os lados; se porm, a lanarmos sobre a l
macia j no ouviremos nenhum rudo. O mesmo acontece na nossa vida: um carter
violento no se enquadra com outro do mesmo tipo, mas  vencido pela pacincia e
serenidade. Conserva-te tranqila e calada! Aguarda o momento para qualquer
explicao.

Deves calar-te e no falar de coisas impuras e ignbeis. Sabes o que diz o Apstolo:
"Nem sequer se nomeie entre vs ... qualquer impureza ... como convm a santos" (Ef.,
5,3). Como este Apstolo no seria tomado de santa indignao, se em nossos dias
surgisse de improviso numa reunio de moos e ali ouvisse as conversas tais que fazem
subir o rubor s faces! At mesmo na presena de crianas inocentes, se proferem, s
vezes, palavras obscenas! No deveriam tais libertinos sentir pavor daquela terrvel
"Ai!" que o Divino Salvador pronunciou contra os que escandalizam os pequenos?

Finalmente, no deves falar, mas calar-te, em tudo quanto possa abalar a f do teu
prximo. No que tange a f, pode a m lngua causar muito mal: se escarnecer das
funes religiosas ou dos costumes piedosos; se galhofar da doutrina e da religio; se
expuser mentiras histricas, j milhares de vezes refutadas, pode facilmente destruir a f
dos coraes simples e empanar-lhes a felicidade e a alegria espiritual que a f lhes
destina na alma.  assim que comea para muitos o caminho da perdio.

3- No devers, porm, calar-te quando for preciso falar.

No podes calar-te, quando, em tua presena a honra de Deus e a sua causa so atacadas
com insolncia. Albano Stolz, narra um fato a esse respeito. Numa casa de veraneio da
Alemanha, um dos hspedes, no decorrer da refeio, alardeava a sua incredulidade,
zombando de tudo quanto se relacionava com a religio e principalmente falando de
Deus de maneira desdenhosa a blasfema. Ningum concordava com o insolente, mas
ningum tampouco sentia coragem de rebat-lo.

Levantou-se ento, um menino de seis anos ou menos, encaminhou-se para o incrdulo
zombeteiro, e qual anjo enfurecido disse-lhe, erguendo o dedo em atitude de amea-lo:

"No se fala assim de Deus!"

Ficaram todos profundamente comovidos com a apario do menino, e um senhor mais
idoso repetiu com lgrimas nos olhos: "Deveras! No se fala assim de Deus. Tens razo
menino!" Que motivo de confuso e vergonha no causa o exemplo desta criana a
muitas moas, que no se atrevem a replicar, quando so atacadas a honra de Deus, a
divina Pessoa de Jesus Cristo, Maria Me de Deus, ou qualquer verdade da nossa santa
f. No pertenas ao nmero destas almas vis e covardes.

No discutas sobre assuntos religiosos em lugares imprprios ou em ocasio importuna,
em regra, no trar isto nenhum, benefcio. Quando, porm, em tua presena se injuria a
Deus, ou a Igreja, no poders quedar-te insensvel, antes devers rebater a ofensa com
uma palavra enrgica. Se no estiveres em condio de faz-lo, procura evitar quanto
possvel tais pessoas. Nunca devers calar, quando em tua presena se fala injustamente
de pessoas ausentes. Neste caso toma o partido da pessoa criticada, dize uma palavra em
sua defesa ou justificao. Lembra-te, pelo menos, que  vil e descaridoso discorrer sem
necessidade sobre faltas alheias. Lembra-te as palavras do Divino Salvador: "O que
quereis que vos faam os homens, fazei vs tambm a eles" (Luc 6,31).
 um dever que te impe  caridade, que no permaneas indiferente, quando chegar ao
teu conhecimento que alguma das tuas irms ou das tuas amigas comeam desviar-se do
bom caminho. Quantas jovens que no se preservariam de extravios se tivesse uma
verdadeira amiga que oportuna e carinhosamente a avisasse!

Quando tomares conhecimento de que alguma de tuas colegas esto se encaminhando
por vias perigosas e fatais, s verdadeira amiga, estenda-lhe a mo. Reza alguns dias
principalmente por essa colega, recomenda-a, antes de tudo, ao seu Anjo da Guarda,
admoesta-a de maneira prudente, caridosa e sria, de modo que perceba que tens
intenes boas. Se o aviso no produzir efeito imediato, no percas a confiana,
continua a rezar, ainda mais por ela e a dizer-lhe, de quando em vez, uma boa palavra.
Assim poders, talvez, arred-la do caminho do pecado. Lembra-te destas palavras:
aprende a dominar a lngua, aprende a falar e calar oportunamente.

"Ouvi, filhos, as regras que vos dou sobre a moderao da lngua: aquele que as guardar
no perecer pelos lbios, nem cair em aes criminosas" (Ecli., 23,7)


            22 - BENEVOLNCIA PARA COM O PRXIMO




"Deus quando formou o corao do homem, plasmou-o na bondade", estas palavras do
genial Bossuet se aplicam a todos ns, principalmente  mulher, a quem Deus
enriqueceu com tesouros de bondade e delicadezas tais, que a torna apta para suavizar
as horas amargas da vida.

 vista da desgraa alheia, no se comove o corao da mulher muito mais depressa que
o do homem? No chora a moa e a mulher de vezes antes, sobre o infortnio alheio?
No estendem com mais prazer sua mo benfazeja para suavizar a necessidade alheia?
Em regra no resolvem dez moas consagrar-se, como irms de caridade, s obras de
misericrdia crist, antes que s rapaz queira prestar-se a tal sacrifcio?
Este trao de bondade e benevolncia, com que Deus marcou corao feminino, deves,
jovem crist, procurar conserv-lo e aviv-lo sempre mais. No te  apenas um adorno:
tambm se lhe anexa um grande poder, muito salutar e benfazejo a outrem.

O conhecido escritor ingls Faber, assim se exprime sobre o poder da benevolncia:

"Vejo uma multido de pequenos entes, com as faces veladas, quem em unio com a
graa e com os anjos executam as suas obras. Esvoaam por toda a parte. Consolam os
tristes, tranqilizam os aflitos, acalmam os enfermos, acendem nos olhos dos
moribundos um raio de esperana, mitigam as dores dos coraes aflitos e desviam os
homens do pecado. Parecem dotados de fora surpreendente: conseguem o que os anjos
no podem; insinuam-se nos coraes, a cujas portas se lhes abrem, voam de novo estes
pequenos mensageiros do Pai do Cu, para levar a graa. Estes pequenos, mas
poderosos entes, so os atos de bondade, que da manh  noite se acham ao servio do
bom Deus".

Servindo-se de uma comparao tirada da vida dos animais, certo escritor francs
procura expor o benefcio influxo da benevolncia, fazendo-nos ver como os prprios
animais no so insensveis ao toque da bondade.  a histria de um pobre cozinho,
que corre apressado ao longo do muro e se esconde quanto pode. As crianas
perseguem-no. Os trausentes o repelem a pontas-p.  um co do campo, cujo dono o
expulsou. Magro, faminto, imundo, passa as noites ao relento nos portes, de orelha em
p, receoso de ser enxotado impiedosamente. Ningum lhe d um olhar carinhoso, e at
os outros ces o assaltam com desprezo, por no serem to magros quanto ele. Passa um
homem; o pobre animal adivinha nele um salvador e se lhe arroja aos ps, implorando
alguma coisa com um olhar de amargura e tristeza.

O homem acaricia o cozinho, toma-o consigo e o restaura novamente. Pouco tempo
depois o animal adquire uma aparncia to bela, e altiva, que todos o apreciam e j
ningum o maltrata. Se tivesse permanecido faminto e desgraado, a raiva, a loucura, se
teriam apoderado dele. Como foi objeto de amor e assistncia, mostrou-se to fiel e
agradecido, e recuperou aquela aparncia bonita que os mesmos ces que antes o
mordiam com desprezo, agora o olham com inveja. Assim acontece tambm entre os
homens: a bondade torna-os felizes e a felicidade comunica-lhes beleza e dignidade.

1- S, portanto jovem crist, benvola e caridosa nos pensamentos, com relao ao teu
prximo.

"A caridade no suspeita mal", diz o apstolo dos gentios. No concede nenhum
pensamento injusto, nenhuma desconfiana infundada, nenhuma preveno.
Dificilmente acredita no mal que v; desculpa de bom grado a inteno quando no
pode desculpar a ao. Se possures caridade, muito mais facilmente e com maior
prazer, dirigirs os teus pensamentos e a tua ateno interna, antes para as qualidades do
teu prximo do que para as suas faltas. De fato, toda pessoa a par das imperfeies e
defeitos, possui tambm boas qualidades.  o que te ser fcil reconhecer e levar em
considerao, sem julgar com muita severidade as faltas alheias nem demasiado te
ocupar com elas. S como a abelha delicada que pousa sobre as flores e delas suga o
doce nctar, evitando feri-se nos espinhos. Disse um grande educador: "quem nutrir
amide pensamentos benvolos a respeito do prximo, instigado por motivos
sobrenaturais, no estar muito longe de se tornar santo".
Numerosos cristos, mesmo assduos  prece,  recepo dos Sacramentos nem por isto
se tornam santos, por no resistirem com bastante energia a pensamentos menos
caritativos que se lhes revolvem no interior, e proferirem acerca das demais sentenas
duras e inclementes. E quantas penas severas no atrairemos sobre ns, o Purgatrio,
por causa desta insensibilidade! Com todas estas asperezas ser-nos- impossvel entrar
no cu, e fruir da viso de Deus, que  o prprio Amor. Nem a morte as remover do
nosso corao; s restar que sejam aniquiladas em nossas almas, pelas chamas do
Purgatrio. E, se estas asperezas e insensibilidades forem muito graves, deveremos,
ento, temer que o seu peso nos arraste ainda mais a baixo, quela tremenda profundeza,
onde no reina mais nenhum amor, e da qual ningum se poder evadir.

2- S ainda benvola e caridosa no falar.

Primeiro, no trato com teu prximo. Tem srio cuidado em falar, sempre com
tranqilidade e mansido com as pessoas das tuas relaes, que, destarte ganhars
domnio sobre elas.  belo o provrbio alemo, que assim reza: "uma boa palavra
encontra um bom eco".  ein gutes Wort findet einem guten Ort.

Muitas amizades nobres e devotadas, que nada poder desligar, tiveram o seu comeo
em palavras amveis, sadas de um bom corao. Quantas desconfianas e preconceitos,
nutridos por longo tempo contra uma pessoa, no cessam de todo, porque num encontro
aparentemente fortuito com ela, se ouve de seus lbios palavras afveis e cordiais! 
como blsamo sobre o corao; tudo se torna claro e pacfico, toda preveno
desaparece e renasce o entusiasmo. E, no entanto, foram apenas umas poucas palavras,
que momentos depois o vento dissipou: mas a doura e suavidade com que foram
pronunciadas, tiveram a virtude de afastar do corao  camada de gelo e convert-lo
completamente.

Antes de tudo, guarda-te daquela nervosa irritabilidade to comum, em nossos tempos,
que se procura desculpar, com tamanha facilidade, e que ocasiona tantas amarguras, d
aso a palavras speras e severas observaes. Aprende a dominar-te, at mesmo quando
pensas que possuis nervos delicados e fracos, e permite somente palavras que alegrem e
edifiquem. Deves tambm ser benvola quando te revelam faltas do teu prximo. 
muito importante chamar ateno sobre este ponto. Que de males no causa quem
discorre, com tanto prazer, sobre as faltas e defeitos dos outros! Quantos dios e
desavenas, rixas e altercaes e cimes produz! Quanta confuso e desordem cria!
Com muita razo, diz a Sagrada Escritura; "Aguam as lnguas viperinas; tm veneno
de spides debaixo de seus lbios" (Sl. 139,4). Com muito rigor e severidade, fala So
Bernardo a esse respeito, no obstante, o seu cognome de melfluo:

"No  porventura a lngua a cobra mais cruel? Sem dvida, com seu hlito ela
envenena mortalmente. No  a lngua uma lana pontiaguda? Sem dvida, a mais
pontiaguda de todas, porque de um s golpe fere trs homens, ao mesmo tempo; aquele
a quem desonra, aquele que ouve, e aquele que fala".

Eis porque no deves falar sobre as faltas do teu prximo, a no ser que o exija um
motivo importante, e mesmo, neste caso, sem excitao apaixonada e s o necessrio.
Se outras pessoas em tua presena conduzem a conversa para tais assuntos, sem
necessidade, esfora-te por dar  palestra outra direo, ou defende a honra do prximo
com palavras pacficas e brandas, chama a ateno dos que assim falam para a injustia
e crueldade de tais maledicncias. Deste modo desempenhars o pacfico dos anjos,
suavizars a hora da tua morte e merecers sentena benigna no tribunal divino.

Jovem crist, s benvola para com os outros em todo o teu proceder, fecunda em obras
de misericrdia, sobretudo se puderes dispor de tempo e folgas e dissipaes, em
prazeres e divertimentos. Tudo isto tornar-te- ftil e superficial; roubar-te- a energia
da vontade, de que necessitas, a fim de poderes dominar as tuas ms inclinaes, criar
em ti um sentimento mundano, que h seu tempo dissipar o esprito cristo e far com
que tenhas por estranhos Deus e Sua santssima vontade.

No percorras o caminho da vida fria, insensvel e inconsideradamente. Reflete, muitas
vezes, na bondade de Deus para contigo, e confronta a tua situao com a daqueles que
tm de suportar um destino duro e cruel. Teus pais desdobraram-se para proporcionar-te
educao esmerada e no pouparam esforos para dar-te instruo suficiente, a fim de
que enfrentes o porvir com nimo sereno. Outros a que, muito cedo, perderam os pais,
pobres rfos, no encontraram ningum que se interessasse pela sua educao e
subsistncia. No poderias economizar alguma coisa nos teus vestidos e recreaes, a
fim de contribuir, com um bolo para a educao de tais rfos desamparados? Trajas
roupas finas com apuro e bom gosto, alimentas-te diariamente em mesa farta, dormes
em leito macio, habitas uma casa que no inverno  agradavelmente aquecida, e onde
nada falta para a tua comodidade.

Muitos h que no conhecem tais coisas por experincia; tantas casas onde o pai,
cuidadoso sustentculo do lar, demasiado cedo desapareceu da vida ou jaz enfermo
desde h muito, pelo que a pobre me se v obrigada a dedicar-se a duro trabalho para
sustentar os queridos filhos; e, todavia, a despeito das suas canseiras, apenas lhe 
possvel saciar-lhes a fome com mesquinha alimentao e prov-los de roupa suficiente.

No poderias, nas horas disponveis, confeccionar para essas crianas enregeladas um
agasalho quente? O Divino Salvador, sem dvida, haveria de recompensar-te
largamente, como fez outrora a So Martinho, o qual, sendo soldado, numa noite de
inverno cedeu a um mendigo que tiritava de frio a metade do seu manto. Gozas, talvez,
de sade exuberante e sentes como o sangue circula rpido e vivo em tuas veias; no
entanto, quantos doentes jazem longo tempo em seu pobre leito de dores, sem dinheiro
para chamar um mdico, e sem alimento que lhes possa fortalecer e restituir as energias
consumidas pela doena.

Dize-me, no poderias passar pelo tugrio destes pobres, a fim de fazeres algo por eles e
alegr-los com algum caridoso auxlio? Oh! tem certeza de que entrarias no quarto, ou
melhor, no corao destes doentes, como o sol brilhante e benfico; sentirias com isto
maior alegria interna e delcias mais intensas das que gozas num baile aparatoso ou num
passeio divertido. Sim, a benevolncia fazem-nos semelhantes a Deus, granjeiam-nos
seus favores e destilam em nosso corao descanso e paz. Lus XVI e sua esposa Maria
Antonieta passeavam certa vez s sombras da floresta pitoresca de Versalhes.
Encontraram-se com uma jovem que trazia um prato com uma s colher de estanho.

- "Que trazes tu, a?" interrogou a Princesa.
-"Alteza, a sopa para meu pai e para minha me, que trabalham l em baixo, no campo".
- "Com que foi preparada?"
- "Com gua e razes".
- "Sem carne?"
- "Ah! senhora, ns nos sentimos felizes e contentes, quando temos apenas po".
- "Leva, ento, esta moeda de ouro a teu pai, para que vos provenha de alimentos mais
substanciosos".

Cheia de alegria retirou-se a jovem, e Maria Antonieta seguiu-a com os olhos. Viu,
pouco depois, que a pobre gente se punha de joelhos no meio do campo.

- "Vs? meu querido, - exclamou a Princesa - esto rezando por ns. Oh! Deus, quanto 
doce fazer o bem!"

Nunca te esqueas, pois destas palavras da Sagrada Escritura: "No se afastem de ti a
misericrdia e a verdade; pe-nas ao redor do teu pescoo, e grave-as sobre as tbuas do
teu corao, que assim encontrars graa e boa opinio perante Deus e perante os
homens". (Prov., 3,3-4). Reflete amido tambm sobre as palavras de So Joo
Crisstomo: "Diante de Deus, mais vale ser misericordioso do que ressuscitar mortos,
pois  obra melhor alimentar a Cristo faminto, do que em Seu nome ressuscitar mortos".

                           23 - OS DOIS ROCHEDOS




Existem dois rochedos, que podem ser danosos para a juventude hodierna, e contra os
quais infelizmente se despedaam no poucas moas. So eles as amizades levianas e os
maus livros.

No tenhas amizade com pessoas de sentimentos levianos.  coisa muito importante
saber escolher as amizades. Com os bons sers boa, com os maus tornar-te-s m. Se a
gota da chuva cair sobre a flor, converter-se- em gota de orvalho e brilhar  luz do sol,
qual prola preciosa; mas se cair sobre a poeira da rua, tornar-se- lama, lodo. A
mocidade, facilmente, cria simpatia e amizades, o carter vivo, entusiasta e aberto dos
jovens inclina-os a procurar comunicao e correspondncia.
A conscincia de sua inexperincia, estimulada pelo isolamento e solido, desperta no
jovem o desejo de se unir a outrem e encontrar um corao que pulse em unssono com
o seu, numa sintonia de afetos e ideais. Esta inclinao afetiva pode ser uma cilada 
pureza da jovem, principalmente por causa de sua suscetibilidade s impresses vrias,
devido ao carter terno e malevel, e pelo esprito elstico e irrequieto, que se deixa
facilmente empolgar. Como podero as palavras carinhosas de um amigo no produzir-
lhe uma impresso que dificilmente se apagar?! Como certos princpios no atuaro
sobre ela de maneira perniciosa? Como os seus atos no a estimularo a imit-la? No 
este um fato constatado quando existe certa semelhana de carter, igualdade de gnio;
ou quando as pessoas amigas se distinguem por talentos magnficos, por sua
amabilidade natural e proceder atraente, por agradveis dotes de conversao, por certa
ousadia  qual dificilmente se resiste?

Quo pernicioso no ser para ti a convivncia com tais pessoas, se forem acostumadas
com conversas levianas contra a religio e os bons costumes! Como no te hs de
tornar, em pouco tempo, vacilante na tua santa f e na virtude! Embora tais
conversaes, no comeo, te repugnem sobremodo, ainda que tenhas recebido
aprimorada formao e gozes de natural tendncia para o bem, o mau influxo de tal
amizade no desaparecer, principalmente se houver assdua convivncia e trato
recproco. Dia a dia as gotas do veneno imoral iro penetrando na tua alma at que
enfim perders de todo o bom esprito e te perverters.

Tudo isto se verifica se as pessoas, com quem mantns amizade e convivncia, so
jovens que no possuem nenhum fundamento slido de formao religiosa e moral; mas
isto dez vezes mais se verifica se essas pessoas pertencerem ao sexo masculino. Como
se explica que muitas moas se desviam cegamente e caem em perdio? A razo
principal  esta: que elas inadvertidamente e sem aquiescncia dos pais alimentam
amizades com algum rapaz. Ainda que estes fossem anjos, mesmo assim os passeios
clandestinos, em horas imprprias e lugares inconvenientes seriam verdadeiras ciladas
para as incautas. Se alimentares tais amizades podes estar certa de que caras no lao do
inimigo; esfora-te, o mais possvel, por te libertares dele quanto antes, e no te impea
a tua natural afeio ao reconhecer o perigo. Exerce vigilncia sobre o teu corao e s
cautelosa! No te deixes seduzir por maneiras amveis, olhares fascinantes e palavras
melfluas; mostra-te, sempre, com nimo forte, e governa-te pelas mximas e preceitos
da santa F e da reta conscincia.

S com o conhecimento e aquiescncia de teus pais e vigiada por eles, ou por outros
parentes, poders travar relaes de amizade com algum bom rapaz com o qual
tenciones casar, e devers, naturalmente, conservar-te sempre dentro dos rigorosos
limites da decncia crist.

Alm disso, relaes de amizade s as ters com poucas moas, que tomam a srio os
seus deveres, quer religiosos, quer outros, o que poder fortalecer-te em tudo que  bom
e agradvel a Deus. Semelhante amiga  um dom inestimvel do Senhor e uma grande
felicidade para ti, sobremodo se te achares em lugar estranho e longe da casa paterna. O
convvio com ela dar-te- segurana e proteo contra muitos perigos, e te comunicar
alegria e nimo para o bem. Se a tiveres encontrado, permanece-lhe fiel, que da s te
proviro abundantes bnos. Aviso-te, porm, seriamente: evita, o mais que puderes,
toda convivncia com moas vaidosas e frvolas.
Abstm-te, outrossim, de livros dbios, que discorrem leviamente sobre coisas
religiosas, que despertam pensamentos e desejos impuros e sensuais. So tais livros, por
assim dizer, amigos sem vida, os quais, no obstante, podem exercer um influxo
deletrio e seduzir-te ao mal.

Na verdade, o livro pode-se ter sempre  mo, quer de dia quer de noite, no aposento
silencioso, no vago solitrio,  sombra do verde bosque.

Abstm-te dos livros que descrevem, sem nenhum recato, nem qualquer ateno 
decncia crist, as coisas mais obscenas, aliciando as mais vis paixes. O mau livro
apresenta em captulos longos, quadros vivos, cenas e debuxos, episdios que
estimulam, a imaginao, cativam agradavelmente o corao, alvoroam as paixes e
enchem todo o interior de imagens que, mais tarde, nas horas ociosas da solido, e at
mesmo, no sono, durante a noite, assomam de novo  alma e a precipitam cada vez mais
na imundcie corruptora. Eis porque a leitura de maus livros  to perniciosa; ela atua
como veneno mortal. Sorve-o a moa, dia a dia, quase inconscientemente, e mais cedo
ou mais tarde, porm, com toda a certeza, se manifestar no corao o seu efeito
destruidor. A virtude e a f se tornaro cada vez mais dbeis.
Talvez penses assim: eu preciso esclarecer-me e cuidar de minha formao; devo,
portanto, instruir-me e ler tambm esses livros. Mas que esclarecimento  este, que faz
naufragar a f? Que formao esta, que faz perder a inocncia? No  porventura a f o
maior bem do cristo e a inocncia o mais belo ornamento da juventude?

Nas obras de autores mpios ou imorais, aventa-se mentirosamente a dvida sobre a f,
como franca pesquisa cientfica, louva-se a descrena como esclarecimento do esprito,
pinta-se o vcio com cores brilhantes, e assim te arrebatam o precioso tesouro que  a
religio e a virtude. No leias, pois nenhum livro desses, embora escrito
magnificamente - veneno  sempre veneno, mesmo quando apresentado no frasco mais
fino. Se depois do cumprimento consciencioso e fiel dos deveres, tiveres ainda tempo
para alguma leitura, l ento bons livros, que te sejam teis ou que te instruam, de
maneira conveniente. No hs de ler tudo quanto te oferecem, com apresentao
magnfica, ou tudo que vs nas vitrines. O forte prurido pela leitura, que te conduz ao
abandono dos trabalhos e deveres, no deves permitir que medre em ti.

 mister que anteponhas a execuo dos teus trabalhos moderados s demais coisas.

Aconselho-te, outrossim, a adquirires certo domnio sobre a tua curiosidade,
interrompendo s vezes a leitura, quando ela se vai tornando muito interessante. Com
este processo se fortificar a tua vontade, de modo que poders oferecer resistncia a
tudo quanto seja prejudicial  verdadeira felicidade. No leias, porm, seno os livros
que te edifiquem. Ser-te- de grande utilidade o leres, cada dia, atenta e vagarosamente,
duas pginas do livrinho de ouro "Imitao de Cristo", aplicando a ti mesma o que diz o
autor. Poderei, outrossim, recomendar-te com grande empenho a "Filotia", de So
Francisco de Sales, ou o "Combate Espiritual", de Scupoli. Deus tambm te
recompensar, se aqui e ali, em ocasio oportuna, aconselhares, de maneira prudente,
um bom livro ou uma boa revista.
               24 - PREPARAO PARA O CASAMENTO




A elevada significao do casamento  por mais olvidada em nossos dias. Grande
nmero dos casamentos modernos so apenas fruto da irreflexo e fascinao.

Este desprezo do casamento constitui a causa precpua do mal que enferma o nosso
sculo. Oxal consiga a nossa juventude ter de novo em lato apreo o matrimnio, na
sublime significao, e possam principalmente, as que foram chamadas por Deus a esse
estado, abra-lo depois de uma boa preparao e com os melhores propsitos.

1  O casamento tem alta significao para a moa que o contrai.

A sua felicidade futura no depende deste passo? Oferea ela (donzela crist) a sua mo
a um jovem bom e digno, que lhe convenha; dedique-lhe amor fiel para fuso das suas
vidas; viva com ele em paz e harmonia. E no se dir ento que ela  realmente feliz?
Em tal casamento, cada um dulcifica a vida do outro; auxiliam-se e sustentam-se
mutuamente; a alegria duplica-se e eleva-se pela correspondncia; carrega-se a cruz
mais facilmente, e as amarguras da vida perdem a sua aspereza e seus espinhos.

E quanto no lucra, s vezes, uma mulher em beleza de carter, em nobreza de
sentimentos, em fineza de f e religiosidade, merc da convivncia de longos anos com
um marido virtuoso e excelente? Portanto, para uma moa, que no foi chamada por
Deus ao santo estado religioso,  uma grande graa e alta felicidade, unir-se em
matrimnio com um jovem excelente. Pelo contrrio, se o casamento, no conseguir a
fuso completa do corpo e do esprito j no proporcionar felicidade  mulher. Ainda
que a casa onde reside seja um palcio suntuoso; embora seja distinta e influente a
posio que ela ocupa na sociedade, no se sentir, deveras, feliz e contente; a despeito
do brilho da sua situao externa, a vida lhe ser um fardo opressivo.

E no ensina tantas vezes a experincia que a f e a virtude da mulher facilmente sofrem
grande abalo num casamento infeliz, e que, portanto, h fundadas razes de se recear
pela salvao de sua alma? Mas no  s para os cnjuges em particular que tem o
casamento uma alta significao; sua importncia estende-se muito alm. O casamento
exerce incalculvel influxo sobre todas as demais relaes humanas.  uma instituio,
em cuja fora se apiam todas as outras confederaes, sociedades e organizaes. No
excetuo nem o prprio sacerdcio catlico, ao qual a nossa santa Igreja muito
sabiamente e por motivos poderosos probe o matrimnio, pois no ser o Sacerdcio o
sal preservativo e eficaz, nem a luz da terra que difunde a vida, se no prezar a castidade
virginal. Se o casamento cristo for bom e feliz a sociedade tambm levantar seu nvel
moral, pois o casamento, a famlia, constitui a base da vida social.

Um rio deslizar sereno e lmpido pela plancie, se as fortes e os afluentes lhe levarem
gua tranqila e clara. Se a criana encontrar no santurio da famlia exemplos
edificantes e receber uma educao crist, desenvolver-se- nela o sentimento para o
bem e para o nobre; ela aprender a repelir tudo que for mau, imoral e vulgar; levar,
consigo, este bom esprito para a vida, e guiada por ele procurar cumprir
conscientemente os seus deveres em qualquer situao que se encontre. Assim tambm
os bons casamentos e as boas famlias sero o sustentculo e o apoio da ordem moral e
social. Se, pelo contrrio, os casamentos e as famlias forem anticristos, ser isto
indizvel mal para a sociedade, para o estado e para a Igreja. Pouco afeta  sociedade
que a desdita e a perdio lhe venha de fora, pois ela traz, em si mesma, no seu prprio
seio, o pior inimigo, o mais venenoso germe da perdio, que a reduz ao extremo: no
casamento profanado e na famlia sem Deus.

A histria dos povos e naes o tem testemunhado, mais de uma vez. Como poderia ser
de outro modo? Como pode deixar o rio de ser lodoso e turvo, de ultrapassar com
devastadora violncia as suas margens, se as nascentes so turvas e s lhe fornecem
guas turvas e impetuosas? Sim, o matrimnio e a famlia tm uma importncia que no
poder suficientemente apreciar. Surge, pois para a moa que tenciona casar a
importante pergunta: o que h de observar, a fim de contrair um matrimnio bom e
feliz?

2  Princpios fundamentais que deve ter em conta a moa que deseja contrair npcias.

Antes de tudo, cumpre examinar se realmente foste chamada para tal estado, se ests em
condio de cuidar de uma famlia e faz-la feliz. Se no tens sade, ou se teu noivo
goza de sade to precria, que possas prever uma viuvez precoce,  sinal evidente que
no deves contrair npcias. O mesmo se diga, se ele estiver gravemente onerado por
motivo de herana, ou se por outra razo qualquer no puder prover a subsistncia de
uma famlia; ser ento culpa grave o contrares npcias.

Atendendo-se s circunstncias da morte de um dos pais, tendo ainda irmos menores
para educar torna-se at dever para a moa protelar o casamento, porque neste caso no
poderia ela abandonar sua famlia deixando-a na misria. Se, todavia, depois de acurado
exame, pensas que deves abraar o estado matrimonial, s antes de tudo prudente na
escolha da pessoa com quem pretendes casar. No te induza, exclusivamente, a riqueza
ou qualidades corporais. Podem tais clculos interessar-te algum tanto, mas no sejam
razes decisivas para ti. Analisa as qualidades de esprito do teu pretendente, antes da
escolha definitiva.

No ofereas tua mo a um jovem, que no sabe honrar os seus pais, e os trata mal;
podes aderir que ele, ao depois, far o mesmo ou talvez pior ainda contigo... No
ofereas tampouco a mo a um indivduo grosseiro, arrebatado e incivil, que em
qualquer ocorrncia se deixa dominar pela clera. Apenas houverem passado as
primeiras semanas do teu casamento, ters que derramar lgrimas amargas porque
devers suportar diariamente o seu temperamento forte e impetuoso.
No contraias matrimnio com quem  amigo da taberna e tem o vcio da embriagues.
No tardars muito a sofrer aflies sobre aflies, e por fim te achars com toda a
famlia em estado de necessidade e misria, de tal modo que devers viver na indigncia
com teus filhos, e padecer fome, enquanto o teu leviano marido, num absoluto desprezo
dos seus deveres, sacrificar  sua paixo o dinheiro que ganhar. No suponhas, agora,
que mais tarde fars dele um homem bom e morigerado. Milhares e milhares assim
pensaram no perodo do noivado, mas viram, dentro em breve quo grande fora o seu
engano. Ao invs, da felicidade que esperavam, s tiveram depois cruz e desgraa.

Cuida tambm que o homem com quem desejas contrair matrimnio, pertena a uma
boa famlia crist. Os pais comunicam ao filho seu carter, transmitem-lhe determinada
inclinao moral,  guisa da herana para a vida. , portanto, grande felicidade
descender de uma famlia virtuosa, deveras crist, ao passo que  grande desdita ter
nascido de uma famlia sem moral e sem religio.  verdade que no segundo caso ainda
pode o filho ser bom, mas isto, de ordinrio,  coisa sobremodo difcil e s possvel a
custa de muitos sacrifcios.

Alm disso, atenta em que o jovem com quem pretendes unir-te por toda a vida,
professe praticamente o catolicismo. Mais tarde, com o volver dos anos, a religio o
enobrecer cada vez mais, lhe dar fora e vigor para cumprir com fidelidade os seus
deveres para contigo, para com a famlia e para com seus filhos. Nos dias sombrios
como nos dias radiantes, na desgraa como na felicidade, estar ao teu lado como fiel
esposo. Se, teu noivo no tiver religio, for um ctico, atacar a desprezar os dogmas e a
doutrina da Igreja, tomar atitude de ateu, no poder de forma alguma tornar-se, um
marido fiel e pai amoroso. Quem no  fiel ao seu Deus que est no Cu, dificilmente o
ser ao prximo, na terra. Quantas vezes no profana um homem desses o sagrado
juramento de fidelidade que, num momento solene fez  sua esposa. Friamente, poder
causar-lhe as mais amargas tristezas. No contraias casamento misto!

A nossa Santa Igreja apenas tolera tais casamentos com extrema relutncia, ainda
mesmo quando  garantida a educao catlica da prole. Fez no correr dos sculos
inmeras experincias desastrosas a este respeito. No h dvida que tambm h em
outras religies homens muito bons. Entretanto, prescindindo das raras e isoladas
excees, nos casamentos mistos, conforme os testemunhos infalveis da experincia
quotidiana, existe para a parte catlica e para os filhos, o perigo realmente grave da
insensibilidade religiosa e do indiferentismo.

As relaes familiares tambm exigem, como  natural, entre casados, unio de pontos
de vistas e correspondncia na prtica da religio. Se assim no for, haver entre os
cnjuges uma tal ou qual disparidade, que no permitir se estabelea entre eles
verdadeira harmonia interna e felicidade completa.

Uma distinta dama, que tambm se unira em casamento misto, mas que levava uma vida
piedosa, disse certa vez a um sacerdote catlico: "Ah! Quanta razo tem a Igreja de
proibir os casamentos mistos, e como seria para desejar que ningum, os contrasse,
pois, ainda os melhores, no valem nada. Externamente considerado, o meu casamento
pode incluir-se entre os mais felizes deste mundo, mas o pensar que o meu esposo,
quanto  religio, segue assunto sobremodo importante no nos compreendemos,  o
verme que causa  morte de minha felicidade, cujas picadas sinto todos os dias, mas
principalmente nas festas, quando o corao catlico pulsa com sentida emoo."
Talvez penses: no obstante, a Igreja concede a dispensa.  verdade, mas concede-a
profundamente contrariada e s depois de assegurada a garantia para o livre exerccio da
religio  parte catlica e para a educao de todos os filhos. Com isso, no aprova de
modo algum os casamentos mistos: tolera-os apenas, para evitar males maiores:
Tampouco assume a Igreja qualquer responsabilidade pelos efeitos funestos, os quais
recaem com todo o seu peso sobre os que contrarem casamento misto.

Acautela-te, pois, jovem crist, e de modo nenhum consistas num casamento misto,
cujas conseqncias sero por via de regra muito ms e muito tristes.

Se acertaste numa boa escolha, cuida antes do mais que tuas relaes com o noivo,
durante o noivado sejam puras, honestas, castas e virtuosas. No consistas jamais em
liberdade indecorosas. A fim de prevenir-te neste particular, contra todo o perigo, evita
qualquer encontro a ss, intil e prolongado, com o teu noivo.

Um noivado casto e digno assegurar-te- as bnos de Deus para um casamento feliz.
Quando chegar a hora, do passo decisivo, toma ainda mais a srio o que se relaciona
com tua vida religiosa. Aproxima-te mais amide dos Santos Sacramentos, reza mais
vezes e com mais fervor do que antes, e recomenda tambm freqentemente, na Santa
Missa, ao amoroso Salvador, os teus interesses. Poderia aconselhar-te a fazeres de
quando em quando alguma obra de misericrdia crist, a fim de granjeares por este
meio a beno de Deus sobre a tua futura vida conjugal. Algumas semanas antes do
casamento, faze uma boa confisso geral e no dia das npcias, recebe com grande
piedade a sagrada Comunho. Se seguires estes conselhos, poders esperar que tambm
o Divino Salvador tomar parte em teu casamento, para abenoar a ti e ao teu esposo.


                         25 - O ESTADO RELIGIOSO




A maioria das moas , sem dvida, chamada ao casamento. Deus, no entanto, escolhe,
s vezes, uma distinta jovem para o estado religioso, onde ela O dever servir, com
grande fidelidade e amor, pertencer-Lhe de certo modo totalmente e tornar-se Sua
esposa mstica. Sua vida toda com suas energias, desejos e esforos, transforma-se
numa agradvel oblao, num sacrifcio generoso a Deus,  humanidade sofredora, ou 
mocidade ignorante.

Tal vocao , por certo, grande honra e graa especial, pelo que no se poderia deixar
de felicitar a uma jovem assim contemplada.

1- O estado religioso  muito elevado.

 antes de tudo um estado de virtude e perfeio. Quem o segue se compromete a
trabalhar nele seriamente para a salvao, porquanto alm do exerccio das demais
virtudes, tambm se observam os conselhos evanglicos. Pode acontecer que alguns
membros isolados no se esforcem com zelo eficaz para a perfeio, que um ou outro
no haja rompido inteiramente com o mundo e, at mesmo, com o pecado. So, todavia
excees; em regra, h nos conventos de religiosos um srio e fervoroso esforo para a
conquista da virtude. O mesmo tambm se verifica nos conventos de religiosas. Que
bela vida de orao e piedade a domina!

Quanto amor e fidelidade os religiosos dedicam a Jesus Cristo. Quo alegremente
visitam o Santssimo Sacramento! Com que boa vontade e com que prazer executam
eles os trabalhos determinados! Como observam conscienciosamente a disciplina e as
prescries da regra!

Que de esforos para mutuamente praticar a caridade fraterna e suportar com pacincia
as cruzes quotidianas!  incontestvel que de modo geral reina em nossas Ordens
religiosas e nos conventos femininos uma vida florescente de virtudes. O estado
religioso  um coeficiente inestimvel para a salvao da humanidade. No quero aqui
relatar o que testifica a histria sobre a atuao das Ordens religiosas, para incrementar
o Cristianismo, para a formao, para a cultura, para as cincias e para as artes.

Quero simplesmente chamar  ateno a ao das Irms em nossos dias, constatado at
mesmo pelos insuspeitos adeptos de outras religies. Com que abnegao e altrusmo
tratam elas dos enfermos, assistem os moribundos, mitigando-lhes a dura a dura agonia,
educam as crianas, protegem os rfos, tornam-se muitas vezes para uma alma
inexperiente o anjo tutelar e conselheiro, fazem desabrochar a esperana no corao do
pobre e infundem consolao no nimo do oprimido; atraem com suas oraes e
merecimentos muitas graas sobre a Igreja e lhe acrescem os tesouros sobrenaturais que,
mediante a comunho dos santos, se convertem em bnos para todos.

O estado religioso proporciona  pessoa que o abraa e que o corresponde, uma grande
felicidade. Em regra, as religiosas so as pessoas que mais desfrutam da verdadeira
felicidade. Muita gente, que deste assunto nada entende, pensa naturalmente o contrrio.
Se uma jovem rica e formosa, que poderia lograr no mundo a sua felicidade, ingressa no
claustro, todos a lastimam e falam da vida solitria e triste reservada  pobrezinha. Mas,
se passados alguns anos, pudessem rev-la radiante de felicidade, julgariam as coisas de
modo bem diferente.

Santo Afonso de Ligrio, doutor da Igreja, que no decorrer da sua longa vida to ativa,
como sacerdote, religioso e bispo adquirira to copiosa experincia, costumava dizer
amide na sua velhice: "Foi nos claustros bem disciplinados que encontrei os homens
mais felizes". Assim . Os religiosos que tm verdadeira vocao para este estado, e
solcitos cumprem, de acordo com as suas foras, os deveres que abraaram, so, por via
de regra, mais felizes do que os que vivem no mundo. Livram-se dos muitos cuidados e
mltiplas aflies a que esto sujeitos estes.

O amor de Deus que os anima, o ativo exerccio de orao que os une em estreita
intimidade com Cristo, infundem-lhes no corao uma paz que o mundo desconhece.
At mesmo o sacrifcio que, por amor de Deus, faz a religiosa diariamente, na doao
generosa, na renncia dos bens terrenos e a si mesma, convertem-se para ela numa fonte
perene de paz interior e de felicidade. Realiza a mensagem de Cristo: "O meu julgo 
suave, e o meu peso leve" (MT. 11,30).

Visto ser o estado religioso uma escola florescente de virtudes, trazer muitos e grandes
benefcios para a salvao da humanidade, tornar contentes e felizes os seus membros,
quando estes, fiis e conscienciosos cumprem os seus deveres; pode ser tido com toda a
razo por um estado excelente e elevado e a moa que para ele for chamada deve
alegrar-se e julgar-se feliz. Em vista destas consideraes, podes objetar: Como pode
uma jovem saber se tem vocao?

2- Sinais que denotam falta de verdadeira vocao.

No tem verdadeira vocao, a moa que deseja entrar no convento, impelida por
motivos terrenos para ver-se livre dos cuidados da prpria subsistncia, pata granjear
honras e celebridades, para viver uma vida cmoda e agradvel. Quem se deixa dominar
por semelhantes intenes, no entre para o claustro, que de vocao no se lhe nota a
nenhum trao.

No tem vocao para o estado religioso a moa que, intelectualmente, no  sadia e,
equilibrada pouco talentosa ou de esprito obtuso ou muito propensa para a melancolia.
Pessoas nscias ou de escasso entendimento, no so feitas para a vida claustral, porque
no tm capacidades para preencher as atividades e as incumbncias concernentes 
vida que abraaram, muito menos para compreender os compromissos que assumem
com a profisso religiosa.

Almas melanclicas no devem tampouco ingressar no convento; porque os numerosos
exerccios de piedade, as profundas meditaes e todo aquele sistema de vida,
favorecem e aumentam nelas o pendor para a tristeza e melancolia. No ter vocao
para o estado religioso uma jovem fraca e doentia. Todos os conventos estabelecem para
as suas cndidas a condio de terem boa sade e principalmente no sofrerem de
nenhum mal hereditrio. As Religiosas devero, assumir grandes e importantes
responsabilidades de diversas espcies como: de professoras, de enfermeiras e as
prescries impostas pela regra qual seja: durante a noite, cantar o Ofcio divino. So
encargos que requerem pessoas de sade perfeita...

No ter vocao para a vida claustral uma moa obstinada e caprichosa: pois  isto
impedimento  perfeita obedincia que se deve praticar, no claustro, e  paz que h de
reinar entre os membros da Ordem. Ser muito difcil, e at quase impossvel uma
jovem de temperamento forte e arrebatado e de carter teimoso e obstinado, satisfazer a
estas importantes condies, salvo se, a poder de longos e decididos combates contra si
mesma, conseguir refrear-se e dominar-se.
No ter vocao para a vida Religiosa, uma jovem de forte e extraordinria inclinao
sensual, ou qui de maus costumes j inveterados. Somente depois de rigorosa prova
com promissores efeitos na represso da violenta sensualidade, poder talvez, pensar em
fazer-se freira. Sem isso, temerrio seria pretender fazer voto de castidade. No deve,
finalmente, pensar em ingressar no estado religioso uma moa  qual incumbe
particulares obrigaes para com os pais, que , por exemplo, o nico arrimo seguro na
sua velhice. Esta particularidade  indcio de que no tem vocao para o estado
religioso, a no ser que outros sinais o demonstrem.

3- Caractersticas que do a conhecer a verdadeira vocao.

Se pertenceres ao nmero daquelas almas eleitas, cuja vocao brota como flor viosa
do corao, poders entrar de nimo tranqilo. Desde a juventude, no conhecem tais
jovens outro intento, nem outro ideal. Sentir-se-o atradas, irresistivelmente, para esse
ideal. Sentir-se-o atradas, irresistivelmente, para esse ideal, e todos os seus
sentimentos e esforos tendero para ele. Chamadas por Deus, devem segui-lO: Deus as
far perfeitas e felizes. Se j desde largos anos possures um srio e sincero desejo de
perfeio, ou sentires uma inclinao cada vez mais pronunciada de te consagrares por
amor de Deus ao servio dos pobres e doentes, ou  instruo e formao da mocidade,
poders esperar que seja tua vocao verdadeira e que te no iludirs se a seguires
generosamente.

Se, apesar de sentires atrao para as vaidades e futilidades a despeito da propenso
para seguir as mximas do mundo e nele permanecer, Deus, de tempo em tempo, por
assim dizer, atravessar o teu caminho contrariando teus planos, desfazendo-os e por
sucessos inesperados invadir tua vida, inspirando-te nova tendncia para a perfeio e
para vida religiosa  ento no desprezes o chamado de Deus, antes atende  voz divina,
implora Suas luzes, prova-te seriamente e expe o caso ao teu confessor, ou a algum
sacerdote experiente e piedoso. No reveles os teus segredos a qualquer conselheiro,
que s poder perturbar-te e conduzir-te a uma vereda falsa. Pelos caminhos que te
deslindei agora, Deus, de vem em quando, tem levado para o convento certas pessoas
que chamava a grande santidade e benfazeja atividade.

No te admires, porm, se, no tocante  vocao para o claustro, encontrares
contrariedades e obstculos por parte de teus parentes e conhecidos.  o que sucede mui
freqentemente; s vezes, os prprios pais, no obstante pretenderem ser bons catlicos,
so os primeiros que sria e diuturnamente se opem  vocao religiosa da filha.
Sobretudo se a moa tem carter vivo, insinuam-lhe que no lhe serve o convento, dado
o seu gnero alegre e jovial.  provado pela experincia que as candidatas dotadas de
esprito expansivo, vencem com a maior facilidade os obstculos e se tornam as
religiosas mais felizes.

Se encontrares, portanto, contradies no te deixes abater nem desanimar; recorre a
Deus, com firme esperana e continua a cumprir com filial pontualidade os teus deveres
para com teus pais. Mantm, porm, firme e perseverante; supera tranqila e
corajosamente, todos os obstculos que te embaraam o caminho. Mais tarde, porfia
com todo o empenho por seres, deveras, uma santa religiosa.
  26 - MOAS QUE PERMANECERAM SOLTEIRAS NO MUNDO




H muitas jovens que no se casam. Algumas no sentem desejo, nem inclinao para o
casamento, mas no pensam tampouco em ser freiras, e destarte permanecem solteiras
por sua livre escolha. Outras h que optariam pela vida conjugal, mas o destino e as
circunstncias no lhes permitem dar tal passo. Devem estas fazer de necessidade
virtude e, com sujeio crist, reconhecer a mo de Deus, no governo de sua vida,
entregando-se humilde e pacientemente  sua santa vontade.

Desejaria fazer agora algumas observaes para louvor e consolao dessas almas.

1 - As jovens que permanecem solteiras so grandes perante Deus.

Sero grandes perante Ele, se guardaram fiel e integralmente a pureza virginal; pois,
mediante esta virtude, se tornam particularmente agradveis a Deus. A elas se aplica o
alto encmio da Sagrada Escritura: "Oh! Quo formosa  a gerao casta com seu
brilho! Sua memria  imortal, e  louvada diante de Deus e diante dos homens". (Sal.,
4,1) Santo Efrm exclama entusiasmado: "Oh! Virgindade! Tu s o que o Autor de
todas as coisas ama com predileo e em ti ocultou riquezas imperecedouras!"

Estas moas sero grandes perante Deus, se rezarem bem e com fervor. Enquanto os
demais membros da famlia desprezam a orao ou a fazem com negligncia, elas se
entregam muitas vezes a este piedoso exerccio conscienciosamente. Oram durante o
dia, quando os outros se preocupam em coisas materiais, oram durante a noite e se
prostram diante de Deus em seu quarto silencioso, enquanto os demais se entregam
somente ao descanso e s diverses; oram na igreja diante do Santssimo Sacramento,
que em regra ningum como elas to assiduamente visita; oram durante o trabalho que
executam com boa inteno, para honrar e servir a Deus.

As moas que permanecem solteiras so, freqentemente grandes diante de Deus, em
virtude do sacrifcio que lhe oferecem. Sacrificam por vezes a sua juventude, com as
alegrias e prazeres permitidos a essa idade; sacrificam um casamento que lhes promete
esperanas e, com isto, segura garantia para o porvir.

Tais sacrifcios e outros semelhantes fazem-nos elas generosamente, s vezes, por amor
de Deus, a quem consagram a sua virgindade, as suas aspiraes e toda a sua vida;
fazem-nos por amor a seus pais, dos quais desejam ser tutoras na velhice e nas
enfermidades ou fazem-nos tambm por amor de seus irmos menores, a cuja
subsistncia j no podem os pais prover sozinhos. Sujeitam-se, destarte, s privaes e,
durante longos anos, vo acrescentando sacrifcios a sacrifcios, a fim de
providenciarem pelo futuro dos seus irmos. So almas generosas, heroicamente
generosas, que merecem a nossa inteira estima a admirao. Como so elas grandes
diante de Deus! Como so pequenos e mesquinhos os insensatos, que s tratam com
desprezo to nobres e generosas donzelas!

2 - As moas que permanecem solteiras so tambm uma beno para os outros.

Em primeiro lugar, para os prprios parentes. Que de vezes no  uma destas moas a
consolao e o arrimo dos velhos pais, que ela envolve de amor e carinho! Depois da
morte dos pais, no raro se faz educadora dos irmos e irms menores, cuja me ela
substitui, e para os quais ela ser o amparo e sustentculo nos seus anos perigosos da
juventude!

Mais de um exemplo deste gnero tenho eu conhecido. Alm disso, amide se
transforma, como boa e querida tia, em benfeitora para os filhos de um irmo ou irm
casados.  ela com freqncia a causa que impede que desaparea da casa dos parentes
o bom esprito cristo. Se ela tivesse casado houvera contribudo para o bem de uma s
famlia, ao passo que ficando solteira contribui para a salvao de trs ou quatro
famlias, sem que por sua humildade, sequer, o perceba.

A beno da vida e aes de tais donzelas si, contudo, estender-se a um crculo mais
amplo. Quo til no , por vezes a uma comunidade inteira o seu exemplo de virtudes!
Como esparzem, de quando em quando, os seus benefcios, em toda parte. Que ricos
presentes no oferecem para as misses, para o socorro das pobres crianas
abandonadas e para outros fins nobres! Que de sacrifcios e esforos no se impem elas
em favor de uma boa causa! Nenhum passo lhes  penoso, nenhum retrocesso molesto.

No so essas jovens a fora motriz e o sustentculo das associaes pias, da Obra dos
Tabernculos e de outras sociedades beneficentes? O que uma nica jovem, animada de
esprito reto,  capaz de realizar, demonstra-o o exemplo de uma rica dama de
Hamburgo. Esta dama com grande pesar observou a triste situao e o abandono moral
em que viviam tantos marinheiros, nos portos martimos, privados de bens materiais e
de assistncia espiritual.

Fundou ento, uma sociedade, onde eles pudessem encontrar o necessrio para  vida.
Teve a grande alegria de observar que muitos voltaram ao cumprimento dos deveres
religiosos e a uma vida de virtudes. Aqueles marujos reconheciam-na como me e no
alto mar canes em sua homenagem.

3 - Conselhos e exortaes para as moas que se conservam solteiras.

Em primeiro lugar, digo-vos: alegrai-vos! Pode acontecer que sejais obrigadas a
renunciar a certas douras da vida, e que a solido, que talvez com o correr dos anos se
vai fazendo em torno de vs, vos parea molesta. Pode acontecer eu os vossos parentes
e conhecidos so se mostrem justamente gratos por todos os favores que lhes fizestes, e
por todos os benefcios que lhes dispensastes. Parentes e conhecidos h, demasiado
exigentes, em relao a uma jovem solteira, os quais desfrutam-lhe de tal maneira a
bondade, que ela mesma ao depois se v em dificuldades ou sofre at verdadeiras
privaes.

Cumpre-vos ser prudentes e em certas circunstncias permanecer firmes e resolutas
contra todas as tentativas que tenham por fim explorar vossa bondade. Sejam quais
forem, as experincias por que passardes, guardai-vos do enfado e descontentamento,
por quanto, se estes vos dominarem, vosso carter e toda a vossa vida se envenenaro:
vireis a ser insuportveis e, com o tempo, intolerveis nas vossas relaes com os outros
e vossa lngua se tornar asperadamente ofensiva.

Cumpre-vos, pois, combater sem trguas, qualquer sentimento desagradvel ao corao;
adorai a santa vontade de Deus, que s tem em vista o vosso verdadeiro bem; oferecei-
lhe, alegremente, tudo quanto na vossa situao sois foradas a suportar. Lembrai-vos
tambm que merc da vossa condio de solteiras, estais livres de muitas cruzes e
sofrimentos; pois o estado conjugal , em regra, para a maioria um estado de dores e
contrariedades.

Aproximai-vos muito amide dos santos Sacramentos e recebei-os sempre com boa
preparao. Assisti, quando as condies o permitirem, assiduamente, e mesmo todos os
dias,  Santa Missa, e uni os vossos sacrifcios ao sacrifcio infinitamente precioso de
Jesus Cristo. Rezai com toda a piedade, praticai uma ou outra devoo predileta, por
exemplo, a devoo  Santssima Virgem, e, sobretudo a devoo ao Sagrado Corao
de Jesus, eu  to particularmente salutar e rica de graas para ns.

Guardai-vos, porm, na vossa piedade contra toda manifestao ruidosa de
sentimentalismo e desagradveis singularidades; exercitai-a de preferncia, com certa
jovialidade de esprito, por um trabalho atento e alegre, por um afvel julgar e falar a
respeito dos outros. Finalmente, mostrai-vos teis, segundo as vossas foras e sede
benfazejas. Se fordes ricas e abastadas, isto vos ser fcil e podereis espalhar em torno
de vs muitas bnos. Se no fordes ricas, mas dedicadas ao trabalho e razoavelmente
econmicas, ainda podereis fazer muito bem.

Existem almas nobres que passam fazendo o bem. Em todas as circunstncias e em
qualquer profisso, como: de costureiras, empregadas, funcionrias, que com o dinheiro
que economizam, distribuem ricos donativos para nobres fins. Como Deus 
infinitamente bom recompensar um dia generosamente a estas boas almas por tudo que
fizeram! "Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcanaro misericrdia".
